Fotografia: ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

Jerónimo de Sousa acusa PS de estar “cada vez mais inclinado para a direita”

No último discurso como secretário-geral, o dirigente comunista deixou avisos sobre processo de revisão constitucional que deverá iniciar-se após a votação do Orçamento do Estado para 2023.

Agência Lusa
12 Nov 2022

Jerónimo de Sousa acusou este sábado a governação de maioria absoluta de mostrar “um PS cada vez mais inclinado para a direita” e considerou que os socialistas, PSD, CDS e IL e Chega encenam e empolam divergências.

“Hoje está muito claro qual é o sentido da governação do PS maioritário e quão verdadeira era a palavra do PCP quando afirmava que o PS não queria resolver os problemas nacionais, mas tão só romper com a política de defesa, reposição e conquista de direitos e criar condições para retomar na plenitude a política de direita que sempre teve como sua”, acusou Jerónimo de Sousa, na abertura dos trabalhos da Conferência Nacional do PCP, em Corroios, concelho do Seixal.

Para Jerónimo de Sousa, a governação socialista “mostra um PS cada vez mais inclinado para a direita”, ao fazer opções de política económica e orçamental que conduzirão ao “perigo de uma nova fase de definhamento económico e e degradação social”.

“As recentes alterações do quadro político”, continuou o líder cessante do PCP, vão “replicar, senão aprofundar a evolução negativa do país que décadas de política de direita impuseram”.

E a maioria absoluta que António Costa alcançou nas eleições legislativas de janeiro só foi alcançada com uma “operação de chantagem e mistificação”.

Segundo o secretário-geral comunista, a alteração no quadro político decorrente das eleições traduziu uma “ampla promoção” das forças reacionárias num quadro em que PS e os partidos de direita “empolam e encenam” uma oposição entre si quando na verdade tem uma “ação convergente” em aspetos essenciais.

Jerónimo de Sousa mostrou-se preocupado com “a nova situação da expressão institucional e ampla promoção das forças e projetos reacionários, designadamente PSD, CDS, IL e Chega, com agendas de natureza retrógrada, demagógica, neoliberal ou fascizante”.

O dirigente comunista alertou para uma “intensificação da campanha antidemocrática, de forte pendor anticomunista, que tende a recrudescer”, na qual “sobressai a ação revanchista do grande capital, que julga ter chegado o momento de subir o nível de confrontação de classe e levar mais longe o ajuste de contas com os valores e as conquistas de Abril”.

“Evidente nos mais recentes desenvolvimentos é o explícito e crescente confronto com a Constituição da República por parte das forças reacionárias, com o objetivo da sua revisão e subversão, a par da promoção de alterações de sentido antidemocrático às leis eleitorais e à legislação laboral. O início do processo de revisão constitucional agora avançado e a olhar para a experiência passada de concertação entre o PS e o conjunto das forças reacionárias, inimigas da Constituição de Abril, não nos pode deixar descansados”, avisou.

Mais à frente no seu discurso, Jerónimo voltou a deixar avisos sobre processo de revisão constitucional que deverá iniciar-se após a votação do Orçamento do Estado para 2023.

No futuro, Jerónimo de Sousa quer um PCP a “defender a Constituição da República e combater quaisquer projetos de revisão constitucional que promovam a descaracterização da Lei Fundamental ou a alteração das leis eleitorais, visando diminuir o pluralismo da representação política e eternizar a política de direita” – frase que mereceu aplausos da plateia.

Num humor já seu característico, Jerónimo de Sousa parou a sua intervenção para dizer: “Obrigado, camaradas, assim ajuda mais”, soltando alguns risos na plateia.

O PCP anunciou há uma semana que Jerónimo de Sousa ia deixar de ser secretário-geral do PCP por razões de saúde e que Paulo Raimundo era o nome proposto para o substituir. Paulo Raimundo, de 46 anos, vai ser hoje eleito o quarto secretário-geral do PCP depois de uma reunião do Comité Central que deverá começar assim que encerrarem os trabalhos do primeiro dia da conferência.

A Conferência Nacional do PCP, a quarta em 100 anos, foi organizada com o objetivo de reenquadrar a ação do partido em contexto de maioria absoluta do PS, aumento da inflação e consequente degradação das condições de vida da generalidade da população, e também de incerteza em relação ao redesenho do mapa geopolítico internacional.





Notícias relacionadas


Scroll Up