Espaço do Diário do Minho

Padres – sinais de contradição?

15 Ago 2022
António Sílvio Couto

Por estes dias e perante as notícias que são veiculadas sobre os padres, vemos que estes devem ser uma ‘raça’ (quase a resvalar para o desumano) de má índole, pois o que deles se refere é pouco menos do que muito mau, tais as malfeitorias que praticam ou mesmo as tropelias em que se envolvem.
Dá a impressão que regredimos ao tempo da ‘primeira república’ – há um século atrás – quando a mesma ‘classe’do clero era classificada de ‘corja’ e como que promotores da ignorância, assinalados como inimigos de quem os perseguia…

  1. Enquanto padre, quase há quatro décadas, nunca pensei ter a sensação de desprezo, de ser olhado de soslaio, de constituir um perigo para a sociedade… como agora nos fazem crer que somos ou que nos devemos considerar enquanto tal. Alguns dos factos trazidos à luz do dia – depois de tempos tenebrosos e esconsos – sobre ações cometidas por parte de certos padres fazem com que o mal de uns se propague, difunda e infete todos os outros. De uma forma orquestrada vemos serem desfiados erros, pecados e crimes de uns que cobrem todos os demais. De um modo quase torpe se faz crer que, quem ainda não foi denunciado, tem de se colocar de prevenção, pois mais cedo do que tarde entrará no role dos proscritos…
  2. É uma perceção infetocontagiosa essa de ver que, alguns daqueles que caíram nas teias de todo este processo, estão a ser colocados no patibulo de uma nova inquisição. Surgem denunciantes (anónimos, encobertos ou com cobertura), são incentivados os delatores – veja-se a promoção de certas campanhas e de argumentos de determinados setores – pois, dá a impressão de que não seremos ‘civilizados’ se não atingirmos a cifra de outros países… nesta matéria. Daqueles que conhecemos e que foram lançados na fogueira inquisitorial percebe-se que estão votados ao desprezo, sendo trucidados sem dó nem piedade. Mesmo que tenham cometidos ‘crimes’ – estes só serão assim considerados quando transitarem em julgado – estas pessoas não merecem respeito e não têm dignidade? Os seus erros fizeram deles cidadãos de classe inferior? Não haverá um plano para primeiro (social, cívica e culturalmente) condenar e só posteriormente aceitar a pronúncia?
  3. A habilidade com que está a ser montado todo este processo reveste condições de perseguição à Igreja católica e pretende criar condições para que as ‘jornadas mundiais da juventude’ do próximo ano, em Lisboa (JMJ 2023), sejam um fiasco, pois quem acreditaria numa ‘agremiação’ onde os seus colaboradores principais, que são os padres, estão sob suspeita social e moral? Quem deixaria aproximar-se de um potencial mau elemento social e (quase) profissional? Quem daria crédito a quem foi desacreditado eticamente?
    Nota-se que as garras infetadas de má-fé estão untadas de preconceito ideológico. Nota-se que forças mais ou menos habituais noutros processos se perfilam para colherem os frutos desta campanha de intoxicação noticiosa. Nota-se que os (ditos) católicos acreditam mais nas notícias das redes sociais do que nas ações silenciosas de tantos dos membros da Igreja – onde o clero se inclui – ao longo dos séculos.
  4. A título de exemplo deixo dois momentos da ordenação dos diáconos e dos padres, numa tentativa de alicerçar as razões de ser e não tanto o entretenimento do mero fazer. Por ocasião da ordenação do diácono diz o bispo ao ordenado: «toma o Evangelho de Deus, que tens a missão de proclamar: crês o que lês; ensina o que crês; vive o que ensinas». Num momento da ordenação do padre, o bispo afirma, depois de ter perguntado: «prometes a mim e aos meus sucessores reverência e obediência» … ao que o ordenado responde: «prometo»… dizendo o bispo: «queira Deus consumar o bem que em ti começou».
    Duas atitudes se destacam nestes momentos trazidos à colação: a importância e o serviço à Palavra de Deus, por parte do ordenado e a qualidade de compromisso deste em comunhão com os responsáveis da Igreja e todo o presbitério.



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