Espaço do Diário do Minho

É repugnante

4 Jul 2022
Paulo Fafe

Violentar sexualmente uma mulher é de castração; violar uma criança sexualmente é de animal; bater nos pais é pecado sem perdão; matar à pancada uma indefesa criança é de pena capital. E tudo acontece nos nossos dias com uma frequência e constância que dá para ter medo que o hábito se torne tolerável. A doutrina que prega o respeito pela vida é a doutrina da dignidade da existência humana. Verifica-se que, atualmente o mandamento “não matarás”, não chega às consciências das pessoas. Faltam aqui pregadores? Não, o que faltam é ouvintes. As igrejas, onde eram ensinados preceitos religiosos atinentes a princípios e atitudes de índole religiosa e eram igualmente ensinadas normas de conduta social, estão povoadas de velhos. A socialização para o bem é a escola de todos os princípios. O livre-arbítrio, que o personalismo criou, deixou de fora todas as normas morais e religiosas da vida. O positivismo cerrou a porta aos sentimentos. Cada indivíduo está agora sozinho perante a prova, a sua prova, está em si mesmo; é juiz dos seus atos e, como ninguém é bom juiz em causa própria, tudo lhe parece bem, desde que para ele esteja bem. Neste conceito consegue calar os problemas de consciência até ao grau da insensibilidade por terceiros. Por isso pode matar, violar, esfaquear, ou mesmo destratar os velhos, sem sentir culpa. Tornou-se isto um hábito ou estamos em presença de uma psicopatia socia? Uma sociedade sem moral é uma sociedade despida de moral. A moral social passa rapidamente do aplauso ao apupo. Não é guardiã de coisa alguma. As leis punem os desvios sociais, mas não punem as consciências. Deve-se agir por consciência e não por medo à punição; caso contrário o homem só não fará mal porque tem medo à lei e não porque tem medo à sua consciência, esse juiz austero que só se cala quando não tem razão para falar. Há um sentimento profundo de repúdio pelo que fizeram aquela menina Jéssica, recentemente assassinada. Outras já o foram igualmente assassinadas em circunstâncias repugnantes. Os seus “algozes” vão ser castigados pelas leis dos homens, mas terão sensibilidade para uma expiação? E esta expiação é o sinal de consciência e transforma-se em prisão perpétua; não necessita de grades nem guardiões, porque está presa no pensamento, a não ser que neles já nada reste de pessoa humana. E então a questão que se coloca é da formação da consciência. Não basta proibir, não chega castigar, não adiantam as leis e os tribunais, ou queimá-los no fogo social, se as consciências não forem os guardiões das atitudes. Quem se não guarda a si, não vale o custo da sentinela. E esse papel de formador de consciências ficou bem expresso no repúdio social , como vimos nas manifestações contra a mãe da desventurada menina. Se houve esta foz, é porque houve nascente. Ainda não há falta a nascente do nosso povo. Mas esta nascente está a faltar à nossa sociedade porque está velha. É belo o bolo do personalismo, individualismo, livre-arbítrio ou positivismo, mas falta e este bolo o açúcar para adocicar a convivência. Enganam-se aqueles que julgam que o privilégio do homem sobre tudo é um conceito humanista. É, isso sim, um conceito egoísta. Tanto se prega contra a solidão e, afinal, estamos a criar uma sociedade de homens sós, ensimesmados nos teclados da tecnologia. Se o homem “é um ser social” então ensine-o a ser um ser com os outros. Caso contrário estaremos a criar uma sociedade de indivíduos que não de pessoas.



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