Fotografia: Tomás Guerreiro

Ucrânia. Há seis meses sob bombas

As famílias são mutiladas e os empregos esmagados. O medo tornou-se no único chão comum aos ucranianos sob um céu aberto. São as mulheres que lutam e os homens que fogem numa guerra que não permite indiferenças.

Tomás Guerreiro
24 Ago 2022

Roksolana defende Lviv à frente dos morteiros russos em Kharkiv. Insurge-se rodeada por homens exauridos à porta de um quartel. Os civis oferecem-lhes maços de tabaco. «Sim, já disparei», apresenta-se, com um lenço a disfarçar-lhe o rosto.

Nasceu há 21 anos em Lviv, onde se matriculou na Escola Nacional de Artes quando a invasão a larga escala começou. Depois alistou-se à defesa territorial. «A infantaria russa não ataca o Oeste, portanto ordenaram-me que defendesse o país em Kharkiv», justifica-se perante uma cidade deserta.

Bairro Residencial em Irpin | Tomás Guerreiro

Roksolana não é virgem no ofício das trincheiras. Olhos verdes e cabelos ruivos não protegem a segunda maior cidade da Ucrânia. «Daqui defendo a casa dos meus pais», diz. O combate por Kharkiv também é o combate pelos pais em Lviv e pelos dois irmãos mais novos.

O exército ucraniano encostou o exército russo à fronteira norte, congelando o conflito a Nordeste. De posições estáticas há dois meses, os bombardeamentos prosseguem entre silêncios. As forças ucranianas reconquistaram os dormitórios periféricos, mas os combates entre a artilharia e os bombardeamentos aéreos arrasaram muitos edifícios.

Soldado em Kharkiv | Tomás Guerreiro

Roksolana mostra os escombros da Câmara Municipal e culpabiliza o invasor. «Querem destruir a Ucrânia. Só bombardeiam, não lutam». Seria um salão nobre a avaliar pelas grandes janelas e pelo pé direito das salas. A guerra transformou-o em lixo.

Alguns trabalhadores recolhem o entulho espalhado pelo chão. «Normalmente patrulho o centro da cidade e só quando o comandante ordena é que parto para a frente de combate». Roksolana não é casada, não é mãe e apesar de ser uma jovem, predispôs-se a «morrer pela Ucrânia».

O espírito patriótico permitiu que os ucranianos aguentassem as posições militares a Nordeste e a Sul, mas no Donbas há uma frente de combate insustentável para a defesa. São mil quilómetros demolidores que sacaram a quinta parte do território ao Estado, apesar do esforço humano empenhado na guerra.

O conflito suspendeu o normal funcionamento das instituições. Oleh Fedorov, 43 anos, é juiz no tribunal de corrupção em Kiev, mas alistou-se na defesa civil em 2014. «A seguir à invasão russa, a corrupção é um dos grandes problemas da Ucrânia. Se os funcionários aceitam luvas, quem perde é o país», desabafa.

Cemitério em Moschun arredores de Kiev | Tomás Guerreiro

O juiz é responsável por transportar «equipamento especial» desde Kiev para Kharkiv, onde entrega um míssil antitanque NLWA de fabrico inglês numa cantina de voluntários. «Muitos colegas, inclusive os 12 juízes da suprema corte, também são soldados». Escusa-se a tecer comentários sobre os processos judiciais incómodos para o Presidente Volodymyr Zelensky, apesar de reconhecer que alguns «influentes no seu círculo político estão envolvidos em processos de corrupção».

«Durante a guerra os tribunais não perdem legitimidade, também não são indiferentes à realidade do país»; Oleh refere-se ao novo quotidiano ucraniano submerso em violência, medo e desconfiança.

 

«A maldade sem castigo retorna sempre»

Se muitos civis optam pela luta armada, outros apoiam o esforço militar através de donativos. Jeanne Maksymenko, 42 anos, regressou a Chernivits desde a frente de batalha em Mykolaiv. Deslocou-se aos arredores de Odessa para oferecer uma carrinha comercial aos soldados.

Jeanne é jornalista e regista o conflito desde 2014, quando o separatismo se organizou a leste como contraponto às linhas mestras da revolução EuroMaidan. Dedica-se a investigar crimes de guerra.

