Espaço do Diário do Minho

SABER PERDOAR

14 Ago 2022
P. Rui Rosas

Todos nós ficamos certamente indispostos e mal impressionados, quando a comunicação social descobre e relata algum caso de abuso sexual de menores.

 

Infelizmente, na actualidade e no passado, factos deste tipo sempre aconteceram. E mais surpreendidos nos sentimos, quando tais acções são realizadas por pessoas que deviam, pelo contrário, nessa matéria, dar exemplo de probidade e de boa conduta. Referimo-nos ao escândalo há pouco noticiado sobre um sacerdote deste país em que vivemos.

 

Costuma dizer-se que não é notícia que um cão morda um homem. Se ocorre o contrário, isto é, se um homem morde um cão, os “media” não deixam de parangonar com letra super-acrescida a ocorrência. Faz mal? Não. No entanto, se não diz que se trata de uma excepção comportamental, apenas se serve dela para conquistar leitores ou espectadores, enfim, público que lhe dê importância. Não interessa o facto em si, mas os ecos ressonantes que esse meio de comunicação consegue provocar.

 

Há uma temática sobre a qual a comunicação social tem especial predilecção. Quando algo que transmite suscita um grande alvoroço entre quem a ela recorre. Em determinadas situações, pode até querer desempenhar um papel de juiz moral dos factos que noticia. Não é que esteja interessada, de um modo particular, em dar boa doutrina sobre o tema que trata. Mas na conquista de influência sobre pessoas que a procuram e assim acolhem mais facilmente as notícias que recebem.

 

Mas devemos considerar ainda outro aspecto. Quando um jornalista descobre uma situação em que a repercussão dos factos ou da circunstância em questão provoca, no seu público, uma maior

atenção, ele aí tem uma oportunidade de exercitar a sua actividade, já que sente, a priori, que o sucesso do que que vai comunicar será fogoso e fácil.

 

É o caso de um escândalo, que prende a atenção e a curiosidade de quem o passa a conhecer, Sente-se imediatamente juiz rigoroso do que lhe é transmitido. Mais ainda, quando se trata de alguém que deveria dar exemplo de boa conduta em geral e, em casos mais específicos, própria da sua situação e dos seus compromissos morais e existenciais assumidos.

 

Dum sacerdote é mais difícil perdoar certas acções do que a um cidadão que nunca assumiu  compromissos tão exigentes. Nomeadamente, se colidem com as expectativas de quem se aproxima dele, sabendo que se trata de um ministro divino, a quem Cristo concedeu prerrogativas únicas – como a da celebração do Sacrifício Eucarístico e o poder de perdoar os pecados através do Sacramento da Penitência. E, precisamente para dar bom exemplo de conduta e ter mais liberdade de movimento no serviço aos outros, pediu-lhe que O imitasse, vivendo o celibato apostólico.

 

Os fiéis dele esperam, portanto, um comportamento exemplar. Se falha, como é o caso que atrás se referiu, decerto que a dor de quem  o respeitava é mais rotunda. No entanto, deve recordar-se que tais situações, graças a Deus, são muito raras no sacerdócio católico. E que o perdão divino é misericordioso: até 70×7. Se não tivesse uma bitola tão ampla, S. Pedro nunca teria sido o primeiro Papa da Igreja, depois das  negações sobre o seu conhecimento e a sua relação com Cristo. Ao amor inigualável do Senhor, bastou o seu  arrependimento sincero. E é assim que continua a perdoar em todos os casos. Devemos, também neste aspecto, imitá-Lo, ainda que nos custe.

 



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