Espaço do Diário do Minho

Momento de reflexão: questões de memória

3 Jul 2022
Armindo Oliveira

A vida tem os seus ritmos e os seus tempos. Os seus encantos e desencantos. As suas virtualidades e incompreensões. A vida, contudo, corre e passa. Depressa demais. Inexorável. Ficam as vivências, as experiências e as memórias que, naqueles momentos de mais silêncio, reaparecem para nos embalar nas suaves ilusões de uma caminhada encetada, às vezes, sem destino. Mas, sempre trilhada por veredas que foram construídas paulatinamente. No fim, tudo se guarda no “bloco das memórias”, ali arrumadas naquele cantinho mágico, sempre desperto, que nos permite voltar a viver e a reviver os tempos do passado. Recordações, aquelas que nos enchem saudosamente a alma e nos alimenta o espírito. E ali ficam e nos acompanham como uma sombra benigna.

Tudo, portanto, é uma questão de memórias. Ficam vivas, boas e menos boas, para se voltar a caminhar, com nostalgia, esses tempos e para se aprender, fundamentalmente, alguma coisa com esse passado que é de cada um. Muito de cada um. Singular. Mesmo único. O passado tem esta virtude: dá-nos boas lições de história. Boas lições de vida. Pelo menos deveriam ser.

1 – Lições bem pedagógicas para aqueles, dos poderes, que teimam estar dentro do poder, porque só vêem poder. Há décadas. E de lá não querem sair. Estão “pedrados” até ao tutano. O próprio cheiro os envolve. Os amortalha. Os entontece. Não se apercebem, nem querem perceber que há um tempo para tudo. Para entrar e para sair. Para procurar no baú das recordações mais velhas, os farrapos da vida que querem esquecer. Sem conseguir. Também para fazer coisas. Para deixar os outros fazer. Agora com outra inovação. Com outro arrojo. Com outro futuro.

Também há as memórias dos erros cometidos. -“Errare humanum est” – expressão latina mil vezes repetida. Em jeito de desculpa. Para se fugir das responsabilidades. Outras lições, talvez as melhores lições, as mais sábias, que a vida nos dá. Para nos ajudar a arrepiar caminho. Para provocar desvios conscientes na conduta de cada um. Desvios desviados de destinos desatinados. Depois, importa reflectir. Para se agir. Para decidir. Com sensatez e inteligência.

2 – Vem isto a propósito: Não tenho memória de ver o meu país em estado tão deprimente e vulnerável. Não tenho memória de ver o SNS -Serviço Nacional de Saúde – com urgências enceradas por falta de recursos humanos (?). Não tenho memória de ver as Escolas Públicas, nesta altura do ano, sem professores a todas as disciplinas. Não tenho memória de conhecer os contornos majestáticos de uma dívida astronómica que querem fazê-la passar despercebida, fazer de conta que não existe, esquecê-la, mas que nos afoga os desejos e os sonhos. Não tenho memória de ver um governo a desperdiçar tantas oportunidades, boas oportunidades, para criar condições ímpares de desenvolvimento e de bem-estar social. Não tenho memória de ver tanta fantasia no meu país e tanta submissão da Comunicação Social, quando a obrigação de informar com isenção, independência e rigor seria um imperativo essencialmente ético e moral. Mas, também profissional. Não tenho memória de constatar com uma ideologia que tomou conta da sociedade em todas as suas facetas. Nos comportamentos. Nas ansiedades. Nas esperanças. Nos sonhos. Até na linguagem. Na opinião livre. Há medos de opinar. Uma evidência. Já existe o jogo das palavras, cheio de curvas e de eufemismos como noutros tempos, para não “ferir” susceptibilidades. Há muitos melindres sociais e cada vez mais sofisticados que coarctam a livre expressão. Medo até de dizer “homem e mulher” para se dizer banalidades. Uma tristeza!

3 – Os sinais de degradação económica e social estão em alta. E em declive. Os motivos são óbvios e gritantes. Indesculpáveis. Uma barbaridade. Divida total a subir. Taxas de juro a atingir zona proibitiva. Crescimento económico preocupante. Serviços públicos em exaustão ou em ruptura. Salários tipicamente do terceiro-mundo. Défices fora da linha. E outros mais. Agora chegou mais um: o cepticismo. Este à Costa! O que se inventa para se justificar os falhanços!

É ponto assente: Já não há ninguém com capacidade suficiente pode esconder ou remendar o estado aflitivo do país. Perdeu-se o norte. A agulha magnética pifou. E, como resultado, quem mais sofre com estes empanes são os mais vulneráveis. E são muitos. Demais para um país europeu. Incompreensível para um país fabuloso. A pobreza, uma vergonha que se agiganta. Parece mal no seio da União Europeia. Tantos pobres e tantas dificuldades. Desigualdades suficientes. E o pior é que já não se vislumbra aparecer mais um “Passos Coelho” – estadista coragem – para resolver este imbróglio socialista. Por isso, resta-nos esperar que quem fez a borrada que a limpe. E em tempo útil. E sem mazelas.



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