Fotografia: Miguel Viegas

Vindimas transformam trabalho árduo em festa

Estas experiências fazem parte do potencial que o projeto “Loureiro do Vale do Lima – um vinho, um território, um destino”, que envolve os concelhos de Arcos de Valdevez, Ponte da Barca, Ponte de Lima e Viana do Castelo, quer promover.

Luísa Teresa Ribeiro
2 Out 2022

Barbara e Bill Cunningham, oriundos da cidade inglesa de Wakefield, participaram pela primeira vez nas vindimas em Ponte de Lima.

Hospedado na Casa da Cuca, em Moreira do Lima, o casal juntou-se ao grupo que desde manhã cedo trabalhava nas vinhas. 

Com as ervas ainda molhadas pelo orvalho, já o som das tesouras a cortar as uvas rivalizava com o chilrear dos passarinhos. 

A animação aumentou com chegada da voz e da concertina de António Ruas, sem que isso diminuísse a velocidade com se enchiam os cestos, apenas entrecortada por um lanche a meio da manhã.

O ritmo continuou, com as uvas a serem prontamente levadas de trator para a adega, até à hora de almoço. 

Confecionada debaixo da vinha, a refeição juntou à mesa a família Amorim, proprietária da Casa da Cuca, e todos os trabalhadores. 

Para além da degustação de um delicioso rancho, este foi um momento de festa, com animadas danças e cantorias. 

O casal inglês considerou que a participação nas vindimas foi uma boa experiência, prometendo voltar e recomendar estas iniciativas na sua terra natal. 

Barbara elogiou o potencial turístico destes programas, dizendo que é interessante ficar a conhecer as tradições locais e os métodos ancestrais de produção.

Com amigos em Moledo, os visitantes aproveitaram para desfrutar da piscina e do sol, da paz e do sossego, mas também para visitar a região. Dizendo que a comida é boa, destacam que as pessoas são muito amigáveis.

Madalena Amorim, matriarca da família, explica que a Casa da Cuca procura envolver nos trabalhos agrícolas os visitantes que se hospedam nas duas unidades de turismo de habitação que possuem em Moreira do Lima. 

«Gostamos de mostrar aos turistas como o trabalho do campo é duro, mas também é bonito», refere, dizendo que o objetivo é que a vertente do serviço do campo complete os momentos de piscina e lazer de que hóspedes desfrutam naquela freguesia de Ponte de Lima.

José Carlos Amorim, que gere a empresa juntamente com a irmã, Sandra, salienta que os turistas podem viver uma experiência genuína de trabalho no campo, uma vez que nada é encenado para os receber. 

«O Minho sempre soube receber bem as pessoas. O que fazemos é mostrar a genuinidade de quem é minhoto», afirma, sublinhando que, apesar da dureza do trabalho e das dificuldades, as lides do campo sempre foram feitas com alegria e cantigas.

Este responsável adianta que o gosto pelo convívio faz parte da natureza da família, pelo que isso reflete-se nas vindimas. 

«Estes são dias de trabalho duro e de muito stress, mas procuramos que no fim do trabalho as pessoas possam ter um momento de descontração, para recarregarem forças para o dia seguinte. Esta alegria, a música, as concertinas, o convívio, fazem com que no dia seguinte se volte com a mesma energia, apesar de todo o cansaço acumulado», declara.

Na mesma linha, Carlos Amorim diz que a vindima é o culminar de um trabalho árduo que decorre ao longo de todo o ano, que começa logo em janeiro com a poda das videiras, e tem o seu ponto decisivo na escolha da data para colher as uvas. 

O patriarca revela o especial prazer de reunir família e amigos, recordando «os tempos antigos» em que as vindimas, a colheita do milho ou ripada do linho culminavam sempre numa festa. «São momentos de grande alegria», enfatiza.

Estas experiências fazem parte do potencial que o projeto “Loureiro do Vale do Lima – um vinho, um território, um destino”, que envolve os concelhos de Arcos de Valdevez, Ponte da Barca, Ponte de Lima e Viana do Castelo, quer promover. O projeto visa a valorização da casta Loureiro como parte integrante e indissociável do seu terroir – o Vale do Lima.

Ano marcado pela quantidade e qualidade das uvas

Um ano bastante interessante em termos de quantidade e de qualidade é a forma como o responsável pela Casa da Cuca define esta época de vindimas.

«É o culminar de um ano de muito trabalho e dedicação. Foi um ano seco, mas a chuva fora de época veio atrasar a maturação final da uva», explica José Carlos Amorim, reconhecendo que a quantidade e qualidade acabaram por surpreender. «Estamos à espera de fazer novamente um grande produto», diz.

Sabemos que tudo o que é feito com paixão e alegria sai sempre um produto muito melhor.

Relativamente à quantidade, houve um crescimento na ordem dos 30 por cento em relação a um ano normal, cifrando-se nas 25 toneladas. No ano passado registou-se uma quebra de produção superior a 50 por cento.

Esta realidade está em linha com o panorama geral da Região dos Vinhos Verdes. Na cerimónia que assinalou os 114 anos desta região demarcada, a presidente da Comissão de Viticultura, Dora Simões, revelou que se espera um aumento de produção face ao ano anterior, com as adegas a receber uvas de altíssima qualidade.

A Casa da Cuca tem uma área de produção de 5,5 hectares. Este projeto familiar tem apostado na recuperação do património genético das castas típicas do vinho branco de Moreira do Lima, tendo como objetivo devolver-lhe a fama de outrora. A aposta foi no Dourado, casta que é considerada como o início do Loureiro, Cainho de Moreira do Lima e Galeguinho. No tinto, as castas existentes são Vinhão, Borraçal e Doçal.

Este ano foi lançado o primeiro monocasta de Cainho de Moreira do Lima, que está a ser um êxito, com excelentes apreciações por parte da crítica especializada. José Carlos Amorim revela a expectativa de continuar a produzir este vinho, mas ressalvando que esta casta é muito menos produtiva que o Loureiro.

Os vinhos são comercializados com as marcas “Da Cuquinha” (Loureiro e Cainho de Moreira do Lima) e “Carcaveira Velha” (Vinhão). Para além do vinho, existe a vertente de alojamento, com a Casa da Cuca (dois quartos) e a Casa da Cuquinha (três suites).





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