Fotografia: Avelino Lima/DM

Hervé Legrand defende «ajustamentos doutrinais»

Congresso Internacional sobre a Problemática dos Seminários Católicos recebeu o teólogo dominicano Hervé Legrand, que considera que «a pessoa deve discernir se tem vocação ou não antes de entrar no seminário».

Rita Cunha
18 Nov 2022

O teólogo dominicano Hervé Legrand, especialista em eclesiologia e ecumenismo, defendeu ontem «ajustamentos doutrinais» que passam, entre outros pontos, pelo chamamento de cristãos casados ao exercício do Ministério por aprendizagem.

O também vice-presidente da Academia Internacional de Estudos Religiosos, que falava ontem no decorrer do Congresso Internacional sobre a Problemática dos Seminários Católicos, que decorre no Espaço Vita, começou a sua intervenção revisitando a história do Concílio de Trento e as mudanças que provocou e o que causou a sua queda. 

«É preciso contextualizar na história», lembrou, considerando que este modelo «enfraqueceu teologicamente mas foi eficaz pastoralmente». Fatores como a demografia, o facto de as sociedades de então se pautarem por uma estrutura simples, pouco instruídas, dando lugar a civilizações «cada vez mais complexas, urbanizadas e letradas», foram alguns dos motivos apontados para esta queda.

Na sua intervenção, intitulada “Numa Igreja [mais ativamente?] povo de Deus, como repensar a formação nos seminários?”, Hervé Legrand defendeu que «não temos outra escolha senão mudar de paradigma». «Não somos sozinhos na nossa fé e temos recursos para remodelar as coisas neste mundo novo que não tem a novidade do Evangelho mas é novo», disse.

Dirigindo-se em particular aos sacerdotes na plateia, o teólogo referiu ser necessário «um qualquer endireitamento da teologia» e que «a pessoa deve discernir se tem vocação ou não antes de entrar no seminário», o que considerou uma «tarefa impossível». «É preciso encontrar a prioridade do objetivo do Ministério sobre a pessoa, a necessidade de ter uma diversidade de modelos de padre. Se falamos de um modelo uniforme os padres católicos são formados sob os mesmos critérios», disse.

Aqui, entende que «os bispos locais têm o seu papel a desempenhar porque eles estão mais próximos dos seminaristas, não para avaliar o seu valor mas para partilhar com eles a preocupação pastoral, as suas alegrias de pastor, para lhes dar vida e fazer participar na tarefa comum».

O teólogo acrescenta que «quando falamos em prioridade ao objeto do Ministério, é preciso não negligenciar os agrupamentos das pequenas paróquias». «Haver uma pluralidade de ministérios parece-me muito importante», disse. Hervé Legrand entende ainda que «todos os seminaristas deviam beneficiar de um dia no estrangeiro ou exercer um trabalho que não conhecem».

O teólogo de nacionalidade francesa sustenta igualmente que, na Teologia, há «coisas simples» que se deveriam discutir, desde logo «a relação entre ordenação e estados de vida». «Não há razão de não chamar os cristãos  casados, competentes e reconhecidos, ao exercício do Ministério por aprendizagem. Se ordenamos diáconos casados e habituamos os fiéis a isso, isso tem mais influência do que um decreto», disse, salientando, contudo, que «ter padres casados não mudará quase nada no exercício do Ministério se não forem bem formados». «A vantagem seria ter no Ministério experiências profissionais que podem ser preciosas na pregação e permitir mudar alguma coisa nas atitudes católicas em matéria de sexualidade», vincou.

Sobre o papel das mulheres na Igreja, acredita que possuem «todas as competências» para serem «madres de paróquia». 

Hervé Legrand finalizou lembrando que «as sessões sinodais não têm poder legislativo mas são necessárias para mudar mentalidades, para colaborar, para que possamos todos em movimento, juntos, sermos capazes de evangelizar e experimentar a generosidade de Deus». «O papel dos padres não será diminuído e até será mais interessante», considerou.





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