Espaço do Diário do Minho

APANHADOS 28

29 Jun 2022
DINIS SALGADO

Nos meus tempos de estudante nesta bimilenar cidade de Braga, finais da década de 50 princípios da de 60, a esquina da Benamor era local de encontro da matulagem, mormente a horas de ponta, quando a cidade por aí desfilava, fosse a caminho do emprego, fosse de regresso a casa; e, então, daqui partíamos para a chamada voltinha dos tristes de seu habitual itinerário – rua do Souto, pastelaria Lusitana, jardim de Sta. Bárbara, rua dos Capelistas e Arcada; e este exercício pedestre repetia-se até à debandada do grupo de retorno a penates ou para cumprimento de alguma obrigação definida.

Era Braga, ao tempo, uma cidade caseira, provinciana e obreira que, assim, se levantava com o cocorocó dos galos e se recolhia com o cacaracá das galinhas; e, deste jeito, privada estava do intenso fervilhar diurno e da acelerada movida noturna que para além fosse de uma cavaqueira de amigos à luz de um qualquer candeeiro de esquina ou de umas iscas de fígado regadas a tintol no Dominó ou no Dragão, únicos bares que encerravam pouco depois da meia-noite.

E longe, muito longe, pois, vivíamos do cosmopolitismo de metrópoles como Lisboa e Porto: todavia, num ápice cá chegou o progresso que transformou a nossa cidade, conferindo-lhe um estatuto de modernidade, excelência, inclusão, desenvolvimento, crescimento e cultura que, hoje, usufruímos.

Pois bem, não eram na Braga provinciana habituais, por exemplo, as caminhadas e as corridas pedestres ou de bicicleta, quer fosse para encher de ar lavado os pulmões ou abater a pança e os incómodos pneus cinturais, quer fosse para combater os excessos de colesterol ou a hipertensão arterial; mas, assim, com as voltas e reviravoltas que a vida dá e os ventos de modernidade que sempre chegam, por obra e graça de líderes, chefes e governantes, a nossa cidade augusta e dos Arcebispos depressa entra para o rol das urbes evoluídas e equipadas dos indispensáveis meios de lazer, desporto e cultura.

Foi, aqui, que encaixou às mil maravilhas a denominada Ecovia do rio Este, atualmente da Ponte Pedrinha à Universidade do Minho alongada, intensamente procurada pelos bracarenses para exercitação do fisico e da mente; e, embora com limitações de espaço para ciclistas e peões a utilizarem em segurança, foi um bem assumido e aplaudido pelos amantes do uso dos dois pés e das duas rodas.

Ora, há tempos, avançou-se publicamente na imprensa diária local com o prolongamento desta Ecovia até Celeirós; e logo pensei que a intenção de o fazer, porque não era nenhuma promessa pré-eleitoral, mais tarde ou mais cedo iria acontecer; e, atendendo a que o futuro das cidades tem de ser cada vez mais verde, o prolongamento desta Ecovia será um apetecido e desejado bem para todos nós.

Agora, o seu planeamento e execução têm de ter em linha de conta a convivência pacífica e a segurança absoluta de peões e ciclistas, porque, de outro modo, os constrangimentos que atualmente acontecem entre os dois grupos de utilizadores são preocupantes; ainda, há dias, pude constatar um grupo de jovens ciclistas a utilizar a Ecovia, à balda e na galhofa, sem cuidarem minimamente da existência de peões no mesmo espaço, fosse pela velocidade, fosse pelo descuido que demonstravam.

Depois, dada a exiguidade do seu traçado, que, no mínimo, devia ter o dobro, só por milagre não acontecem acidentes graves e com maior frequência; e, uma vez que também frequentemente tenho observado que ciclistas e peões não gostam de caminhar em fila e privilegiam a conversa lado a lado, só a imposição de regras de conduta individuais e coletivas, definidas e fiscalizadas, e cuja transgressão severamente punida seja por quem de direito, podem garantir prazer e segurança no uso festejado deste equipamento ecológico, necessário e público.

E, se o português alérgico é, por natureza, a regras e seu rigoroso cumprimento, a utilização nesta Ecovia de placas avisadoras do perigo e da insegurança da sua má utilização pode funcionar como meio de dissuasão e agente pedagógico; por isso, aqui fica a achega e o firme propósito de que a boa educação tem sempre lugar, mormente quando exercida para o bem comum.

Então, até de hoje a oito.



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