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Associação portuguesa recebeu distinção do Comité Económico e Social Europeu em Bruxelas.

Luísa Teresa Ribeiro*
12 Jan 2023

O Movimento Transformers foi distinguido com o segundo lugar no Prémio do Comité Económico e Social Europeu (CESE) para a Sociedade Civil 2022 pelo programa “Escola de Superpoderes”, que intervém junto de jovens desfavorecidos e promove o voluntariado.

A associação com sede no Porto e que tem vindo a desenvolver o seu trabalho em vários pontos do país, incluindo o Minho, em municípios como Amares, Arcos de Valdevez, Braga, Esposende, Fafe, Famalicão ou Guimarães, recebeu um prémio no montante de 8 mil euros, numa cerimónia que decorreu, no dia 15 de dezembro, durante o plenário do CESE, em Bruxelas.

A título excecional, dado 2022 ser o Ano Europeu da Juventude e o forte impacto social da invasão da Ucrânia, o prémio teve duas categorias: Capacitar os Jovens e Sociedade Civil Europeia pela Ucrânia.

A edição deste ano Prémio para a Sociedade Civil deste ano recebeu 106 candidaturas de 21 Estados‑Membros.

A organização portuguesa foi premiada no galardão para juventude, com um projeto no qual mentores voluntários dão aulas da área em que têm talento a jovens aprendizes em situação de exclusão social ou abandono escolar.

Os mentores candidatam-se com um talento, que pode ser de setores tão diversificados como o desporto, a culinária, a fotografia ou a escrita criativa, para dar aulas uma vez por semana, durante todo o ano letivo, a crianças e jovens de bairros sociais, lares de acolhimento, prisões juvenis e escolas.

Em 12 anos, a associação mobilizou mais de 6 500 aprendizes, 600 mentores, com o trabalho em mais de 22 cidades, reduzindo o insucesso escolar em 43%. Os dados indicam que 30% dos mentores voluntários já foram aprendizes e que 89% dos mentores continuam a fazer voluntariado neste ou noutros projetos.

Perante os membros do CESE, Inês Franco Alexandre, representante do Movimento Transformers, relatou a sua experiência pessoal para explicar que o sucesso do projeto assenta no facto de pôr as pessoas a fazerem aquilo que realmente gostam. «Não me tinha envolvido porque ainda não tinha descoberto a forma certa de usar o meu talento», explicou, revelando que, há sete anos, descobriu que a sua paixão pelo hóquei em patins podia fazer a diferença no dia-a-dia dos jovens de um lar de acolhimento. «Acreditamos os jovens não se envolvem no voluntariado porque ainda não encontraram a forma de fazer a diferença», enfatizou.

Esta responsável refere que a transformação das competências pessoais numa atividade voluntária é relevante para incentivar o voluntariado em Portugal, um dos países da União Europeia com os piores índices de voluntariado: apenas 7% da população portuguesa faz voluntariado.

Este foi precisamente o ponto de partida da associação, que surgiu quando o atleta de natação de alta competição João Brites descobriu a sua paixão pelo breakdance. Foi nas ruas de Palmela, com o grupo In Motion, que se apercebeu que havia um grande potencial para trabalhar as comunidades através dos talentos individuais e que cada um poderia ser um transformador (“transformer”).

A associação surge com a presença no Fórum Económico Mundial de Davos, em 2010, através do programa Global Changemakers, tendo como um dos seus grandes valores a devolução da aprendizagem à comunidade (“payback”). Assim, nas Escolas de Superpoderes, «os mentores ajudam os aprendizes a desenvolver competências que lhes permitam tornar-se agentes da mudança e retribuir com base no que aprenderam para transformar positivamente a sua comunidade».

Concretizando este princípio, todos os anos, as turmas identificam um problema específico na comunidade onde se inserem e promovem atividades para a sua resolução, retribuindo a aprendizagem que tiverem. Deste modo, o programa «aumenta a participação cívica, social e política dos jovens, sensibilizando-os e encorajando-os a assumir a responsabilidade pela resolução de problemas ambientais, sociais e económicos a nível local».

