Espaço do Diário do Minho

Sá Carneiro e a política como meio transformador para o bem de Portugal

7 Dez 2022
Joaquim Barbosa

Nunca é demais falar e escrever sobre Sá Carneiro.

O seu legado em pensamento político, a nobreza com que imprimiu à sua ação política, a criação de um dos maiores e melhores partidos portugueses, profundamente humanista, estruturalmente português, com uma idiossincrasia muito própria, que nasceu e atuou contra o vento, contra qualquer teoria ou lógica de posicionamento partidário, é a melhor herança que deixou a Portugal.

Não é por acaso que é o único senador da instauração da democracia portuguesa que tem um dia assinalado todos os anos, ininterruptamente, desde o seu trágico desaparecimento num acidente de avião, quando lutava com muita determinação pela democracia tipo ocidental que idealizava para Portugal e em circunstancias muito pouco esclarecidas.

Sá Carneiro, tinha a melhor ideia utilitária da ação política, no sentido de ela só servir para estruturar, reformar, tornar as vida das pessoas melhor e fazer avançar Portugal.

Não é por acaso que o PSD é o partido mais reformador de Portugal.

Quando achava que não conseguiria esses seus objetivos, preferia afastar-se do poder e nunca ficar no poder pelo poder.

Foi assim, quando se afastou da presidência do PSD para depois voltar, ou quando anunciou ao país que se o General Ramalho Eanes fosse reeleito, renunciaria às funções de Primeiro Ministro que exercia na altura.

Independentemente do que se pensa sobre a integridade pessoal do General Ramalho Eanes, ele personificava o entrave ao desenvolvimento da democracia portuguesa por ser, como Presidente da República, instrumento do Conselho de Revolução, órgão constitucionalmente consagrada que tinha o poder – imagine-se! – de vetar as leis aprovadas no Parlamente ou nos Governos, saídos de eleições gerais universais, livres e justas.

Sá Carneiro entendia que não poderia conduzir Portugal para uma democracia consolidada com Ramalho Eanes na Presidência da República e portanto preferia afastar-se da ação política e tratar da sua vida, já que ocupação, como advogado muito prestigiado, não lhe faltava.

Inesquecível foi quando ouvi dele a meu lado, eu ainda adolescente, num encontro de militantes do PSD, num dia chuvoso de inverno, no então degradado Mosteiro de Tibães, quando dizia muito determinado a meu pai, seu amigo e colega de carteira durante todo o liceu, acompanhado de Eurico de Melo, Carlos Macedo e Amândio de Azevedo, que só um governo estável, de 4 anos, com uma sólida política cultural poderia recuperar um monumento como este. O que de facto aconteceu quando ganhou as eleições e foi iniciada as diligências para recuperação deste importante património bracarense.

No seu discurso como Primeiro Ministro no Conselho da Europa, em Estrasburgo, num francês perfeito, sem papel, está toda a estrutura do seu pensamento político e do desejo da sua opção europeia para Portugal que, então, ainda dividia muito a sociedade portuguesa.

Aliás, vele a pena rever esses vídeos, bem como muitas das suas entrevistas e perceber a sua alegria, o seu entusiasmo pela ação política para atingir os objetivos que acreditava serem fundamentais para Portugal

Entre muitas lições que Sá Carneiro nos deixou, o seu despreendimento do poder, o sentido nobre da política apenas como meio para atingir determinados fins para bem das pessoas, do seu Portugal e da humanidade, é dos melhores exemplos que nos deixou.

Impressionante também foi uma conversa que o Professor Freitas de Amaral nos revelou que teve com ele e com Gonçalo Ribeiro Teles, seus parceiros na Aliança Democrática quando, prestes a ganhar as eleições, Sá Carneiro lhes disse que se achassem que a sua relação com Snu Abecassis, não estando ainda divorciado, fosse um inconveniente para a sua posse como Primeiro Ministro de Portugal, preferia ficar com a mulher que amava do que exercer o cargo.

Nos anos 80 Portugal era um pais mais conservador que do que atualmente e temas que hoje em dia são perfeitamente naturais nas vidas das pessoas, eram vistos na altura com mais distanciamento e oposição.

Sá Carneiro foi também dos políticos portugueses que pediu um empréstimo bancário para comprar casa, algo na altura também quase inédito. Isso valeu-lhe pinturas nas paredes por todo o país, feito por militantes socialistas e comunistas, a apelidá-lo de caloteiro, devedor, etc..

Rídiculo e mesquinho!

Sá Carneiro é uma das referências de Portugal como país democrático, com uma democracia consolidada sempre com o objetivo da prosperidade e do bem estar do seu povo e o seu exemplo deve ser dado a conhecer aos jovens, independentemente do posicionamento político de cada um.



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