Espaço do Diário do Minho

A educação que não temos

21 Set 2022
Dinis Salgado

Mesmo sem o apoio de estatísticas, é minha convicção ter sido, ao longo dos tempos, o ministério da Educação o que mais ministros consumiu; e isto porque a maioria deles sempre foi instrumento de ação política em vez de instrumento de ação educativa.

Então, esta realidade leva a que a ideologia prevaleça sobre a praxis social obviamente pondo de parte as necessidades e princípios básicos do ato educativo, a ponto de haver permanente contestação de professores e seus órgãos sindicais, de pais e encarregados de educação e de alunos; e, se bem me lembro, numa ação de protesto seis alunos arriaram as calças expondo o dito cujo à consideração do ministro da Educação de então.

Pois bem, nunca acreditei num ministério da Educação dirigido por um ministro essencialmente político; pois sempre entendi que para se fazer uma bom omeleta, mais do que ter bons ovos, é preciso saber batê-los bem em castelo e, após a sua confeção, há que cozinhá-la em lume brando e vigiar rigorosamente todo o processo da fritura.

Ademais, isto só conseguido é a preceito e com sucesso por quem souber do oficio e não por meros aprendizes ou recrutados de conveniência; e evidente é que no país até temos quem saiba muito de educação mas fora dos arcanos da política partidária e, como tal, sem hipóteses de ser ministeriável.

Agora, todos quantos vivem os problemas do país sabem que os políticos se preocupam mais com as aparências do que com as essências, mais com os continentes do que com os conteúdos das coisas que são as necessidades do povo; e sempre que urge tomar medidas, traçar rumos ou desenhar objetivos é esta a realidade que sempre se impõe e acaba por prevalecer.

Ora, tomando o pulso à Educação e concretamente à classe docente, para além dos problemas que lhes são subjacentes, como sejam a desvalorização e congelamento da progressão na carreira, a excessiva burocratização administrativa que a sobrecarrega, a desmotivação, o abandono e a precariedade, a falta de programas de formação contínua, a ausência de incentivos à autoformação e à investigação e baixa remuneração, para mim que não sou ministeriável, o mais grave de todos os problemas está na colocação anual que a maioria dos professores tem de enfrentar.

E porque esta colocação é feita por quadros de zona, leva, no início do ano letivo, à falta de professores em centenas de escolas durante meses com prejuízo evidente para os alunos, e, pior ainda, obriga milhares de docentes a pegar na mochila às costas e abandonar a sua residência habitual, a sua zona de conforto e a sua família e a ser deslocados para zonas distantes onde têm de prevalecer durante um ano; e, mais grave ainda, esta situação confrangedora exige-lhes uma nova habitação, aumento de despesas, integração em ambientes novos e inóspitos, sem recompensa de qualquer espécie.

Assim, muito fácil é perceber que um professor casado e com filhos, ao ter de abandonar a família, aumenta as despesas e sente dificuldades em viver condignamente bem como a família que deixa e a ter de fazer novas e difíceis adaptações ao seu estilo de vida e deste modo o seu trabalho docente perde qualidade, empenho e dedicação; e sabendo nós que um professor, hoje, tem de ser um agente de desenvolvimento pessoal, interpessoal e comunitário como igualmente um criador, um inovador, um artista e apaixonada pelo que faz, pois ele não lida com ferramentas, troncos ou calhaus, mas com cérebros e almas, esta mórbida e nefasta realidade a que está exposto impede-o do cumprimento destas diretivas e objetivos pedagógico-didáticos necessários a uma educação de qualidade, sucesso e futuro.

Pois bem, será que, ao longo dos anos, os ministros da Educação nunca perceberam isto? Será que o atual ministro da Educação também não percebe isto?

Pensando bem, isto é com a cabeça e não com os pés, o maior problema do país e que tendência tende a eternizar-se, sempre passou por falta de governantes dedicados, atentos, competentes e capazes; e, sobretudo, donos de profunda honestidade intelectual, evidente independência de juízo e sólida firmeza de caráter – estadistas e não meros agentes de ideologias.político-partidárias.

Então, até de hoje a oito.



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