Espaço do Diário do Minho

Inflação e pobreza

22 Jun 2022
Carlos Vilas Boas

Os últimos indicadores relativamente à inflação são devastadores, tendo em Portugal atingido o valor de 8,1% no mês de maio transato, igualando a média da taxa de inflação na zona euro, valor impensável para os países aderentes à moeda única europeia, a mais alta no nosso país nos últimos 30 anos, depois dos 9,56% verificados em 1992.

A importância da estabilidade dos preços afere-se desde logo por se tratar o primeiro dos critérios de convergência (também conhecidos como Critérios de Maastricht), para integrar o euro. O problema é que para combater a inflação, é necessário “arrefecer a economia”, pelo que os Bancos Centrais aumentaram ou vão subir a taxa de juro, o que representa um crescimento menor do PIB e más notícias para quem tem créditos, incluindo à habitação, porque, com o aumento dos juros, as prestações vão ficar mais caras.

Se é duvidoso o sentido da expressão “há vida para além do déficit”, cuja autoria Jorge Sampaio repudiou, já da subida em flecha da inflação pode dizer-se que para além dela há muito menos qualidade de vida, sobretudo para as pessoas com rendimentos médios e baixos.

A pobreza e a inflação têm uma evidente conexão devido ao facto que o dinheiro tem valor. A pobreza corresponde à falta de recursos económicos, sendo que, à medida que o custo das necessidades básicas aumenta, a quantidade de recursos financeiros necessários para suprir essas necessidades também aumenta. Usando o conceito de “poder de compra”, o aumento dos custos leva à diminuição do poder de compra, se o aumento do rendimento de uma pessoa não aumentar a uma taxa tão alta quanto a inflação, com o que se tornará mais pobre.

A realidade demonstra que elevadas taxas de inflação não são em regra acompanhadas por aumento proporcional dos rendimentos, designadamente provenientes do trabalho.

Em Portugal, entre fevereiro e maio do corrente ano, segundo a Deco, o preço de um cabaz de bens essenciais disparou 11,78%. Os combustíveis e a energia doméstica subiram mais de 20%. E o grande problema que se acentuará nos próximos meses é a subida da taxa Euribor, referencial para os empréstimos hipotecários na compra de casa para habitação, que de per si pode representar aumentos mínimos no custo que as famílias terão de suportar mensalmente de trezentos euros, a que não podem escapar, pois ainda que possam diminuir a aquisição de produtos alimentares e reduzir as viagens em viatura de modo a poupar combustível, no caso da prestação da casa isso não é possível.

Os rendimentos do trabalho dos portugueses estão longe de acompanhar o aumento da inflação. Veja-se o caso dos funcionários públicos que tiveram para 2022 um aumento de 0,9% e, quando já se percebeu que a previsão de 4% para a inflação deste ano não será cumprida, ainda assim o governo declarou que não vai haver novos aumentos este ano, não sendo de olvidar que os salários nas empresas privadas tendem a acompanhar os aumentos da função pública.

Esta posição de um governo socialista pode surpreender muitos, mas demonstra que a matriz clássica do socialismo é engordar o Estado. Daí que não prossiga uma política social que, pelo menos, faça reverter para os mais desfavorecidos e a classe média, o excedente de impostos que vem arrecadando com o aumento dos bens, por exemplo, o resultante do Iva. pois como imposto que incide sobre o preço de um bem, o aumento deste reflete-se automaticamente no aumento proporcional daquele.

Montenegro veio a terreiro defender que esse excedente deveria ser integralmente devolvido aos mais carenciados. Concordo, mas admito que, considerando que o BCE anunciou recentemente que terminará com todo o tipo de aquisição de novos ativos, países como o nosso com divida pública elevada terão de a reduzir. Mas tão importante como apoiar os mais pobres, é saber como o fazer. Entregar o dinheiro às IPSS é de longe a melhor solução, pois são as entidades que melhor estão colocadas na prestação do apoio social. O governo perde-se em burocracias.

Uma última preocupação para os efeitos que o aumento da energia e dos bens alimentares tem na perceção ocidental perante a Ucrânia, atendendo a que o conflito com a Rússia é elemento preponderante nessa evolução. É de temer que o prolongar da guerra e o crescimento dos seus efeitos, leve à desunião dos países da EU, que conduza a forçar a Ucrânia a um acordo que passe pela cedência dos territórios fronteiriços como o Donbass.



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