Espaço do Diário do Minho

A minha escola é melhor do que a tua!

10 Jul 2022
Paulo Sousa

Talvez para as leitoras e os leitores, comparar seja um verbo inteligente, daqueles que satisfazem o eco e enobrecem as escolhas que fazemos, mas, vendo bem, quando comparamos o incomparável, torna-se claro que por detrás dessa alegada satisfação, está uma incompreensível injustiça na avaliação que fazemos sobre as qualidades de ensino dos(as) nossos(as) filhos(as). Mesmo assim, ano após ano, há uma tendência crescente para valorar o resultado da escola, como se isso bastasse, para enaltecer estatisticamente o resultado do trabalho de milhares de professores e o progresso de cada aluno(a) ao longo do ano. Nada mais errado, se percebermos como é difícil educar e como uma enorme quantidade de variáveis, externas ao ensino, influenciam negativa ou positivamente o resultado do trabalho de um ano.

De todas as leituras feitas em diferentes órgãos de comunicação social, há um título que me satisfaz por fugir à lógica das notas e destacar um importante fator de coesão social: “Braga é o distrito onde a diferença entre os alunos mais pobres e os outros é menor”, uma satisfação mesmo assim perigosa, porque os próprios critérios utilizados para essa análise, são desconhecidos ou mal explicados. Como em todas as áreas, há, por vezes, uma tendência para minimizarmos os efeitos superlativos das políticas de Educação, para nos dedicarmos a um número, o tal que nos classifica e nos qualifica. Tem sido assim, pese embora muitos, como o próprio atual ministro da tutela, esteja contra. O que vai ele fazer? – Não sei. Nesta altura só me consigo lembrar das lições do filósofo Michael J. Sandel no seu livro “A Tirania do Mérito”, para lembrar a todas e a todos que há uma ilusão perigosa quando falamos de notas: nem tudo o que reluz é ouro e nem todos os resultados são o que parecem. A educação é um processo longo, de assimilação lenta para ser consistente e não pode estar dependente de estatísticas para se afirmar como pilar essencial de uma sociedade. Sendo um bem comum, não é divisível, deve ser avaliado no seu todo, mas sem discriminar o enorme esforço que todos os dias é feito. Se tivéssemos de fazer escolhas que seja perante factos que demonstrem a incompetência ou a incongruência, mas nunca pelos resultados que, sabemos, dependem de inúmeros fatores, a começar pela educação lá em casa. Há um capítulo no livro supracitado sobre o qual vale apena refletir. O autor chamou-lhe “Democracia e Humildade”. Começa por lembrar que “há pouca igualdade de condições”, dando como exemplo, o facto de “os lugares públicos onde pessoas de todas as classes, raças, etnias e crenças religiosas possam juntar-se são escassos” e vai mais longe quando nos lembra que “os ricos e os de meios modestos raramente se encontram no decurso de um dia: vivemos, trabalhamos, consumimos e brincamos em lugares diferentes; as nossas crianças frequentam escolas diferentes. E quando a máquina de seleção meritocrática faz o seu trabalho, aqueles que chegam ao topo têm dificuldade em resistir à ideia de que merecem o seu sucesso e que aqueles que estão no fundo merecem igualmente ocupar essa posição”. Percebem, agora, como de forma simples, se põe o dedo na ferida que tem uma extensão suficientemente longa para ser vista como uma questão de somenos. Não resisto em continuar a citar Sandel quando nos recorda a história do mérito: “começou como a ideia empoderadora de que, através do trabalho e da fé, podemos influenciar a graça de Deus a nosso favor”, uma referência à estimulação da liberdade individual e o destino que passa a estar nas nossas mãos. Este raciocínio, explica-nos, põe em causa o conceito de bem comum que se pode dividir entre o consumista e a ação cívica. Não podendo aqui citar o seu raciocínio por inteiro, escolhi para finalizar esta mensagem do filósofo: “a crença meritocrática de que as pessoas merecem todas as riquezas que o mercado lhes possa outorgar em razão das suas capacidades torna a solidariedade uma proposta quase impossível”. Ora, no mundo em que vivemos, construir uma sociedade viável para todos, dispensa esta ditadura do mérito em torno da escola. Por mim, essa estatística publicada é, por si só, o espelho de uma doença que urge debelar e nada melhor que acabar com o espetáculo degradante a que estamos sujeitos com a “minha escola é melhor do que a tua”.



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