Espaço do Diário do Minho

Bento XVI e outros óbitos, na viragem do ano

24 Jan 2023
Eduardo Tomás Alves

  1. Sincronicity). Lembrei-me agora de um dos melhores temas do cantor Sting, o “Sincronicity”. E lembrei-me da única vez que visitei, no Restelo (em 1994), em sua casa, num fim de tarde outonal e chuvoso, o prof. Hermano Saraiva. Desejando eu trabalhar num jornal de Lisboa, fui lá levar a cópia dos meus primeiros artigos, publicados no JN, do Porto; para seu exame. O velho ministro de Salazar, historiador, advogado e publicista, ter-se-á sentido enganado; pois pensava era que iria dar mais uma entrevista, neste caso, a um jornalista vindo do Porto, que era eu… Mas lá me arengou, na sua sala de estar, por uma boa meia hora; e disse para deixar ficar, que tinha um sobrinho (J. A. Saraiva) “que era director de um jornal”. Passados quase 2 meses, pelo Natal, telefonei-lhe, a saber a sua opinião. E o professor disse que os artigos ainda estavam “verdes”, mas que continuasse. Esta (eventualmente correcta) opinião negativa, feriu a minha auto-estima. E deu origem a uma “correspondência” (não biunívoca) entre mim e o historiador; na qual lhe procurei demonstrar que já não estava assim tão verde. E lembrei-me do seguinte argumento, pelo qual ele me permitisse arguir contra a sua opinião, como se eu fosse uma pessoa da sua idade e estatuto. Era o seguinte: “Como registarão os vindouros a nossa passagem por este Mundo? Pela data da nossa morte ou pela do nosso nascimento?”. E quem diria, salvo seja, que eu não seria “mais velho”, pois, por um qualquer acaso, eu poderia falecer antes do meu veterano interlocutor. Do curto relacionamento nada resultou para mim. Mas poderia. Até porque, 2 anos depois, uma das minhas primas de Lisboa iria casar com o filho duma irmã da esposa do prof. Hermano. Facto de que eu só tive conhecimento cerca de 6 anos depois…

  2. Alguém adivinharia que a data da morte aproximaria Bento XVI, de Pelé e de Linda de Suza?). Claro que não. Mas a História registará que todos faleceram ou em finais de 2022 ou no início de 2023. Foi também o caso dos futebolistas Mészáros e Lucca Vialli; do cantor e compositor Pablo Milanés; da cantora Gal Costa; da actriz Gina Lollobrigida; do melómano e jornalista António Cartaxo; e do escritor, jornalista e publicista A. Mega Ferreira.

  3. Notas sobre um bom Papa, Sua Santidade Bento XVI). Homem cultíssimo, o grande cardeal Joseph Ratzinger nasceu em Marktl am Inn, diocese de Passau, no alto Danúbio austro-alemão, em 1927. O pai era comissário de polícia (filho de lavradores) e a mãe, cozinheira (filha de artesãos), da zona do lago Chiem, o Chiemsee. Os gigantescos Alpes do Tirol, ao fundo, a sul, onde se canta ao modo do arrebatador “jodel”. Perto do lugar onde nasceria Paul Breitner, o futebolista campeão mundial de 1974. Perto da Salzburg do sobredotado mas algo “desbragado” compositor W. A. Mozart, um iniciado na Maçonaria, a qual lhe foi ingrata. E perto da Braunau onde nascera Hitler (em 1889), esse outro impactante líder político, militar (e religioso…). Obrigado pelo Regime do último, aos 17 anos, a combater na defesa “anti-aérea”, lá fugiu como pode. E iniciou depois a sua carreira sacerdotal e episcopal. Esteve ligado ao Concílio Vaticano II, como perito. Mas daí para a frente terá evoluído duma certa “esquerda” do Catolicismo, para uma “direita moderada”; sobretudo na sua chefia (desde 81, com J. Paulo II) da Congregação para a Doutrina da Fé. Já era cardeal desde 1977 (com Paulo VI). Foi eleito Papa em 2005. E sabiamente (por motivos da idade) renunciou em 2013. Faleceu agora, aos 95 anos.

  4. Pelé). É seguramente um dos maiores futebolistas de sempre. Presente em 4 fases finais do Mundial. No da Suécia (1958), com 17 anos, marcou 6 golos em 4 jogos. No do Chile (1962), lesionou-se e só marcou 1 golo em 1 jogo. No de 1966 (Grã-Bretanha), 1 golo em 3 jogos. E no do México (1970), 4 golos em 6 jogos. Foi tricampeão e marcou nas finais de 1958 e de 1970. Ao todo, ca. de 1000 golos, sendo o seu clube o Santos (S. Paulo). Vi-o em pequeno, num Portugal-Brasil (0-0), no histórico estádio que o snr. Pinto da Costa mandou demolir (o das Antas). Houve uma jogada em que Pelé, com um falso movimento (sem bola) para a lateral, levou atrás de si 2 ou 3 defesas lusos, abrindo um corredor no meio, por onde seguiu o ataque brasileiro. Classe…

  5. Milanés, Gal, Lollobrigida, Mega Ferreira). O 1.º é o autor duma das mais belas canções jamais escritas, a tropical “Yolanda”. Gal pode ser parente do “nosso” Fausto, pois ambos são Bordalos. Gina, uma beldade sofrível, nasceu como eu, a 4 de Julho. E Mega detestava um autor que muito admiro, o bejense frei Agostinho de Macedo (1761-1831).

  6. Morre uma “portuguesa de ouro”, Linda de Suza!). Como muitos dos nossos grandes, que são desprezados ou invejados em vida. Em nova, com uma cara bela, uma presença de “vamp”, uma voz de amante, balcânica mas fadista, espiritual, poderosa, irónica. Para os franceses (uns burros…) foi uma “nova Amália”. Baptizada Teolinda Joaqª de Sousa Lança, nascera em Beringel (Beja), há 74 anos. “Que fizeste à vida”. “Chuva, chuvinha”. “Um português”. “Não te cases”. “Uma moça chorava”. “Lisboa”. “Casa portuguesa”. “Lx, não sejas francesa”. Etc.. Nunca lhe farão um triplo CD, de carreira…



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