Espaço do Diário do Minho

Fez parar o comboio

22 Set 2022
Silva Araújo

1. Hoje proponho-me falar do Padre Cruz. Francisco Rodrigues da Cruz, de seu nome completo. Um sacerdote que o povo canonizou.

Faleceu um ano depois de eu ter entrado no Seminário. Na altura, o que dele sabia é que se tratava de um sacerdote que um dia tinha feito parar o comboio.

O facto vem no livro de Maria da Conceição Barreira de Sousa «O Santo Padre Cruz – uma vida de oração contínua». Numa das muitas viagens que fazia de comboio, o revisor pediu-lhe o bilhete. Não tinha bilhete, não encontrou o passe que a Companhia dos Caminhos de Ferro lhe tinha concedido, não tinha dinheiro. Intimado a sair na próxima estação, obedeceu. Depois tiveram de lhe pedir que reocupasse o lugar pois o comboio não arrancava. Milagre!, diziam. «Coisas de Nosso Senhor», comentou o sacerdote.

2. O Padre Cruz nasceu em 29 de julho de 1859 no n.º 31 do Largo do Rossio de Alcochete. De saúde muito débil, foi batizado de urgência. Veio a falecer em Lisboa em 01 de outubro de 1948 com 89 anos de idade. Após as exéquias celebradas na Sé Patriarcal foi sepultado no cemitério de Benfica, em jazigo da Companhia de Jesus.

Formado em Teologia pela Universidade de Coimbra, com 21 anos, em 1880, foi ordenado sacerdote em 1882.

Começou por lecionar Filosofia no Seminário de Santarém. Aos 27 anos assumiu as funções de diretor do Colégio dos Órfãos de São Caetano, em Braga, que exerceu durante oito anos. Foi diretor espiritual do Seminário Menor de Farrobo, em Vila Franca de Xira, e depois em S. Vicente de Fora.

Em 1940, com 81 anos, concretizou um dos grandes sonhos: entrou na Companhia de Jesus, dispensado por Pio XII de um ano de noviciado e de residir em casas da Comunidade.

3. Em parte da sua vida sofreu com a perseguição à Igreja. A Carbonária seguia-lhe os passos. Foi duas vezes preso. Numa delas interrogou-o o Ministro da Justiça, Afonso Costa, que o pôs em liberdade. Mais tarde, até, entregou-lhe em mão um salvo-conduto que lhe permitia andar por todo o lado.

4. Foi um homem de grande fé e de profunda e constante oração. As fotografias apresentam-no de traje eclesiástico com o breviário debaixo do braço e nas mãos um terço de contas grossas.

Frequentador assíduo dos lausperenes, foi muito devoto do Santíssimo Sacramento, do Sagrado Coração de Jesus, do Imaculado Coração de Maria. Contrariando a orientação do pároco, que a julgava muito nova, em 1913 deu a primeira comunhão à Lúcia, futura vidente de Fátima. Mais tarde foi encarregado de interrogar os pastorinhos, tendo concluído ser impossível haver naquelas crianças inocentes qualquer fraude ou impostura.

Rezava em toda a parte. Até no comboio em andamento meditou em público as estações da Via-Sacra.

5. Sempre disponível para ouvir de confissão, foi instrumento do regresso a Deus de pessoas como o filósofo Leonardo Coimbra a cujo casamento católico assistiu e foi padrinho de batismo de um filho.

Numa das visitas às prisões conheceu o escritor Manuel Ribeiro, anarco-sindicalista e ateu, para cuja conversão contribuiu. Este veio a agradecer-lhe com o romance «A Catedral».

6. Impôs-se pelo estilo de vida que levava. Nunca deixou de usar batina, mesmo quando, legalmente, era proibido. Repreendido por um agente da autoridade respondeu: o senhor anda com a sua fada e eu, com a minha.

Exerceu o ministério sacerdotal, sobretudo, junto dos presos, dos doentes, dos pobres. Percorreu todo o Portugal a rezar, a pregar, a abençoar.

Viveu pobre e recolheu esmolas para os pobres. Mendigava para dar.

Advertido pelo médico de que já não podia andar de um lado para o outro, dedicou-se ao apostolado por correspondência.

7. Canonizado pelo povo, aguarda-se da autoridade eclesiástica o reconhecimento oficial da sua santidade. Está em curso o respetivo processo, iniciado já em 10 de março de 1951.



Mais de Silva Araújo

Silva Araújo - 29 Set 2022

1. Quando se fala em dinheiro há que prestar atenção a três pontos fundamentais: que seja bem adquirido; que, numa correta escala de valores, ocupe o lugar que lhe compete; que seja bem usado. Tenho sobre a mesa três livros de José Abílio Coelho: «O Hospital António Lopes e a Misericórdia da Póvoa de Lanhoso […]

Silva Araújo - 15 Set 2022

1. Durante o governo da I República, proclamada em 05 de outubro de 1910, foram tomadas medidas contra a Igreja Católica. O grande mentor da legislação produzida, Afonso Costa (Afonso Maria de Ligório Augusto da Costa, de seu nome completo), Ministro da Justiça logo no Governo Provisório, por diversas vezes afirmou a convicção de que […]

Silva Araújo - 8 Set 2022

1. O Grupo de Amigos de D. António Barroso promoveu no passado dia 04 mais uma romagem ao túmulo daquele Bispo, falecido em 31 de agosto de 1918. É minha intenção recordar – a História bem narrada continua a ser mestra da vida – algumas das agruras vividas por aquele Prelado, quando foi Bispo do […]


Scroll Up