Um projeto documental – “Paz para a Nina” – consagra o trabalho que desenvolveu ao longo de oito anos. O filme narra o luto de uma mãe perante o assassinato do primogénito na operação “antiterrorista” do Donbas. «O cadáver exibia marcas de tortura», revela Jeanne. O documentário foi apresentado ao público na última edição do festival em Cannes, buscando o financiamento necessário para a pós-produção.

Mães da Praça Maidan | Tomás Guerreiro

«Os homens de Motorola raptaram o filho de Nina e torturaram-no. O corpo foi entregue ao exército ucraniano». A mãe reconheceu o cadáver mutilado na morgue em Kiev. Arsen Pavlov, alcunha Motorola, nasceu em RonVostov e tornou-se senhor da guerra no Donbas pela organização eficaz da “Contra-Maidan” em 2014 em Kharkiv. Motorola chefiava o “Batalhão Esparta” e ordenou o sequestro de Ihor Yevheniyovych, filho de Nina, que combatia pelo aeroporto de Donetsk.

«O Carma não perdoa», conta Jeanne. O russo morreu incinerado num carro armadilhado à bomba em 2016, mas o batalhão prossegue operante. «Crianças armadas a quem atribuíram poder e força», salienta a realizadora que arrastou o marido e os dois filhos desde Kiev para Chernivits ao segundo dia da invasão.

A família alojou-se numa casa abandonada por um casal emigrado em Portugal, mas Jeanne não repousa no abrigo fronteiriço à Roménia. Visita os pais em Odessa e os amigos em Lviv. Entrega mantimentos aos soldados.

Mãe e filha escampam à guerra pela fronteira romena em Siret | Tomás Guerreiro

O marido e os filhos passam os dias na aldeia, apesar de a moradia emprestada não ter água canalizada. A retrete é no jardim e os excrementos caem numa fossa ao ar livre. Os donos emigraram há 20 anos e nunca mais voltaram. A família é a principal preocupação de Jeanne que retorna a Kiev para obter o passaporte do filho mais velho. Oles tem 16 anos e a emigração é uma hipótese.

 

A Ucrânia implora pela abertura de um processo de integração europeia desde 2014. Só ouvem agora quando se sentem ameaçados.

 

«Nada é muito seguro», explica, considerando que o comboio é a melhor alternativa para viajar até à capital. Homens amarrados por arames enchem as camas disponíveis nos vagões. Uns amputados, outros engessados são o produto de uma guerra insaciável.

Ninguém prega olho na viagem noturna até Kiev. Os passageiros conversam nos compartimentos, caso o bilhete seja de primeira classe são duas camas, caso seja de segunda são dois beliches. Jeanne desconsidera os combatentes das milícias pró-ucranianas e compara-os a «rapazes problemáticos das claques de futebol que servem os pretextos do Kremelin». Uma patrulha militar carrega caixotes selados a fita verde – símbolo do exército – para o comboio.

«A Ucrânia implora pela abertura de um processo de integração europeia desde 2014. Só ouvem agora quando se sentem ameaçados», insiste, argumentando que o caminho para a paz só se trava pelas armas. Segundo o Pentágono, os EUA já enviaram mais do que cinco mil milhões de dólares em equipamento militar para a Ucrânia. «A maldade sem castigo retorna sempre, primeiro a Crimeia, depois o Donbas, agora é a invasão completa» e desbobina uma história secular de confrontos, estabelecendo o acidente nuclear em Chernobyl como o princípio do fim para a União Soviética.

Prédios bombardeados de Borodyanka | Tomás Guerreiro

Os passaportes são inspecionados pelos militares na estação dos caminhos de ferro em Kiev. Os primeiros passos perguntam pelos restos das batalhas. O apartamento permaneceu como Jeanne o abandonou. Comida podre no frigorífico, malas no chão e roupa espalhada. Oles, o filho mais velho, “stressa” a cada toque das sirenes. “Stressa” várias vezes ao dia. Jeanne abana-lhe o sino como Pavlov aos cães. «Relaxa».

