Espaço do Diário do Minho

PELA NOSSA SAÚDE

15 Ago 2022
Narciso Mendes

         Estive há uns dias com um amigo meu, das velhas andanças de juventude, agora, tal como eu, idoso e reformado. Só que desta vez achei-o algo taciturno, de semblante carregado e sem o humor que o caraterizava. Senti logo que algo de estranho se estava a passar com ele, uma vez que fora sempre uma pessoa bastante extrovertida. De facto, nem me parecia o Custódio habitual. Acabando por o interpelar sobra a razão do seu estado atual, na intenção de o ajudar:

– “O que tens pá, o que se passa contigo? Estás com uma cara de poucos amigos!”. Franziu o sobrolho e pôs-se a desfiar o rosário das suas mágoas, dizendo: – “Desculpa lá, é que estou a chegar daquele imponente edifício hospitalar de Braga, onde fui à consulta por causa dos meus padecimentos e não é que me sinto desprotegido por este Serviço Nacional de Saúde (SNS) nos moldes em que está?”.

 “Mas, porquê?”. Indaguei e a resposta foi esta: — “porque os serviços de imagiologia do Hospital mandaram às malvas os exames pedidos, há cerca de um ano, pelo médico. Ao menos, quando aquilo era uma PPP, ia fazê-los aos privados, mas, agora, a ministra, não deixa. Daí, perceber a decisão dos médicos em pedirem escusa de responsabilidade se algo correr mal”.

De facto, o meu amigo tem carradas de razão. Que o digam as mulheres grávidas, a braços com uma maternidade eminente, ao esbarrarem com os serviços de ginecologia e obstetrícia encerrados. Coisa inédita desde o início da liberdade, da democracia e da criação do SNS. E os nossos governantes, ainda, têm o desplante de nos virem dizer que o baixo índice de natalidade, por cá, é preocupante e que é preciso algo ser feito para inverter a situação. Como assim, se fecham os blocos de partos às parturientes prestes a darem à luz? E o que diz o Presidente da República? Põe-se, com aquele ar de “catavento”, a ver se chove.

Depois, anda para aí certa gente a desdobrar-se em colóquios e debates sobre o envelhecimento da população e a falta de natalidade, porém, a ideia que nos assalta é a de que aquilo que mais importa é ser paga por isso. Atente-se, pois, às contradições que vão surgindo: há autarquias a oferecerem cheques-prémio aos casais que decidam ter filhos como contributo ao aumento populacional, mas depois mandam as grávidas parir duas dezenas de quilómetros de distância, ou mais, da sua área de residência, só porque o hospital decidiu bater-lhes com a porta na cara.

Este esboroar do SNS tem dois rostos: o do Primeiro-ministro Costa e o da “tonta” Ministra da Saúde, Temido, que se fossem de outra cor política – mesmo com maioria absoluta – já estariam no olho da rua. Mas não. Prosseguem na senda do “desnorte” a que, também, vai ajudando a implementação das 35 horas semanais, o desmantelamento das PPP nos hospitais e, se não arrepiarem caminho, a hipotética laboração semanal de 4 dias. E o povo – na sua maioria de esquerda, ainda que com o caos na saúde – resigna e aplaude, só porque o isentaram das taxas moderadoras.

Entretanto, há pessoas que se veem na necessidade de recorrer ao crédito para fazerem cirurgias e tratamentos nos privados, devido ao comatoso estado do SNS, como forma de se sentirem aliviadas nas suas maleitas. Daí, o crescimento daqueles a olhos vistos, ou não estivessem eles atentos ao maná que provém da rotura na saúde pública que é o que lhes dá o gaipo. Para tal, vão procurando fidelizar os pacientes com seguros e descontos de 50% nas consultas.

Quanto ao Custódio, esse, lá vai implorando aos nossos governantes para que olhem pela nossa saúde, porque cuidar dela é contribuir para a melhoria da economia e um travão ao absentismo em Portugal. E, em tom de desabafo, lá me foi dizendo: – “nunca, em dias de vida, vi semelhante vexame infligido, sobretudo, às parturientes? E que dizer, quando o ‘maioral’ das Finanças vem afirmar que dinheiro para o SNS não é problema? Então, se assim é, o que faz falta é o povo sair à rua, avisar o PM e a malta do PS de que é imperioso refundá-lo.” 



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