Fotografia: Diana Carvalho

“Ouvidoria” vai trazer a Braga público de todo o país

A entrevista a Pedro Seromenho, curador da primeira edição do OUVIDORIA – Encontro de Contadores de Histórias de Braga.

José Carlos Ferreira
8 Set 2022

O Mosteiro de Tibães, na freguesia de Mire de Tibães, em Braga, recebe este fim de semana, dias 10 e 11 de setembro, a primeira edição do OUVIDORIA – Encontro de Contadores de Histórias de Braga. Ao longo de dois dias vão estar aqui os melhores narradores e contadores de histórias do país, estando previstas cerca de 50 atividades culturais e artísticas. Este é um encontro para todos e para todas as idades, onde, provavelmente, a frase que mais se vai ouvir será… “Era uma vez…”.

DIÁRIO DO MINHO (DM): Esta é a primeira edição do OUVIDORIA. A história deste encontro também começa por “Era uma vez…”?

PEDRO SEROMENHO (PS): Sim. o OUVIDORIA começa com o “Era uma vez…” porque o OUVIDORIA nasce da paixão, da partilha, da vontade de querer levar as histórias e o conto até às famílias que vão visitar o Mosteiro de Tibães no próximo fim de semana, nos dias 10 e 11 de setembro.

DM: Essa é a génese deste encontro?

PS: Não só. O OUVIDORIA nasce do próprio local. O Mosteiro de Tibães tem a sala da Ouvidoria, onde o abade ouvia reclamações, ouvia as pessoas, as histórias da vida. E, nós pegámos nesse nome e batizámos o encontro, que é organizado pelo município de Braga, tem a produção da Leituras Encantadas e a minha curadoria. O OUVIDORIA vai ser o primeiro encontro do género, mas tenta recuperar um pouco o imaginário que já foi produzido e desenvolvido há alguns anos aqui em Braga. Não podemos esquecer que houve, creio, que 12 edições de Jornadas Internacionais do Conto pela Universidade do Minho.

Diana Carvalho

DM: Essa é a base?

PS: Não é a base porque nós queremos algo diferente, atual, renovado. Trazemos alguns contadores que já estiveram cá há 20 anos, porque a última edição das jornadas internacionais foi em 2012. É o caso de Thomas Bakk. Ele faz literatura de cordel, cria os próprios contos, é uma personagem muito interessante. Ele esteve cá nessas jornadas. Mas, o OUVIDORIA quer ser único, inovador, criativo e, quem sabe num futuro próximo, até o maior encontro do Norte do país do género.

DM: No país existem alguns encontros de contadores de histórias, como os que acontecem na Amadora, em Avis, ou mesmo o encontro internacional de Leiria. Qual foi a maior preocupação para tornar este encontro diferente dos outros?

PS: Não houve essa preocupação de ser diferente. Houve uma preocupação de fazermos as coisas com qualidade e sempre numa base de amizade, família, de afeto, porque é para as famílias que estamos a fazer este encontro. E, eu não podia fazer isso sem convidar uma família. Isso foi importante quando eu comecei a escolher, a selecionar os contadores. Ficaram muitos amigos de fora, confesso. Mas, os que convidei são amigos que, para além de um enorme talento, são boas pessoas. Eu quero que o Mosteiro se encha de uma energia boa, positiva, com figuras como a Cristina Taquelim, que é para mim uma grande inspiração na narração, que foi a percursora das Palavras Andarilhas, e é uma referência ao nível dos contadores de histórias. Lembro-me ainda da Mariana e da Dulce, que formam a dupla Som do Algodão, que conheci mais recentemente, mas que são encantadoras, têm um espirito muito alegre e jovem. A Estefânia Surreira é uma grande amiga, quase família, que junta o conto ao canto, e vai ter uma atuação dupla no OUVIDORIA.

 

«Eu acho que faz todo o sentido que numa cidade leitora, onde se ambicionam vários objetivos, o conto, o contador, a narração não podem ficar de fora».

 

DM: Havendo vários encontros de contadores de histórias e agora termos o OUVIDORIA, poderá surgir uma rede de cidades contadoras de histórias?

PS: Numa próxima edição eu quero pôr essa discussão em cima da mesa e convidar várias pessoas de vários encontros, curadores, e começar a desafiá-los para desenhar um mapa do contador. Nós temos as Palavras Andarilhas, com a Cristina Taquelim e agora com o Jorge Serafim que está como curador do evento; temos o Contamina, com a Teresa Guimarães, na Maia; temos o Contanário, em Évora; temos o Rio de Contos, com a Maria José Vitorino; temos uma data de encontros…

DM: Que podem constituir uma itinerância?

