Vídeo: Diana Carvalho e Mara Fernandes

«Para mim, é sempre uma emocionante revolta. Revolta de nos terem tirado uma terra que era nossa. Uma coisa é uma pessoa sair por livre vontade, outra coisa é ser obrigado». O sentimento que descreve Manuel de Azevedo Antunes é comum a todos aqueles que veem ressurgir as aldeias que, há anos, lhes foram retiradas pelas águas.

Diana Carvalho
17 Set 2022

As barragens criadas em Portugal entre os anos 50 e 70 do século passado ditaram o fim de muitas aldeias situadas junto a rios como o Cávado, o Homem, o Rabagão ou o Alqueva. A falta de precipitação registada este ano levou ao ressurgimento a olhos vistos de muitas, como é o caso da antiga aldeia de Vilarinho da Furna.

«Foi inaugurada a 21 de maio de 1972 a barragem que destruiu esta aldeia. Faz agora 50 anos», menciona Manuel Antunes. Antes disso, não é, para Manuel, muito difícil recordar o que era a aldeia que descreve com toda a confiança como irmã gémea de Pompeia, já que Vilarinho da Furna «nasceu quando Pompeia desapareceu com o Vesúvio». Em termos de número de habitantes, era pequena. «Fiz um recenseamento em 1970. Tínhamos 57 famílias e havia à volta de 250 habitantes», adianta Manuel.

Vilarinho da Furna

Mara Fernandes

«Era uma aldeia muito curiosa e muito típica, porque era uma aldeia comunitária». Este comunitarismo é explicado pelo professor como uma junção da «gestão da propriedade privada, típica dos romanos, com a propriedade coletiva, típica dos germanos», ambos povos que habitaram o local.

A produção local era vasta, num «equilíbrio entre a agricultura e a pastorícia». «Vendíamos cabras para Coimbra para fazer chanfana, levei cabras e cabritos com o meu tio ao Gerês, levei cavalos selvagens para vender na Feira da Ladra, em Vieira do Minho, vendíamos ovos e milho», conta Manuel. Disto, tudo era também consumido. Poucas coisas eram importadas de fora, à exceção do açúcar, do arroz e das sardinhas, compradas «quando passava o sardinheiro». «Era uma aldeia perfeitamente auto-suficiente», acrescenta o responsável pela AFURNA – Associação dos Antigos Habitantes de Vilarinho da Furna.

 

Do “brincar às barragens” à seriedade do desaparecimento da aldeia

A notícia da construção da barragem de Vilarinho da Furna já circulava desde os anos 40. As pessoas foram ouvindo a história de uma barragem tão antes da sua concepção que Manuel se lembra de, ainda criança, brincar «às poças» com os amigos e de dizerem que iam construir uma barragem.

No entanto, o verdadeiro executor do projeto foi o engenheiro José Albino Machado Vaz, na altura presidente do Conselho de Administração da então Hidroeléctrica do Cávado (hoje conhecida como HICA). «A coisa decidiu-se quando o engenheiro José Albino Machado Vaz foi nomeado por Salazar ministro das Obras Públicas. É evidente que, no dia seguinte, lança o despacho para fazer a barragem de Vilarinho da Furna. Foi em 1967 que isso foi decidido. Claro que, a partir daí, começou a fazer-se a barragem», recorda o professor.

As opções para os habitantes da aldeia foram nulas. «Não nos deram opção nenhuma. Por exemplo, na Aldeia da Luz fizeram uma aldeia nova. Aqui não», diz Manuel. No entanto, assegura que esta opção também não interessava aos habitantes daquela localidade, uma vez que os campos onde produziam muitos dos produtos que consumiam e exportavam ficaram também submersos. «São 332 hectares que estão submersos. Com quê que ficamos? Ficamos com a serra, que quanto muito dá para ter pastorícia. Mas nós vivíamos do equilíbrio entre a agricultura e a pastorícia», explicita.

A única solução foi mesmo conformarem-se. «As pessoas foram-se mentalizando de que tinham que sair. Tinham que sair mesmo», conta Manuel

A aldeia de Vilarinho da Furna foi coberta pelas águas em fevereiro de 1971. Manuel de Azevedo Antunes deixou a localidade onde cresceu por volta dos 20 anos. Enquanto os pais e todos os outros habitantes saíram, distribuindo-se pelos concelhos de Terras de Bouro, Braga, Viana do Castelo, Ponte da Barca, Ponte de Lima, Barcelos, Vieira do Minho, entre outros, Manuel deixou-se ficar para trás. Tudo porque lhe surgiu a «ideia mirabolante» de criar um Museu Etnográfico de Vilarinho da Furna. «Nunca ninguém no planeta se tinha lembrado de fazer um museu evocativo de uma aldeia que ia ficar debaixo de água. Fui o primeiro no mundo. Só há dois, que foi Vilarinho da Furna e a Aldeia da Luz, onde também fizeram um museu, inaugurado há 20 anos», refere.

 

«Hoje, se não fosse isso, teríamos aqui uma aldeia turística, como temos o Campo do Gerês, temos Covide e temos isso tudo».

 

Com a falta de precipitação e a situação de seca meteorológica a acentuar-se, a aldeia de Vilarinho da Furna tornou-se ela própria um museu a olho nu. O ressurgimento da aldeia tornou o local «uma autêntica romaria, principalmente ao fim de semana», revela Manuel.

Para quem nela viveu antes de lhe ser retirada, a aldeia descoberta é uma possibilidade de recordar. «Vamos efetivamente sobrevivendo com esta lembrança e com esta memória», frisa o professor.

Na cabeça de Manuel, as imagens estão ainda «perfeitamente vivas, apesar de as coisas agora estarem um pouco desfeitas». Desfeitas, porque «as pessoas pensam que têm aqui uma grande fortuna quando veem uma coisa a reluzir, mandam uma parede abaixo e afinal aquilo é um caco ou um vidro qualquer», explica o responsável.

A casa do professor espreita ligeiramente através da linha da água, enquanto a rua principal e a ponte estão completamente submersas. O mesmo acontece com a casa na qual nasceu, que pertencia à avó e está totalmente debaixo de água.

Vilarinho da Furna Casa de Manuel

Diana Carvalho

«É bom vir aqui. Costumo dizer que para mim é sempre uma emocionante revolta. É emocionante, porque me emociona, e uma revolta, porque ando revoltado. Revolta de nos terem tirado uma terra nossa. Uma coisa é uma pessoa sair por livre vontade, outra coisa é ser obrigado», sublinha Manuel. «Hoje, se não fosse isso, teríamos aqui uma aldeia turística, como temos o Campo do Gerês, temos Covide e temos isso tudo. Porque já naquela altura vinham cá muitas pessoas de fora», acrescenta.

No problema que todos procuram resolver fica então encerrada a memória destas aldeias renascidas das águas, como é o caso da aldeia que durou 1 900 anos e que Manuel vai continuar a defender como «gémea» de Pompeia. Isto, «se a história for verdadeira, senão fazemos de conta que é, porque o mito tem muita coisa de verdade. E o romancismo também conta a história à sua maneira», termina.




Outras Reportagens


Scroll Up