Espaço do Diário do Minho

Com a vida impregnada de Evangelho

24 Jan 2023
Luís Martins

No Domingo passado celebrou-se a Palavra de Deus de uma maneira especial e fomos convidados a renovar a nossa vida, aproveitando a acção que a Palavra pode produzir dentro de nós, assim queiramos acolhê-la. Como disse o Papa Francisco, a Palavra inspira bons propósitos e apoia a acção; dá-nos força e serenidade”. Recordei como pode ser banal e oca a nossa vida se não experimentamos o anúncio do Evangelho nos diversos contextos em que nos movemos, sendo que a melhor forma de o fazermos é torná-lo acção nas nossas atitudes e nas nossas actividades. Muitas vezes não nos damos conta das pessoas que à nossa volta – na nossa Família, no nosso núcleo de amizades, no nosso emprego –, praticam o Evangelho.

O José Augusto, meu querido irmão, o quarto filho de uma família de treze, entregou a sua alma ao Pai na última quinta-feira, ainda o sol se escondia abaixo do horizonte. Padecia de um carcinoma raro, detectado há menos de dois meses atrás. Era um homem de amor, por isso, era dos que praticava o Evangelho. Fazia-o diariamente. No lar, no trabalho, nos momentos de lazer. Amava os seus, mas também aqueles com que se cruzou na vida. Muito inteligente, com enormes capacidades – só não cursou na universidade porque preferiu aplicar-se ao trabalho, à Família e aos outros, de diversas formas -, nunca se envaideceu com os seus sucessos e foram muitos. Jamais procurou ou aceitou o palco. E se alguém lho queria oferecer, logo o devolvia ou o dava a outro.

A esposa, as filhas e os quatro netos – duas meninas e dois meninos – eram a grande paixão da sua vida, mas aqui a vaidade traía-o nos olhos e escorria-lhe pelas faces num tom de sorriso sereno, mas encantador. Era a única situação em que o seu “pecado” era capital. E sem deixar para trás a restante Família, guardava sempre algum tempo para as causas em que acreditava, causas de amor ao próximo que aprendeu a agarrar desde os tempos da juventude, altura em que se desprendeu de tudo e militou na Juventude Operária Católica (JOC).

Os mais chegados era assim que o caracterizavam: um Pai exemplar, um marido protector, um irmão muito amigo e disponível, um ser humano simples, afável, conversador e bondoso. Para outros, era um profissional competente e dedicado que tinha sempre para cada problema uma solução ou uma iniciativa a apresentar.

Da conjugação de uma conta com outra da realidade contabilística de uma empresa até à elaboração de um projecto financeiro, passando pelo apoio a uma instituição da rede de cuidados a crianças e jovens com Necessidades Educativas Especiais, para dar apenas alguns exemplos, eram actividades correntes da sua vida profissional e solidária a que emprestava o seu saber, alegria, conhecimento e desprendimento todos os seus dias. E devo destacar, pela importância que desempenhou nas instituições, a sua participação na Cruz Vermelha Portuguesa, onde doou muitas horas em solidariedade, e bem assim a sua participação na CERCI Braga, onde foi fundador e cooperador atento e diligente. Desabafos como “uma perda para a cidade de Braga” e “o que será de nós sem o José Augusto?” constituem a expressão da amizade, do carinho, mas também das qualidades e da segurança técnica que o José Augusto emprestava às organizações a quem oferecia parte do seu tempo.

Recentemente, o José Augusto tomou conta de um café para poder ter os amigos perto dele, numa convivência fraterna, alegre e descontraída depois do trabalho. Agora que partiu, para que não feche, são os amigos a querer manter a ideia e a vontade dele: “nós estamos cá para alimentar a ideia do seu irmão; ele vai ficar satisfeito por nós mantermos o sonho dele”, contou-me há dois dias o meu irmão Manuel.

Concluo com duas frases do texto que as filhas Sofia e Joana dedicaram ao José Augusto no dia do seu funeral: “Tu foste sempre ‘a casa’ para nós e para os outros. Transportavas as pessoas para a tua Família como se tivessem nascido dentro dela”. Lapidar! O José Augusto tinha bem assimilado que a Palavra de Deus se cumpre pela prática do mandamento do amor. Viveu uma vida impregnada de Evangelho.



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