Espaço do Diário do Minho

Polícia, política e moralidade

8 Dez 2022
Carlos Vilas Boas

De Tehram chegam notícias lidas apressadamente pelas mentes ocidentais, que ditam o fim da polícia da moralidade, segundo teria anunciado o próprio Procurador Geral General Montazeri. Os analistas consideraram o fim da polícia da moralidade como uma cedência ao movimento popular de protesto que o país vive há três meses, na sequência da morte de Mahsa Amini, quando se encontrava sob a custódia dessa polícia, detida por violar as regras do uso do ‘hijab’ (véu islâmico), com muito significado especialmente na cidade sagrada de Qom.

O ocidente parece continuar a não entender suficientemente o oriente. Notícias de ruturas dos costumes islâmicos em países como o Irão ou a Arábia Saudita devem ser interpretadas com a maior prudência, onde não é expectável que de um momento para o outro se estabeleça a igualdade de mulheres e homens. Daí que tenham surgido apontamentos como o de Vivian Yee que no New York Times de domingo escreve que não ficou claro se a declaração equivalia a uma decisão final do governo teocrático, que não anunciou a abolição da polícia moral nem a negou, acrescentando que se a força for abolida, é improvável que a mudança apazigue os manifestantes que ficaram encorajados ao ponto de pedirem o fim da República Islâmica, apesar do governo iraniano já ter comunicado que vai executar os manifestantes condenados à morte, transmitido a mensagem de desengano para os otimistas que vislumbravam uma nova revolução árabe. E mesmo que o fosse, lembremos que Lampedusa dizia no “Leopardo” que se quisermos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude. Ou a asserção de Maquiavel: “Quando fizer o bem, faça-o aos poucos. Quando praticar o mal, é fazê-lo de uma vez só”.

Os acontecimentos no Irão devem mobilizar a opinião pública para o apoio incondicional à luta das mulheres pela igualdade. Mas o ocidente deve abster-se de olhar para o assunto com superioridade moral. Não esqueçamos que as agressões às mulheres não se cingem a perseguições políticas ou religiosas no islão. No passado dia 25 comemorou-se mais um dia internacional da não-violência contra a mulher instituída pela ONU em homenagem às irmãs “Mirabal”, assassinadas na República Dominicana em 1960, país que não tem por religião principal a muçulmana. A desigualdade sucede mesmo nas sociedades civilizadas e democráticas. As mortes por violência doméstica ascendem a milhares e acrescem as violações, agressões, discriminação no trabalho e no acesso aos postos de relevo.

Infelizmente, procura impor-se a falsa noção que essa igualdade se equipara à identidade de género. Como diz o professor Diogo Gonçalves, quando a realidade e a própria ciência desmentem a ideia, a resposta de uma ideologia não é a inversão de rota, mas a modificação da própria realidade. Sacrifica-se o real no altar da ideia. A ideologia da gender theory partilha a uma visão típica do materialismo dialético. A luta de classes sociais é substituída por uma luta de classes sexuais“assim como a meta final da revolução socialista era não só acabar com o privilégio da classe económica, mas também com a própria distinção entre classes económicas, o que está agora em jogo é não simplesmente acabar com o privilégio masculino mas com a própria distinção de sexos”; foi isto que o então secretário de Estado e atual ministro da educação, João Costa, na sua agenda radical quis ao implementar a ideologia de género nas escolas, uma reprovável orientação ideológica de educação, pois educar os filhos na liberdade e respeito pelo outro, não autoriza o Estado a definir que não há só Homem e Mulher.

O Papa confirma a dignidade e o direito de todos os que não se sentem representados pelo seu sexo biológico a não serem descriminados, mas é muito claro sobre os perigos para o indivíduo e a sociedade derivantes da ideologia de gênero, como resulta da conversa com os jornalistas na viagem de regresso do Azerbaijão em 2016 e do parágrafo 56 da Exortação apostólica Amoris laetitia, onde revela a preocupação por ideologias deste tipo procurarem impor-se como pensamento único que determina até mesmo a educação das crianças.

Mas em tempo de advento será mais próprio iluminarmo-nos com o mote de Francisco “o amor é político” do Fratelli Tutti, que D José Cordeiro nos recordou em Homília, apreendendo-o na plenitude da dimensão do sabor da fruta fresca que nos oferece S. Geraldo, padroeiro da cidade de Braga.



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