Espaço do Diário do Minho

“Para a maior glória de Deus”

1 Ago 2022
P. João Alberto Correia

Porque o dia 31 de julho ocorreu, neste ano, a um domingo, perdeu expressão a Memória Litúrgica de Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus (Jesuítas). Este facto e a grandeza do santo em questão são motivos mais que suficientes para que lhe dediquemos a crónica de hoje.

Iñigo López de Oñaz y Loyola nasceu a 23 de outubro (outros apontam a data de 31 de maio) de 1491, na localidade de Loyola (atual município de Azpeitia), a cerca de vinte quilómetros a sudoeste de San Sebastián, no País Basco. Era o mais novo de treze irmãos e muito cedo ficou órfão de pai e de mãe. Enveredou pela vida cortesã e militar até ter ficado ferido na batalha de Pamplona, a 20 de maio de 1521. Refugiou-se, então, no castelo da família e passou largo tempo em recuperação. Durante esse tempo, entregou-se à leitura da Vita Christi, de Rodolfo da Saxónia; e da Legenda Aurea, sobre a vida dos santos, do monge cisterciense Jacopo de Varazze. Foi a leitura destes livros que acendeu nele o desejo de se dedicar inteiramente a Deus e entregar-se à conversão dos infiéis, na Terra Santa.

Depois de ter passado por Montserrat, perto de Barcelona, fixou residência no mosteiro dominicano de Manresa, durante um ano. Foi aí que escreveu os Exercícios Espirituais, de grande importância no processo da evangelização. Depois disso, foi em peregrinação à Terra Santa. Quando regressou, frequentou as universidades de Alcalá, Salamanca e Paris, onde aprofundou os seus conhecimentos. Foi na última que estudou durante sete anos e, sob a orientação de Diogo de Gouveia, ampliou a sua formação literária e teológica. Em 1534, tornou-se mestre em artes e tinha já seis seguidores: Pedro Fabro, o único sacerdote do grupo; Francisco Xavier, Alfonso Salmeron, Diego Laínez e Nicolau Bobedilla, espanhóis; e ainda Simão Rodrigues, português.

Em conjunto, fundaram a Companhia de Jesus, a 15 de agosto de 1534, na capela cripta de Saint-Denis, na Igreja de Santa Maria, em Montmartre. A ordem religiosa então fundada veio a ser confirmada por Paulo III, em 1540, e tinha como principais finalidades a missão e a educação, lutando contra a expansão do protestantismo na Europa, por meio do ensino e da promoção da fé católica. Entre os seus princípios conta-se a auto-abnegação, a obediência ao Papa e aos superiores hierárquicos (perinde ac cadáver, “disciplinado como um cadáver”, nas palavras do próprio Inácio), assim como tudo fazer Ad Maiorem Dei Gloriam (“para a maior glória de Deus”).

Em quase todos os sítios por onde passou, por causa das suas ideias avançadas para a época, Inácio de Loyola teve problemas com a Inquisição e chegou mesmo a estar preso. Verificados os seus escritos, sempre se concluía estarem de acordo com a doutrina cristã.

Quando se fixou em Roma, dedicou-se à catequese de crianças, fundou a Casa de Santa Marta, para acolher prostitutas, e outra instituição, para acolher donzelas pobres; dava assistência aos órfãos e trabalhava para a conversão dos judeus da Cidade Eterna. Em 1551, criou o Colégio Romano, de ensino gratuito. O pontificado do Papa Paulo IV, desfavorável a Inácio, fez com que a Ordem tivesse que passar por muitas privações para sustentar o referido Colégio. Foi o Papa Gregório XIII quem, 25 anos após a morte do fundador, deu sustentação económica a este projeto e é por isso que passou a chamar-se Universidade Gregoriana.

Inácio de Loyola morreu em Roma, a 31 de julho de 1556 (com 64 ou 65 anos de idade). Foi beatificado pelo Papa Paulo V, a 27 de julho de 1609, e canonizado pelo Papa Gregório XV, a 12 de março de 1622. Foi este último que, na bula de canonização, afirmou: “Tinha uma alma maior que o mundo”.

Dos seus muitos ensinamentos, destacamos apenas algumas frases proverbiais: “A humildade consiste em alegrar-se com tudo o que nos leva a reconhecer o nosso nada”; “Nada pior do que a memória do gesto não realizado”; “Não é o muito saber que sacia e satisfaz a alma, mas o sentir e saborear intensamente as coisas”; “Muita sabedoria unida a uma santidade moderada é preferível a muita santidade com pouca sabedoria”.

A grandeza de Inácio de Loyola salta à vista: a sua vida, os seus escritos e a Companhia de Jesus, por ele fundada. É tal a história e grandeza desta Ordem Religiosa que todos a reconhecem como uma das âncoras da Igreja e uma referência inquestionável de saber e de santidade.



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