Espaço do Diário do Minho

Ao correr da pena: Complexidades e simplex’s

14 Ago 2022
Armindo Oliveira

1 – Há coisas neste país que são difíceis de se apanhar por serem demasiado esguias. Escapam-se. Outras, como alguns dizem, são muito complexas para se perceber de ânimo leve. Se fossem só esguias a gente ainda entendia alguma coisa. Agora lidar com complexidades a coisa fica bem mais complexa. Complexa é o conceito certo para se complicar a coisa por mais simplex’s que se inventem. E de eleição em eleição lá aparece mais um simplex para tentar simplificar o simplex anterior. Porém,  tudo continua complexo, mesmo com simplex’s associados. No final, a gente fica a não perceber um chavo. Essa é a ideia!

Coisas complexas: os crescimentos económicos acima da média, a inflação que era conjuntural, a diminuição da dívida com pagamentos nunca feitos, o continuar do caos na Saúde, a Educação burocratizada, as esquadras de polícia ambulantes, os incêndios incontroláveis, as avarias do SIRESP, a própria solidariedade no gás, os lucros na Banca à custa das comissões são coisas de elevado grau de complexidade que, para se explicarem, tornam-se muito complexas. Eu bem gostaria de perceber este jogo para o poder trespassar através dos meus escritos atoscados aos leitores que ainda têm paciência para me aturar.

2 – Nunca fui um tipo chato, mas estas coisas das políticas dão-me cabo da mioleira. Quando penso que a coisa está mais descomplexada, vem logo a seguir outra bolada, assim como não quer a coisa, que complica a percepção da coisa que estava no caderno dos simplex’s. E nisto anda o pagode entretido há sete anos, neste país de coisinhas e de casos, e, no final, nem se sabe, nem se fica a saber praticamente nada, porque os ziguezagues das políticas sectoriais complicam a coisa e fazem derrapar ou amassar os números badalados das coisas que nos querem impingir.

3 – Neste jogo das políticas, há sempre muita coisa em jogo e em disputa. As regras adaptam-se conforme as conveniências. No final, como era de esperar, e é bem sabido, que neste jogo de interesses não há empates. Uns ganham outros perdem, contrariando os ditames vitoriosos daquele velho autarca da periferia citadina que se gabava, de boca aberta, de nunca ter perdido uma eleição, se bem que a maralha já o topasse à distância. Bastava o velho autarca cheirar a propaganda da coisa para descarregar a cruzinha no lugar ajustado, mesmo que os dois rabiscos ficassem com o rabinho de fora. A sério, a sério, nesta coisa da política ninguém sabe como a história vai acabar.  São tão curvilíneos os meandros que a gente perde o fio da correnteza. Já aconteceu: a vitória nas “caixinhas” estava assegurada pela contabilidade das cruzinhas e confirmava pelos mirones fiscalizadores, mas depois vieram os arranjos da ocasião para desfazer tudo num instante, apesar das juras de amor às causas democráticas e que tal coisa de borrar a escrita nunca aconteceria com eles. E o compasso esquerdizado foi seguindo em marcha estonteante para se abocanhar a cadeira do poder. Para os figurantes, as segundas e terceiras linhas, entrarem na cena e conseguirem apanhar algumas migalhas do repasto tiveram e ainda têm que mostrar o toutiço sorridente e acomodarem-se na frente do ecrã, vociferando com expressões faciais de encómios e com salvas os putativos farsolas à coroa. Nesta montagem, não importa se antes tinham alinhado com os, agora, ressabiados, da causa perdida. No jogo, engole-se bem a coisa e convém para não perder pitada do poder, fazer a cama fresca, florir os jarrões do cómodo e incensar os aposentos dos novos inquilinos para ganhar alguma mordomia.

Na política, é tudo uma questão de saber esperar. E de se afinar, de bentas metediças, com os novos “mandamentos” do chefe. Nesta balbúrdia, só se safa quem faz figura de “emplastro” e aprenda a derreter aquele sorriso de lambisgóia que mete fastio ao mais aziado da praça.

4 – Já me aconselhava o meu saudoso pai para nunca me meter no mundo da choldra. Foi este “monstro” que o deixara órfão ainda na tenra idade com a sua mãe, minha avó, a tratar de uma pesada prole. Pelos vistos, o meu avô era um intrépido “republicano” no tempo ou um desassossegado das causas “regeneradoras” que mobilizava a trupe farta de esfaimados. Nunca fiquei a saber se foram os “monárquicos” a darem cabo do gorgomilo ao meu avô ou as facções reaccionárias que abreviaram os seus sofrimentos existenciais. O que sei é que o meu pai, criança, passou a comer o pão que o diabo amassou, tendo como hospedaria habitual os palheiros das redondezas para onde fora “deportado”.

Nunca eu quisera ouvir as palavras sensatas e experimentadas do meu pai. Contra as suas ideias e contra a sua história de vida amarga, meti-me neste buraco de víboras e, claro, só podia sair de lá mordido e bem mordido.

Neste campo das complexidades e dos simplex’s, os políticos esclerosados mostram, com bom rigor, a sua arrogância e democraticidade vesgada num processo repetitivo e peçonhento, sendo a retaliação e o nepotismo duas das suas facetas mais visíveis para amedrontar e fidelizar.



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