Espaço do Diário do Minho

PORQUE ENFRAQUECEM AS DEMOCRACIAS

6 Jul 2022
DINIS SALGADO

Caminhamos para as comemorações das bodas de ouro da nossa Democracia que acontecem a 25 de Abril de 2024; e quando esta data devia ser para todos nós motivo de intenso e salutar orgulho, na verdade o ideal que inspirou o 25 de Abril de 1974 nunca se cumpriu na sua totalidade ou tem sofrido constantes desvios e adulterações.

Por isso, para que ainda seja possível recuperá-lo e dar-lhe plena efetivação, tempo vai sendo de enterrarmos os desvios sofridos e ressuscitarmos os objetivos renegados; e isto para que não tenhamos de abrir portas aos fantasmas dos extremismos, populismos e totalitarismos que já encapotados espreitam sofregamente.

Mas, então, porque enfraquecem as democracias a ponto de se extinguirem, dando lugar aos sistemas ditatoriais e autocráticos? Por vários e resilientes fatores que originam o descrédito, o desinteresse e o virar costas à política e aos seus agentes, primeiros responsáveis pela sua defesa, eficácia, exercitação e musculação.

Pois bem, quando pensamos na pandemia Covid-19 que nos vai atingindo, ela responsável tem sido por restringir, controlar e limitar muita da nossa liberdade, através dos confinamentos, distanciamentos sociais e uso de máscaras; e, obviamente, esta prática obrigacionista levou à perda, igualmente, da solidariedade global e dos direitos económicos e sociais o que, à partida, pode ser pretexto para consolidar o poder, suprimir aa vozes dissonantes e contratantes e evitar o uso da liberdade de pensamento e sua pública expressão.

Assim, embora não pareça, a pandemia foi um evidente fator de enfraquecimento da nossa vida democrática e sonegação do seu efetivo exercitamento, embora facilmente ultrapassados e esquecidos; e porque não partiram da vontade dos homens que nos governam, nem dos que espreitam os palcos do poder, os reflexos diretos da Covid-19 fizeram-se sentir mais na vida privada e profissional, não atingindo, como noutros países, a dimensão contestatária nas ruas contra as medidas sanitárias impostas por decretos governamentais.

Agora, deixando para trás esta preocupação e provocação pandémica, vejamos as verdadeiras causas responsáveis pelo enfraquecimento e, até, pela ameaça de possível extinção da nossa vida democrática; e que, sub-repticiamente, se instalam em certos gabinetes governativos e instituições político-partidárias, seja pela má governação, seja pela demagogia que exercitam.

Concretamente a corrupção, o compadrio, o arranjismo, as fugas ao fisco, o branqueamento de capitais, a opacidade, falta de rigor e transparência que se têm instalado na nossa sociedade fazem com que a abstenção às umas, a falta de participação. o alheamento e a desmotivação, e a que se juntam a fome e a miséria reinantes, afastam o povo da vida democrática; e, mormente, o mau funcionamento do sistema judicial e da imprensa falada e escrita, quando entram em estado crítico, levam a democracia a situações de abandono, fragilidade e a óbvios empurrões para a sua extinção.

E é, então, que os movimentos de extrema-esquerda e extrema-direita, populistas e autoritários espreitam com avidez esta degenerescência da democracia para avançarem e tentarem impor os seus propósitos e programas de ordem, disciplina, rigor e justicialismo como já acontecendo vai, um pouco, pela Europa e, igualmente, no nosso país; e, assim, surge a hora dos autocratas, dos demagogos, dos populistas, dos ditadores avançarem e se locupletarem à mesa das fragilidades, facilitismos, incapacidades e debilidades da vida democrática para anunciarem e imporem, placidamente, os seus propósitos e ideias.

Ora, sabemos que os ideais e valores do 25 de Abril – liberdade, igualdade e fraternidade – não têm sido cumpridos na sua objetividade e verdade; e, sobretudo, permitido têm a promiscuidade, a injustiça, a demagogia, a corrupção e a coexistência problemática dos muitos, muito ricos versus os muitos, muito pobres.

E outra coisa não seria de esperar, pois, quando, numa visita à Suécia, o capitão de Abril, Otelo Saraiva de Carvalho, à pergunta de Olof Palme sobre qual o objetivo da revolução que comandava terá respondido que era acabar com os ricos, teve como resposta do político sueco: – Ah! Curioso que nós, aqui, queremos é acabar com os pobres!

Claro, que Otelo Saraiva de Carvalho, imbuído da ideologia marxista-leninista, não via mais nada do que tirar aos ricos para dar aos pobres e, assim, fazer do país uma república das bananas; e que, ao fim-e-ao-cabo, foi essa a semente que germinou na mente do povo que não pensava com a cabeça, mas com os pés e esteve na mó de cima, dando aso a que o ideário de Abril nunca se tenha, total e efetivamente, concretizado.

Então, até de hoje a oito.



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