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Dst integra consórcio responsável por obras problemáticas na Linha do Norte

A obra está atrasada um ano face ao tempo definido pelo contrato assinado. Três incidentes em janeiro criaram situações de risco na principal linha ferroviária do país.

João Pedro Quesado
21 Jan 2023

A dst, empresa de engenharia e construção de Braga, faz parte do consórcio ibérico que tem a cargo as obras na Linha do Norte que, para além de estarem atrasadas, têm causado incidentes no troço entre Espinho e Gaia, como os dois buracos que se abriram em menos de uma semana. A notícia foi dada pelo jornal ECO esta sexta-feira.

Os cerca de 14 quilómetros estão a ser intervencionados pela dst e pela espanhola Azvi desde julho de 2020 – após o Tribunal de Contas validar o contrato de 660 dias, que tinha sido assinado a 17 de março desse ano, no valor de 55,3 milhões de euros, ao qual são acrescidos quase 13 milhões em IVA. 

Mais importante que o IVA são as sucessivas modificações a que o contrato já foi sujeito, a última das quais a 11 de janeiro, de acordo com o portal BASE. Essa foi, de resto, a 29ª modificação do contrato assinada por todas as partes. No somatório de todas elas, já foram deduzidos quase 900 mil euros ao valor base inicial mas, por outro lado, já foram acumulados adicionais de mais 9,6 milhões de euros.

A obra é comparticipada em mais de 80% por fundos europeus, e faz parte do afamado Ferrovia 2020, um programa de investimentos que, em março de 2022, segundo um relatório da Autoridade da Mobilidade e dos Transportes (AMT), tinha um atraso “global” de dois anos e três meses, e apenas 15% dos projetos concluídos. As obras entre Espinho e Gaia foram originalmente programadas para decorrer entre o último trimestre de 2017 e o segundo de 2019. Só devem ficar concluídas no final de 2023.

Esse mesmo relatório aponta como riscos da intervenção na Linha do Norte entre Gaia e Ovar – da qual fazem parte as obras em que a dst está envolvida – as “dificuldades dos projetistas e empreiteiros”, a publicação oportunida das autorizações de despesa, a “eventual degradação do quadro macroeconómico e o espaço de tempo entre empreitadas para minimizar sobreposição” – o que significa que a intervenção até Ovar só vai começar quando a atual, entre Gaia e Espinho, for concluída. A intervenção nesse troço forçou a limitação da velocidade de circulação dos comboios desde o seu início, acrescentando mais tempo às viagens que usam o principal corredor ferroviário português.

Apenas em janeiro, de acordo com o ECO, três incidentes separados no troço entre Espinho e Gaia podiam ter causado um grave acidente ferroviário. A 2 de janeiro, a plataforma provisória instalada num apeadeiro, em Madalena, fez que com os comboios que seguem para Aveiro não possam lá parar. Os outros dois danificaram a própria via onde os comboios circulam.

No dia 12, registou-se o primeiro e maior abatimento de via, em Francelos, em Vila Nova de Gaia, na via onde circulam os comboios com destino ao Centro e Sul do país. O buraco de grandes dimensões abriu-se por cima de uma passagem inferior que está em construção e, segundo a CP, forçou o cancelamento de 52 comboios, e atrasou 130, num total de 7.320 minutos de viagem perdidos.

Menos de uma semana depois, na quarta-feira, dia 18, houve novo abatimento de via, desta vez na de sentido Sul-Norte, junto à estação técnica de Francelos. A causa foi uma “rotura numa passagem hidráulica”, que não tinha sido intervencionada nas obras em curso, segundo a Infraestruturas de Portugal – que já repôs a circulação sem limitação da velocidade.

Ainda de acordo com o ECO, a dst não respondeu a pedidos de esclarecimento, e o IMT – a autoridade de segurança ferroviária – “solicitou à IP informação detalhada sobre os incidentes em causa”, aguardando esclarecimentos. Já o Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários iniciou “um processo de averiguações”, do qual pode resultar “a abertura de uma investigação aprofundada” às ocorrências.





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