Fotografia: DM

Dia do Cuidador em Famalicão alerta para sinais de maus-tratos a idosos

Encontro juntou cuidadores informais, psicólogos, advogados, profissionais de saúde e da área social na Casa do Território, no Parque da Devesa.

Jorge Oliveira
28 Jun 2022

O Estatuto do Cuidador Informal, as redes de suporte familiar e a violência contra pessoas idosas foram alguns dos temas que estiveram em análise num encontro hoje em Vila Nova de Famalicão com cuidadores informais, psicólogos, advogados, profissionais de saúde e da área social.

Organizada pelo Movimento Cuidar dos Cuidadores Informais, pelo Município de Famalicão e pela PSI ON – Associação para a Educação , Desenvolvimento e Intervenção nas Comunidades, a sessão do Dia do Cuidador, realizada na Casa do Teritório, no Parque da Devesa, teve como propósito a divulgação de informação útil sobre o cuidador e a pessoa cuidada, evidenciando os seus direitos, benefícios e medidas de apoio existentes. Tratou-se também de um momento formativo e de alerta para a violência sobre idosos exercida por cuidadores em ambiente familiar.

O psicólogo clínico  e forense Mauro Paulino, co-autor de um livro sobre maus-tratos a pessoas idosas, defendeu que é necessário capacitar profissionais para identificar sinais de violência a idosos que «muitas vezes podem passar despercebidos», e alertou para outras formas de violência mais silenciosas como a negligência, o abuso económico e o abuso emocional. 

Levantados 20 processos de violência

O ano passado, a unidade de apoio à vítima de violência doméstica da Associação PSI ON  fez o levantamento de 20 processos de violência doméstica contra pessoas idosas (maiores de 66 anos) no concelho de Famalicão.

Camila Neto, psicóloga e coordenadora do projeto “Velho Amigo”, acredita que o número de situações que ocorrem por ano é superior. Não são levantadas porque os idosos vítimas de maus-tratos ou os seus familiares não as comunicam, muitas vezes por não saberem da existência destas estruturas de atendimento a vítimas.

Manuela Martins, da Escola de Enfermagem do Porto, defendeu que é preciso criar redes multidisciplinares para responder aos problemas das familiar de forma diferenciada.  «Temos que dar cuidados diferentes, porque nós estamos muito modelados a pensar que a rede é para dar apoio nos cuidados de higiene, na alimentação, e há outro tipo de cuidados que têm que ser desenvolvidos para, por exemplo, a família poder ter momentos de lazer, para o cuidador poder passar uma noite sossegado. É um erro nós pensarmos que um cuidador pode estar 24 horas por dia a cuidar e em contínuo, para isso tinha que ser um robô», disse.

Na sessão de abertura, Miriam Soares, da Delegação da Ordem dos Advogados de Famalicão, traçou uma perspetiva jurídica sobre os novos estatutos do Cuidador Informal e do Maior Acompanhado, tendo considerado que no Estatuto do Cuidador Informal podia-se ter ido mais longe.

«Os cuidadores continuam a ser pouco cuidados», assinalou, defendendo a revisão do documento após discussão no Parlamento.

Uma das questões que levantou tem que ver com o conceito e a divisão entre o cuidador principal e não principal. «Em rigor, todos são cuidadores principais», referiu a advogada.

Miriam Soares disse ainda que o valor do subsídio de apoio atribuído ao cuidador é insuficiente para fazer face a todas as necessidades que ter uma pessoa cuidada implica: «443,20 euros, associados aos complementos de dependência que têm, é muito pouco, para além que está a cumprir um papel que é do Estado».

Por outro lado, notou que ainda há muito a fazer no campo da formação, da preparação e também no assegurar o descanso do cuidador informal, para evitar a exaustão, conflitos e até violência.

Sinalizados em Famalicão 174 cuidadores informais

O projeto Cuidar Maior, promovido pelo Centro Social Paroquial de Requião, Famalicão,  está no terreno desde janeiro deste ano e já permitiu sinalizar 175 cuidadores informais no concelho de Famalicão.

Segundo a responsável pelo projeto, Helena Correia, no concelho famalicense há mais cuidadores informais, sendo a meta deste projeto de itinerância chegar a 272 cuidadores até março de 2023, data que encerra o Cuidar Mais.

Apoiado pelo Portugal Inovação Social, o Cuidar Mais é um projeto de intervenção individualizado, personalizado na prevenção e intervenção precoce no combate ao Burnout dos Cuidadores Informais. Helena Correia espera que o projeto tenha continuidade.

A PSI ON – Associação para a Educação , Desenvolvimento e Intervenção nas Comunidades, presidida por Susana Oliveira,  fez o ano passado 751 atendimentos presenciais, para além dos muitos atendimentos por telefone, já que 2021 ainda sofreu bastante o impacto da pandemia.

A PSI ON dá apoio jurídico, apoio social e apoio psicológico a vítimas de violência doméstica.

[Notícia na edição impressa do Diário do Minho]





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