PS: Uma itinerância e ganhar no conjunto. Eu, como autor e falando como escritor e ilustrador, acredito sempre no trabalho em rede. Eu acho que se tiram sinergias, criando aqui um mapa do contador, em que todos podemos ganhar com a itinerância uns dos outros e com as experiências. Por isso, é uma vontade no futuro lançar essa ideia do mapa do contador.

DM: Ou seja, Braga, para além da cidade leitora, pode ser também cidade contadora?

PS: Isso é outra pergunta que eu também posso deixar no ar. Eu acho que faz todo o sentido que numa cidade leitora, onde se ambicionam vários objetivos e metas, o conto, o contador, a narração não podem ficar de fora porque fazem parte do livro e da leitura.

DM: Este encontro é uma oportunidade para troca de experiências entre os contadores de histórias?

PS: É, sobretudo porque vamos ter vários estilos, com vários tipos de espetáculos, para várias idades e diferentes públicos. E todos aprendem uns com os outros. Eu tentei criar esta diversidade no programa do OUVIDORIA.

 

«A ideia foi criar um programa que acontecem várias atividades em simultâneo, em vários espaços».

 

DM: Vai ser possível os pais irem para um espetáculo e os filhos para outro?

PS: A ideia é essa. A ideia foi criar um programa em que acontecem várias atividades em simultâneo, em vários espaços, para várias idades. Nós vamos ter, por exemplo, horas do conto para crianças, com magia. Estou a lembrar-me do Rui Ramos que faz a sua hora do conto com magia, vai ser fantástico. Ao mesmo tempo, a Bru Junça, na cozinha do Mosteiro, faz uma performance narativa para adultos, com receitas dos avós, da família, dos antespassados, da tradição oral. Assim, a família pode desfrutar seja qual for a idade. A minha preocupação foi essa, criar um programa intergeracional, inclusivo. Nós vamos ter espetáculos com intérpretes de língua gestual presentes.

DM: O Mosteiro de Tibães vai receber vários dos melhores contadores de histórias do país. Como é que foi feita a escolha destes contadores de histórias?

PS: Foi complicado. E o que mais me dói no papel de programador é os que ficam de fora. Como é que eu vou dizer àquele amigo, àquela pessoa que eu respeito e que eu adoro o seu trabalho que não houve espaço para ti Mas, as coisas são assim, até porque eu não vejo este encontro como um momento pausado no tempo. Eu vejo como um processo. Então, eu estou já a pensar na segunda e na terceira edição. Se for possível concretizá-la, já está na minha cabeça. E deixei em aberto aqui uma porta muito importante, que é a ponte para a Galiza, isso foi propositado. Não convidei os narradorses galegos. Nós temos dos melhores do mundo na Galiza a fazer narração oral. Posso falar do Quico Cadaval, da Paula Carballeira. São dos melhores do mundo e eu deixei para uma segunda edição, se ela vier a acontecer.

DM: Foi difícil convidar os que estão no programa?

PS: Não foi porque há uma amizade, como eu disse. São pessoas que eu conheço, com quem já estive nas escolas, nas feiras do livro. Tenho uma amizade muito grande com o Rui Ramos, com a Estefânia Surreira, a Inácia Cruz. Já trabalhámos juntos em vários livros, em vários encontros e projetos, e isso facilitou bastante o trabalho. Há outros que eu admiro pelo trabalho, mas não conheço pessoalmente.

DM: Vai ser uma descoberta para si?

PS: Sim. Eu quero também aprender muito com este OUVIDORIA.

DM: Pelo que se pode ler no programa, não vão estar só os melhores contadores de histórias. Vais estar também no OUVIDORIA o pior contador de histórias, o Rudolfo Castro. É também importante ter o pior contador de histórias do mundo?

PS: Sim. Sem o pior não admiramos o melhor.

Diana Carvalho

DM: Estamos, naturalmente, a brincar. Vale a pena ir ver o Rudolfo Castro.

