Espaço do Diário do Minho

Tarantini, um exemplo a seguir

25 Jun 2022
Carlos Mangas

Em fase final de ano letivo e com o reinício de época futebolística à porta, dou comigo a pensar nos atletas/estudantes para quem as férias não são mais que uma miragem. Ainda nas escolas a realizar exames que lhes possibilite acederem a um outro patamar estudantil e, simultaneamente, quase de volta aos clubes para início de trabalhos com vista à nova época. Isto, numa semana em que um ex-futebolista concluiu com sucesso o seu percurso de estudante de alto rendimento, também. Refiro-me a Tarantini cujo percurso futebolístico é por demais conhecido, que cumulativamente teve sucesso num percurso escolar e universitário, provando ser possível conciliar as duas vertentes. Casos de sucesso académico e desportivo, nas outras modalidades – usando a gíria futebolística – são…aos pontapés, mas no futebol, nem tanto. O que diferencia então o sr. Prof. Dr. Tarantini de tantos outros futebolistas que, obrigatoriamente, começam todos por ser… estudantes? Não estarei longe da verdade se disser que é essencialmente a cabeça e o uso que dela fazem, os potenciais futebolistas e aqueles que mais de perto com eles lidam.

Na comemoração dos vinte anos da Academia de Alcochete (ou Cristiano Ronaldo) uma das pessoas mais capacitada para falar sobre deteção de jovens com potencial, afirmou: “Agora é só Ronaldos por todo o lado e os pais a quererem ser o empresário, Jorge Mendes”. Dando algum desconto ao exagero, entendo que a afirmação do sr. Aurélio Pereira tem algum fundo de verdade e talvez se encontrem, também aí, as razões do diminuto sucesso académico, universitário, principalmente, em futebolistas profissionais.

Desde muito cedo os jovens que se destacam nos seus escalões etários começam a “queimar etapas” integrando escalões superiores. A proliferação de equipas sub 23 e equipas B leva a que muitos jovens, com potencial, sejam “puxados” para esses patamares competitivos com graus de exigência superior. Não podem é, por esse facto, abandonar a escola, acreditando que a sua profissão de sonho, bem remunerada, está ali ao virar da esquina. Nestas alturas seria fundamental a ajuda dos pais, dos treinadores, dos professores, para lhe fazer perceber que nada está conquistado no futebol e que a carreira dual – desportista e estudante de eleição – é sempre possível e desejável. O problema é que os agentes mencionados, muitas vezes, não ajudam. Já aconselhei jovens atletas que pretendiam seguir a via do alto rendimento no desporto a dividirem o ano escolar em dois, permitindo-lhes dessa forma a conquista de objetivos desportivos, mas mantendo o foco académico também.

Que o exemplo de Tarantini seja uma lição de vida para os inúmeros “potenciais talentos” que surgem atualmente nas academias que proliferam no país. Há um provérbio japonês que pode ajudar a perceber como conseguir o duplo sucesso. Diz assim: “Treine enquanto eles dormem, estude enquanto eles se divertem e, então, viva o que eles sonham”. Seguindo estes princípios, acredito que possam surgir mais Tarantinis.



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