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Diocese de Bragança-Miranda assinala no dia 7 de outubro o aniversário da Dedicação da Igreja Catedral.

Luísa Teresa Ribeiro
7 Out 2022

A Catedral de Bragança pode ser definida como uma epifania de fé. A arte aponta o caminho para Deus, num templo contemporâneo, cuja valorização contou com o trabalho de D. José Cordeiro enquanto foi bispo da Diocese de Bragança-Miranda.

A Catedral de Bragança é fruto da perseverança dos brigantinos ao longo de cerca de 250 anos, sendo um templo onde se torna evidente o diálogo entre a arte e a fé, com obras de nomes sonantes como José Rodrigues ou Ilda David’. A identidade transmontana transparece nas representações e nos materiais, num espaço de vocação universal.

Em 1764 a sede da diocese mudou-se de Miranda do Douro para Bragança, sendo transformada em Sé a igreja de S. João, inicialmente pensada como parte de um complexo construído no século XVI para albergar as Freiras Clarissas e posteriormente entregue à Companhia de Jesus para ali instalar um colégio.

Em 1768, D. Frei Aleixo escreveu ao Marquês de Pombal revelando a intenção de construir uma nova Sé em Bragança, dando assim início a uma aspiração cuja concretização foi sendo sucessivamente adiada.

Após mais de meia dúzia de tentativas, a primeira pedra do novo templo acabaria por ser lançada em 1982, com D. António Rafael à frente dos destinos da diocese.

O início oficial das obras aconteceu em 1988 e a cerimónia de dedicação a Nossa Senhora Rainha teve lugar a 7 de outubro de 2001, tornando-se na primeira catedral portuguesa do século XXI.

Com traço do arquiteto Luís Vassalo Rosa, a maior catedral do país ocupa uma área total de 10 mil metros quadrados, tendo capacidade para 2500 pessoas sentadas, como explica Sandra Rodrigues, no âmbito de uma visita promovida pela Associação Comercial, Industrial e Serviços de Bragança (ACISB), inserida no projeto Mais Bragança.

Na catedral construída mais recentemente em Portugal sobressai o avassalador painel central da autoria do mestre Mário Ferreira da Silva, composto por 1295 módulos de pasta de grés cerâmica, que levou dois meses e meio a ser colocado.

Respondendo ao pedido de uma obra que representasse «a harmonia, a força da fé, a bondade e a piedade», o painel apresenta em destaque Cristo Rei Redentor, de braços abertos, numa figura tridimensional com cerca de quatro metros de altura, tendo como fundo a Cruz, símbolo de sacrifício e redenção. Ao seu lado, numa posição mais elevada, já em ascensão, está a Virgem Rainha e Mãe.

Também da autoria do ceramista de Vila Nova de Gaia, salienta-se o Sacrário, cujo formato é o do espaço geográfico da Diocese de Bragança-Miranda. Em lugar de relevo está ainda imagem de S. Bento, padroeiro da diocese, do escultor José Rodrigues.

Valorização com obras de arte

A inauguração da Catedral de Bragança não significou o final das intervenções de valorização do templo, que continuaram no período em que o atual Arcebispo de Braga, D. José Cordeiro, foi bispo de Bragança-Miranda, entre 2011 e 2021.

A 22 de agosto de 2012, na eucaristia solene de Nossa Senhora das Graças, padroeira da cidade de Bragança, o templo foi enriquecido com a bênção da Pietà da autoria do escultor José Rodrigues, com raízes familiares em Alfandega da Fé.

Nesta escultura em bronze, a Mãe que segura o Filho morto no seu regaço enverga uma capa transmontana, traduzindo assim a identidade local. Aqui não há mãos, num desafio para que cada um use as suas próprias mãos para continuar na terra a Obra de Deus. A escultura é acompanhada por um poema de D. José Tolentino Mendonça.

Também de José Rodrigues, foram inaugurados oito vitrais que representam as sete últimas palavras de Cristo na cruz: Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem; hoje estarás comigo no Paraíso; Mulher, aí está o teu filho; filho, eis aí a tua mãe; meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?; tenho sede; tudo está consumado; Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.

A 7 de outubro de 2015, como forma de assinalar o 14.º aniversário da dedicação da catedral, foi inaugurado no batistério o tríptico “Epifania da Graça”, composto por mosaicos da autoria da pintora Ilda David’ e do escultor Manuel Rosa.

Nesta obra, «o quadro narrativo do Batismo de Jesus é ladeado pelos desenhos da narrativa dos discípulos de Emaús e pela cena do Anjo da vida».

Para além de mármores e calcários portugueses, inclui pedras-mármore de diferentes cores, oriundas de cinco países: preta da Bélgica, amarela da China, vermelha de Espanha, azul do Brasil e verde da Índia.

Correspondendo ao pedido de apresentar elementos representativos da Diocese, o tríptico inclui três árvores emblemáticas desta região: a amendoeira, que simboliza o ciclo da vida, pois é a primeira das árvores a florir na primavera; o castanheiro, que quando é cortado, volta a nascer, num dinamismo de Ressurreição, representando o pão da vida; e a oliveira, símbolo da confiança total depositada em Deus.

Catedral traduz a identidade da região, desde os materiais da construção à vegetação dos jardins.

A arte marca igualmente a capela da Misericórdia, onde é possível encontrar um quadro de Santiago Belacqua.

A imagem da Anunciação a S. José (José Rodrigues); lâmpada do sacrário (Marko Rupnik); turíbulo e naveta (Cláudio Pastro); Cruz processional e Báculo (Manuel Alcino) são outras das obras da catedral.

Entre as aspirações dos fiéis está agora a criação de um museu de arte sacra na cripta e vitrais da transmontana Graça Morais.

Órgão sinfónico é joia cultural do templo

Numa catedral marcada pela arte, a música não foi negligenciada, sendo o órgão sinfónico um dos destaques culturais do templo.

Considerado único na Península Ibérica e uma referência na Europa, o Órgão Sinfónico da Catedral de Bragança tem 3117 tubos, 64 registos sonoros e 100 comandos distribuídos numa consola de quatro teclados e pedaleira. Dispõe de um órgão coral móvel, que pode ser controlado pelo órgão principal.

Esta é a mais recente aquisição da catedral, tendo sido financiado pelo projeto “Rota das Catedrais a Norte”, numa articulação entre a Direção Regional da Cultura do Norte, o Município de Bragança e a Diocese de Bragança-Miranda. Foi benzido por D. José Cordeiro a 19 de dezembro do ano passado.

O órgão foi construído em Itália, pela Casa Organaria Zanin, especificamente para este espaço litúrgico.

Começou a ser construído no primeiro semestre de 2018, sendo que os trabalhos de montagem e de afinação, no Coro Alto da Catedral, começaram no início de setembro de 2021, tendo demorado, no conjunto, três meses e meio.

Para além da liturgia, possui capacidades para qualquer reportório de diferentes épocas históricas, podendo servir para concertos promovidos por entidades civis, religiosas, académicas e sociais. Como curiosidade, refira-se que é preciso sapatos específicos para tocar neste órgão.

O italiano Giampaolo Di Rosa é organista titular e Rafael Madanços o organista residente.

Aos domingos, na catedral, há vésperas às 17h15 e é celebrada eucaristia às 18h00.

Esta visita inseriu-se num périplo por Bragança promovido pela ACISB, integrado no projeto Mais Bragança, cofinanciado pelo Norte 2020, Portugal 2020 e União Europeia, através do FEDER.




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