PS: Sim. Lembrei-me agora do José Vieira, da Viarco, que tem o pior lápis do mundo, que não escreve. Isto é genial. Aí, o Rudolfo Castro não deixa de ser também marketing. O Rudolfo é luso-argentino, já trabalha há muitos anos em Portugal e é uma dessas pessoas que eu também admiro muito. E eu fiz-lhe um pedido especial, para além da sessão de contos que ele vem fazer às crianças. Como eu queria que este encontro seja intergeracional, não queria deixar a faixa juvenil de fora. Então, para o público juvenil adulto ele vai fazer uma sessão de contos de terror, algo mais assombroso, mais enigmático. Espero que seja a melhor sessão de contos de terror, e não a pior .

DM: E que se enquadra perfeitamente num cenário como o do Mosteiro de Tibães.

PS: Sim. Nós escolhemos o espaço, e eu acho que ele é a pessoa indicada. Aliás, eu tenho a certeza que ele é a pessoa indicada, porque eu tive o cuidado de falar com outros contadores e todos me sugeriram o nome dele para esse tipo de contos, e estou ansioso por apanhar um susto.

DM: Acredita que estes nomes escolhidos para a programação desta primeira edição vão ter a capacidade de atrair, não só bracarenses, como também público de fora do concelho ou até mesmo de outras partes do país?

PS: Eu tenho a certeza absoluta que vai convocar os amantes da narração, do conto e das histórias, porque vou recebendo mensagens de pessoas do Alentejo, de Lisboa, até da Madeira, que me dizem que gostavam de vir aqui este fim de semana. É uma oportunidade única. Depois, temos aqueles amantes dos outros encontros, dos quais já falámos. São pessoas que vão há anos e anos às Palavras Andarilhas, ao Contanário, ao Rio de Contos e que veem aqui mais um encontro à semelhança dos outros que eles adoram. Eu acho que vai mobilizar muita gente, não só pelo programa, mas também pelo espaço que é fantástico.

DM: Portanto, está à espera de muitas pessoas?

PS: Eu estou à espera de bom tempo, porque isso vai ajudar. Mas, é um fator que nós não podemos controlar. Nós fizemos o nosso trabalho bem feito, com a equipa da Divisão da Cultura da Câmara de Braga, que é fantástica, liderada pela Sílvia Faria. Eles dão-nos sempre todo o apoio que é preciso, estão sempre connosco e, nesse aspeto, temos o nosso trabalho bem feito. Há variáveis que nós não controlamos, como o tempo. Nós sabemos que isso condiciona o público, mas estou a contar com o Mosteiro cheio.

Diana Carvalho

DM: O S. Pedro pode ajudar e ser também ele o bom ouvidor de histórias.

PS: Nós temos um espetáculo algo esotérico, espiritual, que é o “Iná Makhá, Mãe terra”, de Cândida da Luz que, com um tambor, evoca as tribos nativas da América do Norte. Eu vou pedir-lhe para ela também fazer uma prece ao S. Pedro.

DM: Quem for ao OUVIDORIA, o que é que vai encontrar?

PS: Para além dos contadores, das horas do conto e de todas as performances, vai encontrar teatro, vai encontrar performances fantásticas, oficinas de ilustração. Haverá também oficinas de recortes, como o Historioscópio, em que as crianças, na oficina “Do Plástico fiz Sardinha”, vão construir vários peixes, para depois utilizarem no espetáculo de marionetas à tarde, que se chama “O Cardume”. Para além disso, há uma instalação sonora e plástica na Casa do Volfrâmio. Vamos transformar a Casa do Volfrâmio num aquário. Mal se entra no Mosteiro de Tibães temos duas exposições fantásticas, a coletiva do Braga em Risco do Outono e a exposição de Natalina Cóias, “O Avental da Minha Avó”, que vai ser dramatizada através da Inácia Cruz, vai ser uma das horas do conto, com a oficina a seguir da Natalina, que vai criar mini-aventais para as crianças levarem as recordações dos avós ao peito.

DM: Se as pessoas quiserem passar o dia todo no Mosteiro vão necessitar de se alimentar. Esse aspeto foi tido em conta?

PS: Foi. Nós tivemos essa preocupação porque vai de encontro ao que eu disse, é que o Mosteiro tem uma energia boa, e essa energia constrói-se de hora a hora, não é só num espetáculo. Para providenciar isso, a Câmara de Braga criou uma linha dos TUB, com autocarros de meia em meia hora do Campo da Vinha para o Mosteiro de Tibães. É uma linha exclusiva desse fim de semana. A pessoas, com um euro, vai e vem. Depois, à porta do Mosteiro de Tibães vão estar várias roulotes de “street food”, que vão ter propostas desde comida vegan até à francesinha na mão. Por isso, todos vão poder almoçar e saciar a fome. Depois de saciar a alma, vai poder dar alimento ao corpo.