Inês Franco Alexandre relata que, entre 2010 e 2015, este era «só um movimento de miúdos que queriam provocar a mudança em Portugal». Perante a falta de capacidade de resposta às solicitações, deu-se então a profissionalização, tendo agora a associação cinco pessoas a tempo inteiro, sendo que três fazem gestão de voluntariado, o que significa que ajudam os voluntários a transformar as suas competências num modelo pedagógico e acompanham a implementação da formação, seja qual for o ponto do país onde esteja a decorrer.

A Escola de Superpoderes é atualmente um modelo que a associação vende a municípios e outras entidades para angariar verbas que lhe permitam levar esta atividade a locais que não têm capacidade de pagar a sua implementação. O valor deste prémio vai permitir que o projeto chegue a mais 75 jovens em risco de exclusão social, de três ou quatro instituições.

«Creio que ainda temos margem para crescer e que podemos fazer a diferença, não só em Portugal, mas também no mundo. Este reconhecimento europeu dá-nos mais oportunidades de aprender e de ver surgir mais Escolas de Superpoderes por todo o mundo. Queremos gerar mais impacto, garantir a igualdade de oportunidades para todos na educação, reforçar o talento dos jovens e, ao mesmo tempo, aumentar a sua participação cívica e social», afirma.

A dirigente destaca que este prémio projeta cada vez mais longe o trabalho que está a ser desenvolvido, para além de pôr o Movimento Transformers no centro de decisão europeia, conseguindo ter capacidade de influenciar o sistema político para promover a mudança (“advocacy”).

Este é um dos objetivos da associação, que desenvolveu novas áreas de atuação quando se apercebeu que era necessário expandir a sua atividade para conseguir concretizar a missão de aumentar os índices de participação cívica e social em Portugal, como refere Marta Antunes Rodrigues. Este alargamento traduziu-se em programas de associativismo, liderança, consciencialização e “advocacy”.

Paralelamente, o movimento está a fazer um teste a diferentes modelos de funcionamento das Escolas de Superpoderes: o modelo tradicional, mentores pagos, os jovens escolhem a área que lhes interessa e a associação arranja os mentores e turmas que reúnam mentores e aprendizes de várias instituições. Vai ser feita uma avaliação dos quatro modelos, de forma a ser encontrado aquele que tenha «o maior impacto possível na vida dos jovens», refere esta responsável.

Anualmente, a avaliação de impacto é certificada pelas academias de conhecimento da Gulbenkian e da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto.

Como uma das grandes conquistas, o movimento aponta a nomeação da diretora executiva, Joana Moreira, para a Ashoka, a maior rede mundial de empreendedores sociais.

 

Europa precisa mais do nunca de bons exemplos de cidadania ativa

As mais de cem candidaturas apresentadas ao Prémio do Comité Económico e Social Europeu (CESE) mostram que as organizações da sociedade civil estão a desenvolver um trabalho notável em toda Europa.

Perante os seis vencedores do prémio, este ano dividido nas categorias Capacitar os Jovens e Sociedade Civil Europeia pela Ucrânia, a presidente do CESE afirmou que, nestes tempos difíceis, mais do que nunca, «a Europa precisa deste tipo de exemplos e do empenho da sociedade civil».

«A vossa solidariedade e as vossas iniciativas pela Ucrânia fizeram a diferença para centenas de milhares de pessoas. As vossas iniciativas para capacitar os jovens desfavorecidos terão um impacto nas suas vidas. Os vossos projetos e o vosso empenho na sua execução constituem um verdadeiro exemplo de cidadania ativa», declarou Christa Schweng.

Queremos que as vozes dos jovens sejam tidas em conta pelos decisores europeus.

Christa Schweng, presidente do CESE

Na categoria Sociedade Civil Europeia pela Ucrânia, a vencedora foi a associação romena  distinguida pela «integração harmoniosa» dos refugiados ucranianos na Roménia, centrado na região de Sibiu. Afastando-se do seu trabalho habitual de apoio a doentes com cancro, esta organização levou a cabo iniciativas para ajudar mais de 50 mil ucranianos, desde as atividades escolares e a procura de emprego até à terapia e ao apoio psicológico. Tal permitiu, por sua vez, que «as famílias ucranianas se integrassem de forma harmoniosa na sociedade romena, uma vez que lhes conferiu um sentimento de pertença e um lugar seguro, tanto físico como mental».

