Espaço do Diário do Minho

A crise docente

20 Jul 2022
M. Moura Pacheco

VI – A formação.

Sem formação adequada nunca haverá professores competentes – por mais apelativa que seja a vocação para a função, de que já aqui falamos em crónica anterior. Se é verdade que essa vocação é condição sine qua non para assumir a carreira, não é menos verdade que assumi-la sem formação é neutralizar a vocação. Resumindo: vocação e formação são não só complementares como vivificadoras uma da outra – à falta de uma, a outra estiola.

Quando falo de «formação adequada» não falo SÓ da formação científica de base do candidato a professor. Esta é condição fundamental e essencial de partida. Já se tem afirmado (e escrito) que ao professor basta saber bem a matéria do programa a ensinar. (Aliás, era essa a filosofia da existência das chamadas «regentes escolares» de triste memória). Nada mais errado. Da matéria da sua especialidade, o professor tem que saber muito mais do que o programa que ensina. Um professor de Física, por exemplo, não tem que saber apenas o «programinha» a ministrar aos alunos de determinado ano. Tem que ´, pura e simplesmente, saber Física «tout court», dominar a matéria. Porque só assim poderá ter a visão integradora do seu programa na iniciação àquela ciência, como só assim estará preparado para resolver dúvidas e problemas que sempre surgem e extravasam o programa. E mais ainda e mais importante: só assim estará preparado para «ensinar a estudar Física» e a fomentar o gosto pela matéria.

Quando falo de «formação adequada» falo TAMBÉM de formação pedagógica e didáctica. Falo do conhecimento de técnicas educativas e de apresentação e transmissão de saberes. E de um pouco de conhecimento de Psicologia do adolescente (que, aliás, deveria integrar a formação pedagógica), não para fazer de cada professor um psicólogo (como alguns professores se arrogam) mas para lhes permitir estabelecer diálogo profícuo com psicólogos, nomeadamente com psicólogos do Desenvolvimento e, assim, perceberem melhor certos fenómenos gerais e/ou específicos da adolescência e da juventude.

Finalmente, quando falo de «formação adequada», falo AINDA de formação prática. Da formação que se adquire aplicando, no dia-a-dia escolar a formação teórica (científica, pedagógica e didáctica), sempre apoiada e segundo a vocação de cada um. É praticando o entrosamento destas três formas de formação, sempre apoiadas numa inequívoca vocação, que elas se inter-penetram e se inter-potenciam. É sempre praticando o ensino que se aprende a ensinar cada vez melhor.

Ora a junção, ou melhor, a fusão destas três formas de formação (duas teóricas e uma prática) só se consegue exercitando-se no ensino. «Docendo discitur» – diziam os antigos. A ensinar se aprende. Primeiro num bem orientado estágio e depois e sempre até ao fim da carreira, praticando mais e mais. E mais e mais aprendendo.

Uma carreira difícil a de professor, como se vê. Que exige vocação, formação e abnegação. Por isso, para ser atractiva, deverá em primeiro lugar, ser bem remunerada. Em segundo, garantir estabilidade de carreira e de colocação. E em terceiro tornar a ser (como já foi) uma profissão socialmente prestigiada.

No que diz respeito a este terceiro ponto, as responsabilidades dividem-se: metade ao Estado, metade à classe profissional. Ao Estado que, de há muito, vem proletarizando e desprestigiando a função docente, a despeito das suas constantes e hipócritas declarações de amor e respeito. À classe, pelas suas atitudes e comportamentos públicos e/ou individuais: a maneira como reivindicam, como agem, como falam, como se apresentam e até a maneira como se vestem, prestigiam ou desprestigiam socialmente os professores. Que, por vezes e amargamente, se queixam do prestígio perdido.

Nota: por decisão do autor, o presente texto não obedece ao impropriamente chamado acordo ortográfico.



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