Espaço do Diário do Minho

Mês das Almas

16 Nov 2022
Salvador de Sousa

Estes dias são de uma tradição muito antiga. O sufrágio pelos mortos remonta, praticamente, às origens da Igreja, mas a escolha de um dia fixo é bastante posterior, aparecendo a alusão a essa prática, no ano 636, por Santo Isidoro de Sevilha, surgindo sempre como paralela à festa de todos os Santos que andou, por sua vez, ligada à festa do Pentecostes ou à festa da Epifania antes da data fixa de 1 de Novembro. Sabe-se que já no século II os cristãos visitavam o túmulo dos mártires para que estes, considerados santos, intercedessem pelos seus entes queridos falecidos.

O Papa Bonifácio IV, já em 609, consagrou o Panteão de Roma ao culto cristão dedicado a Santa Maria e Mártires, sendo as suas ossadas trasladadas das catacumbas, como relíquias, para este templo, instituindo-se uma festa regular a 13 de maio. Esta construção dedicada às divindades que faziam parte da mitologia romana, com imagens de nomes do paganismo. foi, a partir dessa altura, incluída de ícones e nomes de vários santos e heróis do cristianismo que substituíram os nomes anteriores. Como não era possível festejar, separadamente, todos os santos, cujas imagens ali se encontravam, o papa criou uma festa em honra só de todos os Santos, em Roma.

No século seguinte, o Papa Gregório III (731-742) como data de aniversário da consagração da capela aos Santos Apóstolos, a todos os Santos Mártires e Confessores, na Basílica de S. Pedro, no Vaticano, alargou esta solenidade a toda a Igreja.

Apesar daquilo que referi, o principal fundador do dia de Todos os Fiéis Defuntos, no dia 2 de Novembro, foi o Abade de Cluny (994-1048), Santo Odilão, iniciando-se no seu mosteiro entre 1025 e 1030. Seguidamente, esta comemoração espalhou-se por outros mosteiros e, com o decorrer do tempo, a toda a Igreja. No ano de 1331, esse dia anual de orações pelos defuntos foi incluído no calendário litúrgico, pois no dia 1 de Novembro já era celebrada a festa de Todos os Santos. O papa Bento XV, devido ao grande número de mortos logo no início da 1ª Guerra Mundial, em 1915, emitiu um decreto para que os sacerdotes rezassem três Missas, no dia 2 de Novembro, por sufrágio de todos os mortos, mas o Papa Bento XIV (ambos, por acaso, com a mesma denominação Papal) já tinha, em 1748, concedido esse privilégio a Portugal, Espanha e à América Latina.

São dias em que continuamos a rezar pelos nossos parentes, amigos e conhecidos, nunca esquecendo tantos outros que precisam da nossa oração, como que unidos espiritualmente na fé e no espírito de comunhão em Cristo que, a todo o momento, acolhe os Seus irmãos que viveram com Ele e para Ele. É vulgar confundir-se o Dia de Todos os Santos com o Dia dos Fiéis Defuntos ou Finados, mas os nomes já, por si, explicam a diferença. Apesar de tudo isso, a maioria por quem nós rezamos já alcançou o reino de Deus, tal como aqueles Santos que a Igreja tem elevado aos altares.

A maioria das comunidades paroquiais contempla o dia propriamente dito dos Fiéis Defuntos, 2 de Novembro, antecipando-o para o dia 1 por ser feriado e as pessoas estarem livres para homenagear os seus entes queridos falecidos.

Seja como for, a gratidão, nesses dias, é imensa, havendo pessoas que se deslocam de grandes distâncias, mesmo do estrangeiro, para estar presentes junto aos túmulos dos seus familiares e amigos. É evidente que é nosso dever lembrarmo-nos, frequentemente, dos nossos antepassados seja em que local estivermos e em qualquer dia, pois a espiritualidade de cada pessoa não tem tempo, nem fronteiras, mas estes dias acentuam, no nosso imaginário, a pessoa como um todo, composta de alma e corpo, que está ali sepultada. Além de rezarmos, imaginamos e trazemos à mente os nossos mortos que tanto nos fizeram e tanto se esforçaram por nós. Daí, termos as campas asseadas, rodeadas de lindas flores e velas acesas como um ato simbólico do nosso afeto e da nossa gratidão. A presença, nesses dias escolhidos pelas paróquias para visitar os cemitérios, é um ato de homenagem às pessoas que sempre amamos, estando ali junto dos seus túmulos a imaginá-las como seres que viveram, em corpo e alma, para nós.

São datas que devemos acolher como acolhemos tantas outras que festejamos em dias próprios da nossa vida, como é o caso do dia nosso aniversário. A vida deve ser festejada todos os dias, mas aquele dia é mais especial. Por isso, façamos o mesmo para com aqueles que tudo fizeram por nós. Seria um desprezo muito grande, num dia destes que a paróquia escolheu para homenagearmos os nossos defuntos, as campas e jazigos dos nossos familiares estarem desprezados, sem qualquer pessoa. Percorrer vários quilómetros nessas ocasiões, é uma grande obrigação para que tenhamos o nosso dever cumprido. Fora dessa data, continuemos a orar e a ter presentes os nossos amigos e familiares falecidos, em qualquer local que estivermos, não descurando, sempre que se puder, a visita livre aos nossos cemitérios.



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