Espaço do Diário do Minho

Holodomer

3 Jul 2022
Cecília Rezende

Todos sabemos o que foi o HOLOCAUSTO. Historiadores, romancistas, cineastas não nos deixam esquecer o horror que foi o extermínio, de seis milhões de judeus, durante o período nazi, na Alemanha, iniciado nos anos trinta, até ao final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, nos vários campos de concentração de que Auschwitz é o mais falado. Não havia palavra que traduzisse o extermínio de um povo. Então, Rafael Lemkin, um judeu polaco, jurista, que foi conselheiro no Departamento de Guerra dos Estados Unidos, durante a Segunda Guerra Mundial, criou a palavra genocídio, formada pelo elemento grego genos, que significa raça, nação, e o elemento latino cida, que significa matar. Lemkin definiu genocídio como «um plano coordenado, com ações de vários tipos visando o extermínio de um povo». Foi exatamente o que idealizou Hitler para exterminar o povo judeu. Se todos sabem ou, pelo menos, ouviram falar do Holocausto, já o mesmo não acontece com HOLODOMOR, palavra que em ucraniano significa matar pela fome: holod(fome) e mor (morte). Esta atrocidade remonta às políticas económicas que Estaline utilizou quando assumiu o poder, em 1928. Uma das medidas foi a coletivização forçada das propriedades agrícolas, cuja administração passou a ser completamente racionalizada pelo estado soviético, estabelecendo metas de produção impossíveis de cumprir. Tudo passou a ser propriedade do Estado. A Ucrânia foi o país que mais se opôs a essas leis, o que obrigou Estaline a impor medidas ainda mais drásticas do que as que foram impostas noutras regiões. A rigidez era tão grande que os camponeses só conseguiam cumprir deixando de comer tudo o que os campos produziam, alimentando-se de ervas daninhas, especialmente urtigas secas. Até casos de canibalismo houve. Muitas dessas pessoas foram condenadas a trabalhos forçados por serem apanhados a comer uma batata ou uma espiga de milho, às escondidas. Qualquer roubo da mais pequena semente era punido com dez anos de trabalho forçado num gulag. Quem fosse apanhado guardando cereais em casa era deportado para os campos de concentração da Sibéria, ou executado no próprio local. Entre 1931 e 1933, segundo o historiador Thomas Woods, na sua obra A fome na Ucrânia-um dos maiores crimes do Estado foi esquecido, Instituto mises-Brasil, calcula-se que o número de mortos tenha sido de cinco milhões. No entanto, esse número poderá chegar aos 14 milhões, se se considerar aqueles que morreram nos campos de concentração da Sibéria, em consequência de se terem revoltado contra essas imposições. O Holodomer foi sempre negado pelo regime soviético, com a natural exceção das comunidades de exilados implantadas no estrangeiro, nomeadamente nos Estados Unidos e Canadá.

A independência da Ucrânia, em 1991, permitiu a escritores, artistas e cineastas a possibilidade de o invocar nas suas criações. Refiro apenas um filme que pode ser visto na Netflix: A Sombra de Stalin, que acompanha a história de um jornalista que viaja à União Soviética para retratar os efeitos terríveis do Holodomer. Tal como há os negacionistas do Holocausto, também os há relativamente ao Holodomer. A comunidade internacional tem vindo gradualmente a reconhecê-lo como genocídio, ou mais genericamente, como crime contra a Humanidade. Catorze países, entre os quais Portugal, já reconheceram oficialmente o HOLODOMER  como GENOCÍDIO.



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