Espaço do Diário do Minho

Questões de honorabilidade

4 Jul 2022
António Sílvio Couto

Numa discussão de rua podemos registar duas filhas e duas mães, dirimindo contendas do foro familiar, social e até pessoal. Dizia uma mãe à filha: chama-lhe (um impropério não reproduzível aqui), antes que te chame… algo que possa ofender a tua honra ou honorabilidade. Embora umas e outras estivessem no mesmo patamar moral/ético, quanto ao passado e mesmo em relação ao presente, quem ofendesse primeiro tomava a dianteira de acusar com quem se dirimia…

Entre muitos ‘casos’ que podiam aqui ser elencados, colocamos os acontecimentos mais recentes por ocasião da morte de uma criança, em Setúbal, como um desses nós de marginalidade e um possível elo de uma cadeia menos visível aos olhos mais incautos ou distraídos.

1. Muito para além do caso da criança que morreu – talvez se deva considerar que foi morta – pelas mais diversas razões, não deixou de ser inquietante ver, observar e analisar as reações: muitos/as do que reagiram de forma desabrida, onde andavam quando a criança estava viva e sofria de menos bons tratos? Não terão negligenciado as condições para agora virem contestar as consequências? Todo o aparato – gritaria, ofensas e barulho – será o arrebato da consciência acordada pelos efeitos de tantos silêncios cúmplices e quase-acobardados? Até onde irá esta onda de reação e não de prevenção, em tantos casos idênticos e não-declarados?

2. A comunicação social encarregou-se de desenterrar outros casos mais ou menos recentes e onde podemos constatar que ainda não aprendemos nada com os sucessivos momentos trágicos que têm envolvido crianças. Parece haver um país subterrâneo que emerge de vez-em-quando para nos recordar que há crianças em perigo – muitas mais do que seria desejável – de segurança, sem laços de afeto e, sobretudo, que se continua a reproduzir uma pobreza que é mais moral do que económica… mais humana do que de condições da habitabilidade… mais entendível na perspetiva da relação com o divino do que na harmonização social ou cultural! Com efeito, quando Deus é colocado fora da educação de tantas pessoas, que se poderá esperar, agora e num futuro próximo?

3. A fazer fé naquilo que foi noticiado, as causas que levaram à morte daquela criança, em Setúbal – entre um ato de bruxaria (com um valor referido de quatrocentos euros) e a possível vingação, passando pela negligência familiar e dos serviços estatais – estamos perante um quadro humano, cultural e ‘religioso’ de alguma complexidade, pois corremos o risco de misturar vários vetores, onde a ignorância pontifica e deixa pouco (ou nenhum) espaço para reformular as causas, remediar as consequências e modificar a curto-prazo o que podia ser diferente e preventivo para o futuro.

4. Nesta como em tantas outras situações podemos ver a fragilidade dos laços familiares, onde as crianças e os mais velhos são os elos mais fracos da cadeia de relações humanas, tornando estes setores fulcrais da sociedade os elementos quase-descartáveis, silenciados e varridos da preocupação dos ainda ativos na condição de trabalho. Efetivamente os conceitos de produtividade entram na mentalidade dos nossos dias, excluindo os mais novos que estão fora dos mecanismos de rendimento e os mais velhos chutados para fora desse mesmo processo… uns e outros estão nas franjas daquilo que poderíamos considerar uma cultura materialista prática e acintosamente criadora de marginalidades…

5. Interpretando o título deste texto, deixo um breve elenco de algumas das caraterísticas da nossa sociedade: somos egoístas no pensar e no agir; vivemos como interesseiros assumidos ou presumidos; favorecemos mais a exclusão do que a inclusão; guetizámos muitas das franjas sociais; produzimos e reproduzimos marginais e marginalizados; lançamos sementes de promiscuidade que darão frutos de maior amoralidade; vendemos processos sociais centrados nas coisas materiais mais ou menos declaradas… Desenterremos Deus e Ele nos fará perceber o ridículo em que temos andado!



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