DM: São cerca de 50 atividades culturais e artísticas vão acontecer ao longo dos dois dias nos mais diversos espaços do Mosteiro de Tibães. Como é que as pessoas vão poder escolher e ter acesso a elas?

PS: Nós temos na entrada uma receção em que são entregues o programa e todas as indicações. Cada um leva uma espécie de “voucher” para as atividades em que está a pensar participar. Mas, isso não é definitivo porque pode voltar a escolher outras. Estes “vouchers” são para controlar. Assim sabemos o número de pessoas vão para cada espetáculo tendo em conta a lotação das salas. A gestão é toda feita no entrada pela equipa da Leituras Encantadas e da Divisão da Cultura da Câmara de Braga.

DM: Porque há sessões que terão de ser com limitação de público?

PS: Há sessões que não têm limite porque, esperemos, que sejam ao ar livre. Estou a lembrar-me do “Cumulus”, do Som do Algodão, que fecha no domingo o OUVIDORIA. Mas, a sala das Cavalariças, ou do Recido, ou mesmo na cozinha são espaços com limitação.

DM: E as pessoas manifestam interesse na entrada?

PS: Sim. As pessoas recebem o programa. Nós fizemos um programa do OUVIDORIA muito intuitivo, em que as pessoas lêem e escolhem as atividades em que estão a pensar, recebem os respetivos “vouchers”, em que cada um tem uma cor e vai ter na respetiva sala essa mesma cor. Nós dividimos o mosteiro em cores. A partir daí, podem viajar pelo mosteiro. A entrada é livre, gratuita. É uma iniciativa do município.

Diana Carvalho

DM: O OUVIDORIA já começou a ser divulgado na Noite Branca com a entrega de sacolas com vários artigos dentro, entre os quais um megafone.

PS: É verdade. Estes brindes que criámos foram uma brincadeira, com o saco e o logo do OUVIDORIA. Nós estivemos na Noite Branca a convidar, especialmente, as famílias, através de uma dupla de contadores de histórias, com andas, que são a Trupe dos Escutadores Anónimos. Eles estiveram a escutar e a falar com as pessoas e ficaram todos convidados para o OUVIDORIA, com um megafone em cartão, que espero leve o OUVIDORIA até muito longe.

DM: O Mosteiro de Tibães, um lugar da História, que vai ser durante dois dias palco para contadores de histórias, fica distante do centro de Braga. Isto poderá ser um fator negativo?

PS: Obviamente que é em certa parte. Por outro lado, não estou a ver outro espaço com tanto potencial e com o ambiente que eu queria para este encontro. Eu tive o privilégio de fazer a curadoria de um outro evento que aconteceu no ano passado com a Adélia Carvalho. E lembro-me que, quando a Adélia quando viu o Mosteiro de Tibães e conheceu os espaço todos, ela disse-me que este espaço é único, que tem um potencial até para uma feira do livro internacional, como a de Bolonha. E, realmente é isso. Nós temos ali um potencial, um lugar que dá para, como eu disse, daqui a uns anos a OUVIDORIA poder ser um dos maiores encontros de contadores de histórias do Norte do país.

 

«Nós estamos a trabalhar para um público, para as famílias e, por isso, elas são parte integrante desta história que estamos a escrever. Agora, os dados estão lançados, os ingredientes estão lá, falta cozinhar um fim de semana cheio de hitórias saborosas, que vão deliciar os mais novos e os mais velhos».

 

DM: O OUVIDORIA termina no domingo com o espetáculo musical “Cumulus”, pela dupla “O Som do Algodão”. É um espetáculo que convida a conhecer uma nova língua que é o sonho. Podemos pensar desde já no sonho que haverá uma segunda edição?

PS: Sim, em movo-me muito pelo sonho e, por isso, é que crio eventos como o OUVIDORIA, o Braga em Risco, a Manta. Eu estou sempre à espera de novos desafios, mas desafios onde eu sei que, confortavelmente, vou estar rodeado de pessoas com muito talento e que tem tudo para correr bem. Por isso, deixo o convite às pessoas para visitarem porque elas fazem parte deste espetáculo, deste evento. Nós estamos a trabalhar para um público, para as famílias e, por isso, elas são parte integrante desta história que estamos a escrever. Agora, os dados estão lançados, os ingredientes estão lá, falta cozinhar um fim de semana cheio de histórias saborosas, que vão deliciar os mais novos e os mais velhos.





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