Espaço do Diário do Minho

A queda anunciada

14 Jul 2022
António Lima Martins

Eis senão quando dos aplausos passamos às vaias. O SNS caiu com estrondo! A ideia recente e fabricada de robustez perpassada no período pandémico, esboroou-se. As fissuras abertas de uma política cega e ideológica fizeram ruir uma visão caduca de deixar andar, escondida por uma resposta recente que canalizou recursos para um vírus, mas ignorou tudo o mais, corroendo e fazendo descalçar as fundações do mal que vinha sendo implantado e que sobreviveu à custa do abandono de muitas das suas funções. Foram os adiamentos, consultas à distância, a falta de médicos de família (prometidos para todos e que se esvaiu), consultas em atraso ou falta delas, desprezo pela oncologia e de quem não pode esperar, o acumular de esperas, o número de mortes (também ao nível infantil), cuja história ainda está por explicar, a ineficácia dos centros de saúde no rastreio primário. Os anos de covid serviram de máscara para as consequências que se adivinhavam do desmantelamento do que segurava o SNS. Não bastam já as desculpas de sempre e costumeiras dos grandes afluxos, dos picos ou cartilhas de mais médicos, mais dinheiro, mais recursos. É crónico! Nos agora dizeres, sem pejo, de um primeiro ministro que ensaia amiúde malabarismos e piruetas políticas, é estrutural. Como tivesse chegado hoje ao governo, como se a política de saúde errada em 7 anos não fosse, essa sim, estrutural. Não é, tornou-se, por opções surdas, aliadas à habitual falta de previsão, de antecipação do governo sempre a navegar à costa, sem rasgo. Os slogans da defesa intransigente do SNS definham, perdem-se na espuma da realidade dos dias. É assim que vemos em parangonas o colapsar dos hospitais, um deles referência para todo o Minho, o de Braga. É a obstetrícia e ginecologia aos soluços, é a cirurgia pediátrica e tantas outras falhas em catadupa, não resolúveis à base de paliativos. Importa uma revolução estratégica, organização, accão, responsabilização que o PS não logrou conseguir. A ministra ou aceita que o seu olhar sobre a sua pasta falhou e sai ou altera o seu posicionamento e só lhe resta sair. Teme-se que Temido, na teia de dificuldades, tente emergir em cedências sindicais não pensadas e más conselheiras em tempos de aflição. Esteve bem Ricardo Rio, no Congresso do PSD, a alertar para o colapso do SNS; esteve bem no mesmo sentido a Comissão Política de Braga do PSD através do seu Presidente, João Granja, falando ainda do impacto nas pessoas de menores recursos; esteve bem o deputado Firmino Marques a questionar a ministra da saúde sobre as dificuldades daquela unidade de saúde e apresentar uma moção na assembleia de freguesia de S. Victor sobre o assunto, curiosamente com os votos contra da esquerda! É esta a primeira linha de combate a uma política de saúde “blá, blá, blá” que ora chora gritando por ajuda, ora sorri onde nada há para sorrir, ora pontapeia todos os que põem o dedo na ferida. Já o PS Braga nada que se perceba, sendo notícia alguns socialistas preocupados com o eclipse dos serviços a criticar a sua estrutura local. Instalou-se o caos e o chefe do governo passeia-se com sorrisos pela Europa, sentindo-se como peixe na água, talvez olhando para o seu futuro desligado das comezinhas tarefas de governar. Uma ministra arrancada à pressa das férias, de conversa fácil sem conteúdo, obrigada por aqueloutro a dar o corpo às balas, sem soluções tal o emaranhado em que a sua política a envolveu e vai segurando as pontas com comissões, papéis e medidas ao ar a ver se o Verão passa. E um Presidente da República preocupado em visitar antigos homólogos no Brasil; um Chefe de Estado centrado em selfies e a banhos, agora nas praias quentes de Copacabana em estilo veraneante. Junta-se bem ao último candidato do PS à Câmara de Braga que lá foi atirando umas generalidades e nas redes sociais prefere mais as críticas a piscinas, seguramente mais importante com esta canícula que por aqui vai; deve ser mais refrescante do que a saúde dos bracarenses. Ao PS de Braga cola-se bem a sigla reinventada do SNS, Somos Nós Socialistas! São assim mesmo e é melhor mesmo ir a banhos e pedir que não precisemos de ir a um hospital.



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