Espaço do Diário do Minho

De perdão em ‘perdões’… até onde?

8 Ago 2022
António Sílvio Couto

Temos vindo a assistir, sobretudo por parte da Igreja católica e dos Papas em particular, a inúmeros pedidos de ‘perdão’, pelas mais diversas razões, sob a tutela de díspares razões e ao alcance de holofotes públicos sem imoderação. Embora não sejam questões do foro teológico-dogmático, muitos desses ‘perdões’ estão – na minha perspetiva – eivados de um forte erro: a descontextualização histórica.

Não está, minimamente, em causa o questionamento da utilidade – nalguns casos mais social e moral (ética) do que com outra tonalidade – destes ‘perdões’, mas podemos colocar uma outra leitura que não poderá (ou não deverá) ficar fora da repercussão desses gestos… na Igreja e para com o mundo.

1. Não estaremos – à semelhança de outras visões da História – a distorcer a leitura dos factos sem os enquadrarmos no seu tempo? Não estaremos a servir mais os intentos de certas ideologias, mesmo na revisão que fazem da ‘sua’ história? Não andaremos a gastar tempo com revisionismos mais ou menos perigosos, quando não soubemos interpreter a nossa posição ao tempo dos acontecimentos? Não parece que nivelamos os ‘perdões’, como se fossem todos iguais ou tivessem o mesmo alcance histórico, moral ou espiritual?

2. A vaga de ‘perdões’, por parte da Igreja católica, teve um maior incremento por ocasião do «Jubileu do ano 2000» e protagonizada pelo Papa João Paulo II, ao tempo inserida na vertente da purificação da memória como um dos itens da vivência jubilar. Nessa época boa parte dos ‘perdões’ configuravam questões de índole religiosa, quanto ao passado da Igreja e do relacionamento com outros grupos religiosos. Aqui se situaram o tema recorrente da inquisição e a forma como o papado tinha lidado com os judeus, ao tempo da segunda guerra mundial…

3. Foi com o novo milénio que emergiram em catadupa acusações – muitas delas silenciadas e/ou encobertas por longo e demasiado tempo – envolvendo feridas, mau-comportamento (à luz dos valores cristãos de sempre), injustiças e, porque não, crimes contra pessoas indefesas, em especial crianças e adolescentes… numa onda de ‘abusos’ transversais em várias partes do mundo. Foi num misto de espanto e de incredulidade que vimos serem apresentados casos e situações, referidas pessoas e muitos responsáveis que saíram do anonimato pelas razões mais execráveis e quase-incompreensíveis.

4. De uma forma neo-inquisitorial tudo e todos ficaram sob suspeita, quase tendo quem quer que seja de provar o contrário. Esta onda varreu inaplacavelmente quase todas as estruturas da Igreja católica, desde paróquias a seminários, de colégios a congregações, movimentos laicais e estruturas de assistência… ao nível diocesano ou mesmo na Santa Sé, notando-se um farejar acusatório a roçar o doentio em certos setores na Igreja e mesmo da sociedade em geral.

5. Num esforço titânico, o Papa Francisco como que se lançou a traçar linhas de denúncia, a criar mecanismos diocesanos e da Igreja universal, por forma a não deixar a mais pequena sensação de que (se) estaria de acordo com o passado recente (umas vezes próximo e noutras mais alargado nas intenções) de concordância com este flagelo dos membros da Igreja. Se isso colheu alguma concordância e admiração das entidades seculares, no seio da Igreja foram surgindo engulhos – sobretudo na abrangência ao questionar o sigilo de confissão – quanto à utilidade, à serenidade e à razoabilidade – de tais medidas. Qual a fronteira entre o conhecer tais casos em função do sacramento da confissão e à exigência de reportar o que se sabe às autoridades judiciais do mundo?

6. Desgraçadamente temos visto uma leitura excessivamente social da função da Igreja católica no mundo. Certas forças (de dentro e de fora) quedam-se mais pelo trabalho horizontal da Igreja e como que se esquecem da função evangelizadora – da Palavra e da missão – em que a Igreja foi investida por Jesus. Não teremos, em breve, de pedir perdão a Deus e aos outros por nos andarmos a esquecer desta tarefa específica?



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