Espaço do Diário do Minho

O dilema

3 Jul 2022
Paulo Sousa

A nossa história comum está cheia de factos que envergonham uns, enaltecem o orgulho de outros e são, mais das vezes, um prelúdio ao qual muitos são indiferentes. Sempre que ocorre uma mudança de regime, a tendência da maioria é abafar a memória, melhor dizendo, apagar os seus vestígios como se isso fosse possível, a partir da remoção de estátuas, de nomes de ruas, de documentos, ou de qualquer outro património herdado que identifique os protagonistas, os acontecimentos ou qualquer referência que possa ser usada para identificação dos nostálgicos. Em Portugal, seguindo a tendência de muitas outras democracias europeias, houve uma tendência para apagar o passado como se fosse possível usar uma borracha e limpar o caderno de má memória. Fazê-lo tem uma dupla leitura que merece uma avaliação com a devida distância a que a história obriga. Em primeiro lugar, apagar não significa esquecer e se para os saudosistas, isso pode ser considerado uma ofensa, para os democratas, significa alívio, mas não resolve o problema de fundo que está na origem do trabalho imperioso e necessário em Democracia: explicar quem foram, o que fizeram e porque foram endeusados em estátuas e recordados diariamente através da toponímia. Em segundo lugar, não é porque se extinguem os sinais da sua presença, que consolidamos as regras da vivência democrática. Pelo contrário, é explicando e mostrando, sobretudo, às novas gerações (filhos da Democracia), que consolidamos a importância da Liberdade e tudo o que ela significa para cada um de nós e para eles. Se me perguntarem, se apoio a destituição da estátua de Marechal Gomes da Costa, a minha resposta é um rotundo Não. Se me derem a oportunidade para fazer diferente, colocaria no local uma mensagem a explicar quem foi esse militar, o que fez, porque o fez e que consequências teve para o país. Esta questão é válida para a Toponímia. Tomemos como exemplo a avenida 31 de Janeiro, antiga Avenida Salazar. A substituição reflete o tempo em que aconteceu, mas no seu local, devia existir uma placa explicativa do género: antiga Avenida Salazar, ditador que governou o país de 1933 até 1968. E provavelmente a merecer mais alguns reparos factuais. Esta visão da forma como olhamos e tratamos a memória nada tem a ver com a perpetuação de referências à ditadura em muitas ruas de cidades e vilas que, simplesmente, não foram alteradas, mantendo um limbo entre a intenção e a convicção. Um trabalho do Jornal I, publicado esta semana, revelou o que pode ser visto como surpresa: “Em Portugal, ainda existem 22 municípios com arruamentos que homenageiam António de Oliveira Salazar, um dos quais, Santo Tirso, via Câmara, chumbou a proposta que foi feita para alterar o nome do antigo ditador, ainda que sem sucesso. A ideia era substituir o ditador pelo nome de Rosinda Teixeira, uma mulher, vítima de um atentado à bomba em1976. A lista divulgada, baseada numa consulta aos CTT, diz-nos que há ainda, em Portugal, ruas (15) com o nome do Marechal Gomes da Costa e oito com o nome de Marcelo Caetano. A questão que se coloca tem a ver com a noção de legitimidade democrática que impera em muitos concelhos. De um ponto de vista da tolerância, a decisão das autarquias revela ser uma exceção à regra, o que não deixa de merecer uma avaliação sobre a forma como os cidadãos e cidadãs, encaram o seu passado relativamente recente. Como já escrevi, homenagear a Democracia através do derruba de estátuas ou da atribuição não é solução se for acompanhada pela vontade de explicar, não de impor. Esperamos que, no âmbito do projeto de homenagem aos democratas e à Democracia, seja possível aos jovens trabalhar sobre a história recente do país a partir da toponímia. Creio que esta é uma forma saudável, credível e vitoriosa sobre os que têm dificuldade, ainda hoje, de conviver com o passado. Explicá-lo e não o esquecer, é bem melhor do que pensar, que basta o derrube das estátuas ou a substituição de nomes, para glorificar o novo regime, como se isso bastasse para consolidar a Democracia. Vivemos um tempo de emergência em que é preciso não esquecer 1926-1974 e celebrar, com todas as imperfeições, 1974-2022. A Democracia exige-o e as novas gerações merecem-no.



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