Espaço do Diário do Minho

A falar é que a gente se entende

26 Jun 2022
Paulo Sousa

A única estratégia que podemos desenvolver para termos cidadãos e cidadãs politicamente ativos, fora do período eleitoral, reside na nossa capacidade para colocarmos o tema da Democracia e tudo o que ela implica, no quotidiano do nosso debate, sem otimismo em excesso e atrativo quanto baste para alimentar o debate de ideias. A semana que agora terminou teve o condão de trazer a público o tema da Democracia, das eleições e do financiamento dos partidos, em diferentes lugares e propósitos, através do Presidente da Assembleia da República, do atual Presidente da República e do seu antecessor e ainda da Frente Cívica. Todos se pronunciaram em áreas a que não estamos habituados, fora do período eleitoral e assim deve ser quando temos razões de sobra (guerra, crescimento dos regimes autocráticos e radicalismos) para não o fazer apenas de quatro em quatro anos. O presidente do Parlamento, Santos Silva, começou por pedir “clarificação” na legislação eleitoral, na tomada de posse dos membros da CNE resumindo em três palavras o caderno de encargos para a Assembleia da República: “simplificar, desmaterializar e corrigir”. Num debate sobre “Jovens, jornalismo e política”, o tema foi a abstenção e a dúvida se a ausência dos jovens nas eleições, pode ser resumida a um “ciclo de vida” ou a um “fenómeno geracional”. Santos Silva colocou o problema onde o seu antecessor, no discurso de despedida da Assembleia, tinha apresentado a questão: porque é que os jovens que abraçam inúmeras causas como a sustentabilidade, estão ausentes do exercício da política ativa?- A resposta, não está apenas, no desinvestimento do país na formação política dos seus cidadãos, mas na incapacidade dos partidos políticos para acompanharem as exigências de uma sociedade instantânea pouco motivada a perder tempo com os fenómenos partidários, atolados por escândalos, falta de transparência, e uma degradante incapacidade de comunicação, confundindo esta com propaganda e informação a peso. Em Fafe, Cavaco Silva, também falou desta realidade, falando da “deterioração da qualidade da Democracia”, do aumento da abstenção e do desinteresse dos jovens e do próprio afastamento das elites profissionais da vida política partidária ativa. Não me lembro que esta preocupação o tenha motivado a fazer mais quanto estava no palácio de Belém, mas é melhor tarde do que nunca, desde logo na abordagem à criação de um ciclo nacional de compensação. A Frente Cívica pediu audiências públicas para que a discussão em torno do financiamento partidário, não se fique pelos corredores da Assembleia. Fez bem, mas esta disponibilidade dos eleitos, para tornar esta possibilidade, algo corriqueiro, está longe de ser uma realidade. E Marcelo? – Fez o que devia e apontou o caminho desejável: “a democracia precisa que se vá metendo golos todos os dias. Já basta os golos que sofremos de vez em quando pela vivência democrática, porque em democracia não é possível apagar os golos que se sofre”. As suas palavras, numa conversa organizada pela Comissão comemorativa dos 50 anos do 25 de Abril, sobre a luta estudantil no final da taça de 1969, foram certeiras. Falta saber é como o devemos fazer. Abordar esta problemática, sem apontar soluções, é um erro que se deve evitar. Trabalhar o fenómeno da Democracia participativa e as diferentes soluções que têm sido experimentadas um pouco por toda aEeuropa, nomeadamente na vizinha Espanha, é um caminho que pode mobilizar as comunidades locais, sem que se caia na tentação absurda de querer alienar o património da arquitetura do Estado democrático, eventualmente substituída por um poder popular imaginado pelos mais entusiastas “engenheiros” da Democracia participativa. O equilíbrio entre os deveres dos eleitos e as expectativas dos eleitores, tem um custo. A Democracia está cada vez mais cara, exigindo de todos nós um sacrifício para que ela se mantenha saudável. No Eurobarómetro do Parlamento Europeu, publicado, esta semana, apenas quarenta e nove por cento dos portugueses consideram que é prioritária a defesa de valores europeus comuns como a liberdade e a democracia, mesmo que isso possa atingir os preços e o custo de vida. Uma minoria preocupante, inferior em dez por cento à média europeia, o que deve motivar e mobilizar as cidadãs e os cidadãos a exigirem um amplo debate e uma alteração radical na postura da classe política, para que esta e outras questões façam parte do quotidiano das nossas preocupações.



Mais de Paulo Sousa

Paulo Sousa - 25 Set 2022

Caro amigo, camarada, Monsenhor, Todas as palavras que possa escrever esquecerão, inevitavelmente, muito dos predicados que lhe são merecidos, mas manda a razão dos factos, que me cinja, nesta curta mensagem, a destacar a sua nobreza de princípios e de valores tão caros à Democracia e à Liberdade de Expressão que, não o fazer, seria […]

Paulo Sousa - 18 Set 2022

Ursula Von Der Leyen não surpreendeu no seu discurso, mas foi evidente o seu mal-estar perante a incapacidade da Europa se defender dos ataques ao Estado de Direito e aos valores europeus. Proclamar a necessidade de um Pacto de Defesa da Democracia comporta, em si só, uma confissão da inabilidade da Comissão de responder aos […]

Paulo Sousa - 11 Set 2022

Um trabalho desenvolvido pelo Diário de Notícias revelou esta semana os números crus do que tem sido a progressiva degradação da participação militante das cidadãs e dos cidadãos na vida dos partidos políticos. Apenas 2 por cento do universo da população diz sim à participação e mesmo assim isso não significa sucesso para os objetivos […]


Scroll Up