Espaço do Diário do Minho

Um país ao espelho

23 Set 2022
Amadeu J. C. Sousa

Hoje, caro leitor, num registo mais singular, venho partilhar consigo uma breve reflexão (apoiada em indicadores retirados ou construídos a partir da base PORDATA) sobre a atratividade e viabilidade do Portugal que vivemos. De um modo particular, reclamo a sua atenção para o retrato recente do nosso país, desenhado através da análise de indicadores da fecundidade, da emigração e da evolução da população escolar nos ensinos básico e secundário.

Atentando no quadro/tabela 1,

verificamos que a emigração permanente de portugueses se afirmou expressiva nos últimos anos (456.438 entre 2008-20). Particularmente vigorosa no doloroso “período da Troika” (239.691 entre 2011-14), a emigração continuou a manifestar-se elevada nos anos mais recentes (155.731 entre 2015-20), ainda que em decréscimo. Uma parte desta emigração, fundamentalmente dirigida para a UE, pode contribuir para incrementar o sentimento de “cidadania europeia partilhada”, aspeto positivo. Muitos destes emigrados tenderão a revisitar amiúde o nosso (o seu) Portugal, mas não poucos fixar-se-ão para sempre no país de acolhimento, com todo o prejuízo daí decorrente para o nosso país.

No período em causa, o índice sintético de fecundidade em Portugal (n.º médio de filhos, nados vivos, por mulher) manteve-se baixo e praticamente estagnado (1,39 em 2008; 1,4 em 2020), não assegurando a substituição de gerações. A população total residente no país reduziu-se em cerca de 225 mil indivíduos, passando de 10.558.177 (2008) para 10.333.765 (2020). O facto de a acentuada emigração e a baixa natalidade não se terem repercutido numa mais acentuada diminuição da população residente no país só pode resultar do elevado número de imigrantes que se fixaram em Portugal nos últimos anos.

Como corolário desta realidade observada (forte emigração e baixa fecundidade), observou-se uma forte diminuição do número de alunos matriculados nos ensinos básico e secundário no período 2010-20 (cerca de 400 mil, vê-se no quadro/tabela 2).

E não fossem os muitos jovens, matriculados neste nível de ensino, nascidos no estrangeiro ou os filhos de imigrantes e já nascidos em Portugal, a quebra observada haveria de ser maior.

A natalidade tende hoje a ser baixa no mundo mais desenvolvido e tal também sucede, de forma muito marcada, em Portugal. Porém, no nosso país os débeis apoios à natalidade (abono de família modesto e pouco abrangente, a creche gratuita não universal, licença parental ainda pouco generosa), os salários baixos, o trabalho precário, os horários de trabalho prolongados e habitação cara, transformam o ato de procriar numa aventura para muitos casais.

Por tudo isto, e muito pelos salários baixos que apoucam o mérito da “geração mais bem formada”, teima em manter-se a multissecular “saga migratória” portuguesa. Daqui resulta uma incontornável perda potencial no crescimento demográfico e económico futuro no nosso país.

De entre os residentes permanentes no nosso país com origem estrangeira também haverá muitos qualificados, mas porventura no conjunto serão percentualmente menos qualificados (dados não verificados em fonte, registe-se), realizando frequentemente, conforme o usual, tarefas ou muito funções necessárias, mas menos apreciadas pelos nativos.

Os protagonistas políticos têm dificuldade em atuar em termos estruturais, acossados que estão por desafiantes e ciclicamente apertados calendários eleitorais. Mas a questão aqui abordada (a míngua tendencial da população portuguesa) assume-se como de raiz estrutural, o que significa que só poderá vir a ter uma solução num horizonte temporal alargado.

Nos últimos dias, a futura e deplorável perda de rendimento dos reformados tem monopolizado a atenção dos políticos, e do comentário político, no respeitante a assuntos nacionais. Dos demais grupos de assalariados, que seguramente virão a ser mais perdedores, em média, neste ano e no próximo, quase não se fala.

Mas o futuro de um país constrói-se, fundamental e inevitavelmente, com os jovens, todos o sabemos. E não estamos, provadamente, a conseguir seduzi-los o bastante. Estamos a construir um país menos ridente, menos auspicioso do que poderíamos e deveríamos.



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