Em segundo lugar ficou à Fundação , de Espanha, com o projeto “Estás em Segurança”, que levou crianças ucranianas doentes com cancro acompanhadas pelas mães para serem tratadas em Barcelona. Recorrendo ao trabalho em rede com várias organizações, esta instituição com mais de 30 anos de experiência no trabalho com cancro infantil socorreu crianças afetadas pelo duplo horror da guerra e da doença oncológica, proporcionando-lhes tratamentos em hospitais de referência e todas as condições para o seu restabelecimento.

O terceiro lugar foi para a Associação Polaca de Guias e Escuteiros (ZHP), a maior organização de educação não formal de jovens do país, que se mobilizou para ajudar os ucranianos assim que a guerra começou. Os voluntários da ZHP têm estado nos pontos de passagem na fronteira entre a Polónia e a Ucrânia, orientando as pessoas para lugares seguros, prestando informações, recolhendo e transportando donativos e organizando “patrulhas fronteiriças” com experiência em primeiros socorros. A associação centrou-se em particular nas crianças ucranianas, recolhendo brinquedos, apoiando-as psicologicamente e incluindo-as nas atividades dos escuteiros.

Cabe-nos avaliar devidamente o impacto de todas as nossas políticas nos jovens e envolvê-los em todas as fases dos processos de decisão. Já não basta escutar e consultar os jovens. Chegou o momento de criar, conceber e produzir as políticas em conjunto com eles.

Cillian Lohan, vice-presidente do CESE

Relativamente à categoria dedicada à capacitação dos jovens, a vencedora foi a Fundación Secretariado , de Espanha, com o projeto “Aprender Trabalhando”. Constatando que os jovens de etnia cigana tinham taxas de desemprego três vezes superiores, foi desenvolvido um programa de formação para a faixa etária entre os 16 e os 30 anos. Através de uma parceria público-privada, o programa combina a formação teórico‑prática, com o objetivo de eliminar os estereótipos e os preconceitos contra a população cigana e de combater a exclusão social em geral. Os dados mostram que mais de metade dos formandos conseguem emprego e 35% decidem voltar ao sistema formal de ensino. Dada a experiência acumulada, a organização mostrou disponibilidade para ajudar na replicação do modelo noutras geografias.

Em segundo lugar ficou a associação portuguesa Movimento Transformers. O terceiro prémio foi para a Associazione Agevolando, de Itália, com a iniciativa “ Network Italia”, uma rede informal a nível nacional de jovens entre os 16 e os 26 anos que viveram em famílias ou centros de acolhimento. A ação desta organização já se traduziu em alterações na legislação italiana, sendo que a Associazione Agevolando defende a criação de uma rede europeia que permita dar outra escala a esta matéria.

A edição deste ano do Prémio para a Sociedade Civil recebeu 106 candidaturas de 21 Estados‑Membros, sendo 60 para a categoria Juventude e 46 para a categoria Ucrânia. Os vencedores das duas categorias receberam 14 mil euros e os restantes premiados 8 mil euros, perfazendo um valor total de 60 mil euros.

O CESE descreve os seis projetos vencedores como exemplos de referência do empenho da sociedade civil em criar um futuro melhor para os jovens europeus e aliviar a situação dos ucranianos que sofrem devido à invasão brutal do seu país pela Rússia.

 

Escuteiros entregaram luz da paz

A Associação Polaca de Guias e Escuteiros (ZHP) entregou à presidente do Comité Económico e Social Europeu uma vela acesa, num gesto simbólico de apelo para que a luz da paz prevaleça sobre o fogo da guerra.

Aproveitando a subida ao palco para receber o terceiro prémio da categoria de ajuda à Ucrânia, a associação protagonizou um dos momentos mais marcantes da cerimónia, traduzindo neste gesto o desejo unânime de paz.

A chefe Martyna Kowocka explicou que a organização criou este movimento da luz da paz na fronteira da Polónia com a Ucrânia, onde continua a trabalhar incansavelmente, embora preferisse que a sua ajuda já não fosse necessária, porque isso seria sinónimo do fim do conflito.

Esta responsável destacou os valores do escutismo, encontrando na vontade de estar ao serviço do próximo e de trabalhar para um mundo melhor o segredo para a mobilização humanitária dos membros da ZHP desde os primeiros dias da guerra e que também já tinha acontecido durante a pandemia de Covid-19.

*Em Bruxelas, a convite do Comité Económico e Social Europeu.




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