Espaço do Diário do Minho

Não Quero Ficar à Janela a Ver a Vida a Passar

5 Ago 2022
Maria Helena Paes

Há alguns dias, enquanto aguardava a entrega de um documento, ouvi esta frase: “Não quero, se tiver saúde, ficar à janela, a ver a vida a passar. Quero sim, estar na rua e ter uma parte ativa”. Olhei para a pessoa que tinha pronunciado esta frase. Já possuía uma idade avançada. Falava com um casal de idosos. Acrescentou ainda: “Todos os dias saio de casa para desenvolver diversas atividades: “Faço ginástica, voluntariado, vou às compras, ajudo os netos, saio com as minhas amigas…”, ficar em casa é que não, referia, uma vez que, quanto menos se sai, menos vontade temos de o fazer. Prova disso, foi o tempo de confinamento durante a pandemia. Tive alguma dificuldade em retomar a vida normal. Também surgiram problemas de saúde. Sim, não podemos ficar à janela a ver a vida a passar! Entretanto, chegou a minha vez: fui atendida e deixei o espaço. Mas esta frase permaneceu no meu pensamento dando origem a esta pequena reflexão.

Dirigia-me agora, apressadamente, para o local onde fazia algum voluntariado. Era num Centro de Dia para Idosos, tão necessário para fazer face a muitas situações de isolamento, de alguma fragilidade, de saúde, entre outros. Esta atividade, tinha o condão de me fazer sentir útil e ativa. Os idosos estavam felizes, colaboravam na atividade, encontravam-se acompanhados, acarinhados, usufruíam da alimentação e de um convívio saudável em segurança. Pela minha mente surgiu uma frase de S. Josemaria Escrivá em Amigos de Deus: “Convencei-vos de que não se torna difícil converter o trabalho num diálogo de oração… Assim, nós, no meio do trabalho quotidiano, conquistamos o modo de ser das almas contemplativas, porque nos invade a certeza de que Deus nos olha, sempre nos pede uma nova e pequena vitória: um pequeno sacrifício, um sorriso à pessoa importuna, começar pela tarefa menos agradável e mais urgente, ter cuidado com os pormenores de ordem, ser perseverante no dever quando era tão fácil abandoná-lo, não deixar para amanhã o que podemos fazer hoje…” Enquanto permaneci no Centro de Dia, várias vezes olhei pela janela para o jardim repleto de árvores frondosas e de flores. Depois olhei para os utentes chamando a atenção para o belo dia de verão que vivenciávamos. Senti que estavam atentos às minhas palavras. Aproveitei para falar da Jornada Mundial da Juventude que se aproximava. Teria lugar em Lisboa, no mês de Agosto de 2023. Em princípio, se tudo correr bem, participarão cerca de 2 milhões de jovens oriundos de diferentes países, e com a presença do Papa. Ficaram muito interessados a pensar na logística, comentando onde iriam ficar alojados tantos jovens… Sugeri que acompanhássemos os preparativos com a oração.

Devemos fomentar as relações entre as gerações e usufruir de todo o conhecimento dos mais idosos, da sua sabedoria, da sua experiência, da sua história de vida. Isto trouxe-me ao pensamento a minha neta que já deve conhecer todas as minhas histórias de vida. Contudo, ao deitar-se, pede-me sempre: “Vovó, conta-me uma história que tenhas vivido”. Certamente, devo repetir algumas dessas histórias, mas diz-me que não tem importância! Enfim, hoje em dia existe uma maior disponibilidade para contar histórias e a minha neta para as ouvir. Em certas ocasiões, ao transmitir-lhe ou ao fazer algum programa na sua companhia, vem-me ao pensamento, que já tinha vivenciado uma situação semelhante, na companhia da minha avó. E assim, vão-se perpetuando as as tradições familiares. Também colmatando, se possível, alguma lacuna ou falta de tempo dos seus progenitores.

A vida hoje em dia é muito exigente e difícil. As casas são pequenas, os ordenados também, entre toda uma panóplia de situações que muitas vezes são os avós as ajudam a colmatar, sabe Deus com que dificuldade, mas felizes por se sentirem úteis e poderem ajudar os filhos e os netos a levar a vida em frente. Com alguma frequência os casais jovens sentem-se perdidos quando não encontram uma mão familiar que os alivie de alguma carga de trabalho mais pesada.

Envelhecer é uma dádiva, o problema está em como encaramos o processo de envelhecimento que deve ser considerado como um prémio e não como um problema. Ser ativo com o apoio, possuir a possibilidade de uma aprendizagem contínua e a convivência entre as gerações. O envelhecimento bem-sucedido acontece quando as pessoas se empenham na busca de objetivos flexíveis e os adaptam às suas capacidades de acordo com as mudanças que ocorrem devido à idade. Torna-se necessário preparar esta fase da vida, com alguns planos, ocupações e aproveitando as oportunidades que possam surgir. A experiência adquirida, bem como as aptidões, podem vir a ser muito úteis em atividades menos absorventes. Concluo este artigo denominado: “Não quero ficar à janela a ver a vida a passar”, confiante na promoção do envelhecimento ativo e da solidariedade entre gerações. Santa Maria, Rainha da Família, intercedei por todos nós.



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