Espaço do Diário do Minho

Os bastidores do negócio com o Qatar

10 Nov 2022
JOÃO GOMES

Na última assembleia geral do SC Braga, o presidente foi questionado, por um sócio, sobre quem era o detentor das ações que foram vendidas pela Câmara Municipal (cerca de 17% do capital social), nomeadamente se não eram membros da administração, ao qual ele respondeu que aquele não era o local certo para tal questão, depreendendo-se que o local certo seriam os tribunais.

É curioso verificar a facilidade com que os “senhores” do futebol recorrem a esta postura de intimidação, julgando-se talvez donos de uma impunidade absoluta – ou talvez despreocupados, por saberem que as dispendiosas verbas necessárias para mover processos, sempre que isso é uma arma a considerar, nunca saem dos seus bolsos.

Antes ainda de avançar com mais considerações sobre o assunto de hoje, gostaria de destacar a responsabilidade de o SC Braga poder estar a perder a sua identidade, enquanto critico severamente um presidente da Câmara que desonrou o compromisso assumido perante os bracarenses e braguistas, que previa eternamente o controlo do capital social pelas duas entidades (SC Braga e Câmara Municipal), dado que na altura da constituição da SAD o clube não estava autorizado a deter mais do que 40%.

De acordo com informação de alguns meios de comunicação social, os responsáveis do (fundo) Qatar Sports Investments referiram que o negócio estava a ser “cozinhado” há cerca de um ano, e que o objetivo é que o SC Braga se torne numa futura versão do atual Paris Saint-Germain (PSG).

Sejamos claros:

Primeiro – o negócio não poderia ter acontecido sem o conhecimento do presidente do SC Braga e da Administração;

Segundo – havia rumores de que a maioria da SAD do SC Braga estava à venda por 50 milhões de Euros a possíveis investidores chineses ou árabes;

Terceiro – as possibilidades de alguém, por muito dinheiro que tenha, comprar uma posição minoritária numa empresa por um montante superior a vinte vezes o seu valor só se vislumbra se tiver como propósito principal o seu controlo;

Quarto – os detentores do capital social (cerca de 29%) necessários para o QSI controlar maioritariamente a SAD vão realizar um negócio único na vida, e esse é o seu único objetivo;

Quinto – se os rumores se confirmarem, os tais 29% do capital da SAD vão ser vendidos por 31 milhões de euros;

Sexto – como acima foi referido, o responsável do Qatar Sports Investments foi claro ao afirmar que “pretende que o SC Braga se torne num PSG”, e, como todos sabemos, esse fundo é detentor da maioria do capital do clube francês.

O SC Braga não pode nem deve abdicar do controlo maioritário do futebol, pois tal é perfeitamente possível, com outro tipo de gestão e princípios. Cabe aos sócios refletirem rapidamente sobre esta questão, até porque há exemplos de clubes, como os alemães, que não permitem mais do que 49% do capital das SAD a forasteiros.



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