«O meu nome surge na lista negra», considera-se alvo da Federação Russa caso Putin logre conquistar a Ucrânia. Nina não é o primeiro documentário que Jeanne produz sobre a “irmandade soviética”. São vinte anos de trabalho jornalístico. «Muito ativa politicamente», acha-se um risco ao bem-estar da família. Dorme apenas duas noites na capital, encomenda o passaporte ao filho, empacota as roupas e regressa a Chernivits – a única cidade ucraniana nunca bombardeada. Oles emigrou para Barcelona após três meses.

Na praça Maidan a poucos quilómetros do apartamento de Jeanne, outras mulheres choram diariamente os filhos consumidos pela guerra. «Quero enterrar o meu marido», afirma Victória Pavlika. O marido faleceu em Mariupol como soldado no batalhão Azov. Cerca de meia centena de mulheres reveem-se na dor de Victória.

Victoria Pavlika | Tomás Guerreiro

O batalhão Azov é uma unidade militar inorgânica conectada ao neonazismo internacional, que o separatismo em Mariupol combate desde 2014. A Federação Russa utilizou-os como bode expiatório para a invasão. Petro Poroshenko, em novembro de 2014, integrou a milícia nas forças de segurança ucranianas. O batalhão tornou-se um símbolo de “resistência” ao defender a siderurgia Azovstal sem o apoio do exército.

Arseni ingressou no batalhão Azov porque «amava o país e a família», diz Victória. Cercado em Mariupol antes de ser baleado. «A situação era horrível, os corpos eram abandonados pelo chão. As pessoas comiam pássaros selvagens», recorda a última conversa pelo telemóvel.

Victória casou aos 28 anos, enviuvou ao fim de seis meses. «Sonhávamos comprar uma casa grande». Acordou, com a notícia retardada três dias. «O nome do primeiro filho seria Arseni como o nome do pai». Os corredores humanitários negociados pelas Nações Unidas entre beligerantes para se acordarem evacuações civis e câmbios de prisioneiros não devolveram a Victória o corpo do marido. «Os russos matam-nos, se o formos procurar para Mariupol», acrescenta a rapariga de 23 anos que alinhou a sua voz ao coro das mães Maidan.

 

«Combater não é comigo»

Oleg Moskin abrigou-se num escritório. Colchão despachado pelo chão, geleira forrada a ajuda humanitária, roupas disparadas para um bengaleiro plástico. Um garrafão cheio por 50 litros de água e uma secretária vazia compõe o quarto.

«Russky, Russky», ouve-se-lhe a voz tremer num vídeo que registou pelo telemóvel antes de fugir aos combates em Irpin. Um tanque desfila desde uma ponta à outra do ecrã. «Combater não é comigo», justifica porque aos quarenta anos se refugiou em Chernivits, a trinta quilómetros da Europa pela fronteira romena.

Oleg Moskin | Tomás Guerreiro

Os homens esbarram na emigração e os primeiros deslocados internos superlotaram a cidade fronteiriça. Moskin já só encontrou um escritório sem água canalizada. As milícias separatistas e o exército russo abandonaram os arredores de Kiev. Milhares de famílias regressaram a casa, mas Oleg não quer voltar a Irpin: cidade arrasada ao servir de tampão à defesa da capital.

Exército, polícia, milicianos, mercenários, uniformes – «não quero combater» – Oleg desvia-se quando os vê. Esconde-se numa lavandaria, inventa uma desculpa, aguarda que os soldados desapareçam. «Se nos abordarem, dizes que trabalho contigo».

Todos os homens são poucos para a Ucrânia enfrentar a Federação Russa. Caso os milicianos lhe peçam a identificação, podem forçá-lo a alistar-se na defesa territorial. «A guerra não é para mim», diz que cumpriu o serviço militar obrigatório.

Toma o pequeno-almoço numa esplanada. Há movimento na rua, mulheres bonitas, crianças, jovens irredutíveis, filas onde os mais pobres recebem a única refeição do dia. Todos os edifícios públicos converteram-se em grandes dormitórios. «Quero sair da Ucrânia, não me sinto útil. Não consigo combater, não é o meu estilo», desabafa.

