Espaço do Diário do Minho

O tempo das caixinhas

21 Set 2022
Rita Gonçalves

Este ano, a rentrée escolar é mais ou menos assim. O mais velho à frente da banda, o segundo a mudar de escola, a terceira a mudar de escola e de ciclo, o quarto a mudar de ciclo, o quinto a querer dar nas vistas com perguntas óbvias, o sexto a entrar pela primeira vez e o sétimo a querer uma caneta para assinar e uma mochila.

Uma das melhores coisas das férias de Verão é o tempo. Ter tempo para sentir o tempo com os que amamos e, de alguma forma, a rentrée é um assalto a este ter tempo. O tempo passa a estar metido numas caixinhas com uns intervalos pelo meio. O tempo passa a estar no ir de um lado para outro.

Há uma fase em que parece que temos de preencher bem as caixinhas da vida dos miúdos para que eles explorem as suas capacidades desportivas, artísticas e outras. Eu percebo agora que as caixinhas podem e devem ser preenchidas com o tempo. Tempo para fazer as coisas com calma, jantar em família a horas decentes, deitar na cama de barriga para baixo e contar as histórias de sempre e as novas, procurar o wally, conversar sobre a escola.

Sempre penso que se Deus me chamar de um momento para o outro, quero aproveitar cada instante para estar, cuidar, brincar com os que mais amo. Percebo, no dia a dia, as coisas que os meus filhos aprendem uns com os outros e delicio-me a assistir na retaguarda.

Um dos meus filhos entrou agora para o 1.º ano. A sua madrinha ofereceu-lhe no seu aniversário, há uns meses, uma mochila muito gira, tão gira que foi gabada e invejada por miúdos e graúdos. Ele ficou encantado. Na véspera do primeiro dia de aulas, este garoto de 6 anos diz para um dos seus irmãos mais velhos que, se ele quiser, pode trocar com ele de mochila porque ele não precisa de uma mochila tão grande, mas que ele, mais velho, precisava de transportar livros e cadernos maiores. O outro, no alto da sua dezena de anos, responde-lhe que não, que tinha sido uma prenda para ele, pensada para ele.

Mas a escola tem de começar. Por aqui, todos percebem que chegam os dias em que cada um tem de ir percorrer o seu caminho durante o dia, para depois se reencontrarem à tarde e contarem, enquanto devoram o lanche, as peripécias do dia.

É uma fase estranha. Deixar os dias de praia e de tardes infinitas. Começar a despedida das birkenstock. Organizar horários, materiais e boleias. Pensar nas refeições com muita antecedência.

Setembro é o mesmo das caixinhas. Caixinhas do tempo. Caixinhas dos lápis. Caixinhas das sapatilhas novas para a educação física. Caixinhas da marmita. Que não seja o mês em que deixamos que coloquem a nossa consciência numa caixinha.



Mais de Rita Gonçalves

Rita Gonçalves - 30 Set 2022

Segunda-feira. Setembro ainda não acabou. O depósito do carro está outra vez vazio. O frio apareceu e a inflação não está com ideias de abrandar. O mundo está atribulado. E aquela amiga com quem tanto falo decide mandar-me, logo pela manhã, um texto sobre humildade, sobre reconhecer os dons dos outros. Para mais, o podcast […]

Rita Gonçalves - 2 Set 2022

Hoje, fui provocada. Tentada. Tentada a reagir e apeteceu-me tanto reagir e dizer poucas e boas, só que ando a ler um livro sobre reatividade e proatividade e, se ainda queria ter alguma esperança sobre a possibilidade de evoluir nesta área, tinha de me conseguir dominar. Dominar-me, rezar por mim e pelos envolvidos e continuar […]

Rita Gonçalves - 19 Ago 2022

Sou uma católica meio trapalhona. Daquelas que precisava de saber mais, de ouvir mais, de fazer mais e melhor. Mas, mesmo assim, trapalhona, resolvi escrever sobre o dia-a-dia de uma mãe com a melhor profissão do mundo (há uma boa parte de mim que não acredita nisto) – doméstica – e que, ao mesmo tempo, […]


Scroll Up