Espaço do Diário do Minho

A principal força da democracia

23 Nov 2022
Dinis Salgado

Uma coisa há que muita gente que por aí deambula, sobretudo atores políticos e gente dos partidos, precisa urgentemente de saber antes que a democracia se esvazie ainda mais; e é esta: a democracia não se impinge ou vende às pessoas como um qualquer unguento milagreiro e em qualquer dose e esquina; porque a democracia aprende-se, nasce de uma prática constante e séria com as outras pessoas e mais em atos do que em palavras e, mormente, não é um trampolim para subir na vida ou conquistar o poder.

Não se é democrata só porque, teoricamente, se sabe de cor e salteado os princípios e objetivos da democracia e se prega isso mesmo muito bem aos outros; mas é-se democrata dando o exemplo, dia-a-dia, o bom exemplo da verdade, da solidariedade, da justiça e da liberdade – valores difíceis de alcançar e pouco comuns em sociedades mal estruturadas e governadas.

Estou mesmo em dizer e crer que não se é democrata só porque se o deseja ardentemente; mas porque se nasce, cresce e vive como as melhores, as mais viçosas e as mais belas plantas num jardim onde prolifera o melhor húmus e a mais fecunda ambiência.

Pois bem, o que por aí muito se tem visto e comprovado são falsos, pseudo-democratas, geralmente bem-falantes e muito, muito habilidosos na venda da banha da cobra, como comummente diz o povo, que se instalaram, aproveitando as oportunidades reinantes e assumindo linguagens e roupagens ideológicas muito em voga; e, então, a democracia que vão praticando não passa de uma democracia de funil, vaga e vazia de conteúdo e mais para uso e proveito próprio e de alguns compadres, comadres e afilhados.

Depois, esses pseudo-democratas atuam mais demagogicamente e pouco ou nada pedagogicamente, servindo-se da democracia e nunca servindo-a; e, assim, democratas que são de ocasião e por conveniência, não curam de saber se agem mais em prol do bem próprio se do bem comum e, muito menos, que tipo de papel desempenham na consolidação e aprofundamento da vida democrática que dizem defender.

E, deste modo, eles acabam por ser os seus potenciais coveiros, não só pela desconfiança e descrédito que criam nas pessoas, como também e, essencialmente, pela vacuidade, fragilidade e faciosismo que transmitem às instituições que lideram; e, obviamente, se olharmos para trás, espanta-nos a quantidade de oportunistas e trampolineiros que encontraram na democracia a galinha dos ovos de oiro para as suas trapalhadas, golpadas e desmandos de toda a ordem.

Todavia, porque ainda é tempo e modo de as pessoas saberem as linhas com se cosem que é como quem diz de distinguirem o trigo do joio, ou seja os homens que as servem ou delas se servem, bem como as instituições que eles dirigem e a forma como delas fazem uso, aqui ficam, a título de reflexão e de súmula do que atrás foi dito, duas verdades duras como punhos, de Jan Linz:

1.ª Verdade – A principal causa da queda das democracias é a crise de confiança das pessoas na possibilidade de resolverem pacificamente os seus problemas;

2.ª Verdade – A principal força das democracias resulta de as pessoas lhe descobrirem o seu valor em si mesma; e assim, só quando as pessoas desistirem de ver na democracia um meio de imporem os seus próprios valores e descobrirem que ela é a melhor forma de cada um poder ter os seus valores e tentar, igualmente, persuadir os outros, podendo embora não o conseguir, então temos as democracias sólidas.

Agora, aqui chegados e sabendo os atropelos, fragilidades e insucessos que a nossa vida democrática tem sofrido ao longo dos anos que já leva de existência, é tempo e modo de pensarmos a sério nas causas de tais desvarios, ineficácias, fragilidades e erros; e, sobretudo, pensar no caráter dos homens que a têm esquecido, negligenciado e distorcido, seja por falta de empenho e de rigor, seja por falta de transparência, competência e vontade de servir, assim desbaratando os seus princípios, objetivos e valores e usando-a para proveito próprio e dos seus grupos de interesses.

Depois, para além de tudo isto, devemos estar cientes de que não há democracia sem partidos políticos e que estes nem sempre têm mostrado a organização e competência no seu funcionamento interno que a valide e lhe dê força; assim, por exemplo, quando têm eleições internas para a escolha e nomeação de governantes e dirigentes, raramente praticam a uma escolha democrática, bem como exercem a política dos jobs for de boys, fechando-se, assim, numa concha, afastando simpatizantes e militantes e dando a imagem pública de uma organização ditatorial, fechada e secreta.

Então, até de hoje a oito.



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