Feira em Borodyanka | Tomás Guerreiro

Pelo caminho de volta ao escritório, compra dois garrafões de água e baixa os olhos à saudação de um guarda fardado ao entrar no prédio. Dedica-se ao ócio até à hora do jantar. Num fogão elétrico aquece uma mistura de carne enlatada, esparguete e polpa de tomate. O jantar é servido na secretária. Fecha as persianas ao cair da noite e apaga as luzes para que «ninguém veja desde os aviões». Só uma lâmpada se prolonga para a vídeochamada com a esposa. As sirenes de alarme não os interrompem.

A esposa e a sogra requereram asilo aos Países Baixos, foram «bem acolhidas», mas o pai nunca fugiu à capital ucraniana. «Quero ir ao encontro delas», desabafa Oleg, fotógrafo de casamentos sem rendimentos desde o princípio da invasão.

Despede-se da esposa, deseja boa noite à sogra. O noticiário segue-se pela noite dentro: um bombardeamento ali, uma batalha acolá. A eletricidade falha no prédio, mas as sirenes de alarme não soam.

Domingo pela manhã veste-se a rigor. Encontra-se a Alex e a Slavi, dois irmãos nascidos em Chernivits, na igreja evangélica local. Quatro acólitos cantam melodias religiosas num palco de madeira. Oleg, Alex e Slavi acompanham os salmos de mãos dadas. As orações pelo fim da guerra intercalam o repertório musical. Os desaparecidos são chorados.

Missa em Suceava, Roménia | Tomás Guerreiro

«Pai de duas meninas», conta Alex Yevdoschak, com os olhos postos na fotografia de um homem raptado a transportar ajuda humanitária para Mikholaiv. Alex Yevdoschak tem 28 anos. A sua mulher e a sua bebé refugiaram-se na Polónia. Ele criou uma ONG financiada por fundos ingleses para fintar eventuais convocatórias do exército. Reservista de quarta vaga como Oleg. «Posso matar, mas não o quero fazer, sou crente em deus», confessa-se.

Alex responsabiliza-se pela educação do irmão mais novo. «Já aprende inglês», refere-se a Slavi que tem 17 anos e vive na casa do mais velho para «se tornar um homem», Uma criançola que imita “zombies” ao explicar a guerra.

Os três jogam à consola uma tarde inteira, entre alarmes de bombardeamento ignorados. A Slavi resta uma semana para completar 18 anos e a família condenou-o a emigrar para Inglaterra. O mais velho pousa o comando, «emigrar é preferível a combater». Slavi diz-se preparado, mas não o está. Não fala inglês, nem nunca se afastou de Chernivits.

 

Do outro lado

Três dias passados, Slavi saltou para a Roménia. A família cantou-lhe os parabéns por videochamada. Segundo Ilie Poroch, polícia de fronteira na Roménia destacado em Siret, cerca de 596 mil pessoas cruzaram a fronteira desde o princípio da guerra. A maioria dos refugiados solicita às autoridades transporte para a estação de comboios mais próxima, para prosseguirem viagem até aos países no centro europeu.

Estação de Comboios em Przemsyl | Tomás Guerreiro

«O número de polícias aumentou, os pontos de passagem são assegurados pelos guardas fronteiriços. Os dispositivos de reserva estão a postos, com estações móveis de controlo caso seja necessário», afirma Ilie Poroch.

O ferry-boat em Isaccea no estuário do rio Danúbio, funciona a dois sentidos. Famílias regressam à Ucrânia para verificarem as suas casas e os seus negócios. A vertiginosa corrente de refugiados perpetua-se.

Os ucranianos desconfiam da qualidade de vida na Roménia e preferem outros países no espaço europeu. As 39 estruturas de acolhimento que o Estado disponibilizou, encontram-se desertas. O país é uma ilha latina num mar eslavo e a única ponte cultural entre romenos e ucranianos é o cristianismo ortodoxo. Ao contrário do Estado, os sacerdotes e os monges desempenham um papel central na crise migratória, oferecendo comida na fronteira e guarida em mosteiros do século XVI.

Alexander Sava é bispo em Suceava, na Roménia, e passeia-se pelo pátio de um mosteiro entre os refugiados, diz que «a fome, o frio, a dor, o sofrimento, sentem-se sem exceção e da mesma forma, independentemente do tom de pele ou da religião. Alexander ouve-lhes as confissões e extrai o suco aos desabafos: «Não devia haver guerra entre irmãos. Demasiada gente morreu inocente».





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