Espaço do Diário do Minho

Teatro de Operações

6 Ago 2022
Mário Peixoto

A expressão está já, pelos piores motivos, enraizada no nosso quotidiano e léxico.

Designa o local onde se desenrolam operações táticas e as atividades logísticas correspondentes de um evento militar, numa curiosa adaptação e ilustração do termo teatro, derivação do grego theatrón, e que significa “lugar para contemplar”.

Vem a propósito esta expressão para ilustrar aquilo a que assistimos, quase diariamente e com grande preocupação, no Serviço Nacional de Saúde (SNS) e mais recentemente ilustradas pelos encerramentos de urgências de Ginecologia e Obstetrícia, Cirurgia Geral, Medicina Interna, Ortopedia e Pediatria, entre outras.

Um cenário que, previsivelmente, se agudizará neste período, habitualmente alocado a férias, como fogo que alastra sem controlo.

Acrescem os inúmeros pedidos de demissões e escusa de profissionais de saúde, várias centenas, desde médicos a enfermeiros que clamam por melhores e mais justas condições assistenciais aos seus doentes.

O alerta é agora nacional. Mas o problema não é novo nem tão pouco circunstancial ou localizado e muito menos causado apenas pelas férias.

É fogo que arde, e vê-se bem!

Temos, em Portugal, um rácio de médico por habitante na parte superior da tabela europeia.

Mas a saída de profissionais de saúde do SNS é cada vez mais expressiva.

Estes profissionais transitam para o sector privado por melhores condições? Provavelmente sim, mas também já eram aí mais bem remunerados no passado e esta “sangria” não era tão evidente.

Assim sendo, porque será? Que medidas, estruturais, foram efectivamente implementadas? A resposta é óbvia: nenhumas.

Continua activa a frente política de acentuado desinvestimento no SNS e dos seus profissionais.

Uma política altamente ineficaz na capacidade de atrair e fixar jovens especialistas nos locais onde são necessários.

Voltamos a ter indicadores de saúde com os quais já não lidávamos há mais de três décadas. Mas o motivo para alarme, grande, deve-se ao facto de uma vez mais não ser pontual, mas sim uma tendência com alguns anos.

Um sinal claro de desnorte, de descontrolo, que necessita urgentemente de novas formas de gestão, mais adequadas aos tempos modernos, nomeadamente ao nível da autonomia, da flexibilidade da gestão e da contratação pública, que visem devolver ao SNS as capacidades necessárias para cumprir os objetivos para o qual foi criado.

Por ora, o “fogo” continua a consumir o Serviço Nacional de Saúde num cenário dantesco com um teatro de operações sem controlo.

Quem será o pirómano?

PS: O autor opta por escrever segundo o acordo ortográfico precedente.



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