Espaço do Diário do Minho

Deus tem um «caso» com a humanidade

22 Jun 2022
João António Pinheiro Teixeira

  1. Deus criou o mundo para a humanidade (cf. Gén 1-2). E criou a humanidade à Sua imagem e semelhança (cf. Gén 1, 26-27).

Como se não bastasse, Deus enviou-nos o melhor que tinha, o melhor que tem: o Seu Filho (cf. Jo, 1, 14). Por nós Ele deu a vida (cf. Jo 18, 31), para que tenhamos vida (cf. Jo 10, 10).

  1. Está visto que Deus tem um «caso» com a humanidade: um «caso» de amor, de amor entranhado, de amor desmedido, de amor completamente apaixonado.

Não faltou quem considerasse este «caso» de amor como um «caso» de «loucura» (cf. 1Cor, 1, 18). Como é que Alguém tão alto pode descer tão «baixo» (cf. Fil 2, 7-8)?

  1. O certo é que Deus não cessa de Se identificar com os que estão em «baixo». Tudo o que é feito a eles é como se fosse feito a Ele.

Deus está sobretudo com os pobres (cf. Mt 5, 3), com os pequenos (cf. Mt, 25, 40), com os humildes (cf. Mt 11, 29), com os que choram (cf. Mt 5, 4), com os perseguidos e espezinhados (cf. Mt 5, 10-11).

  1. Realmente, é preciso ser Deus para amar assim a humanidade. E para, dentro da humanidade, ter «coragem» de amar os menos amados.

Nem o mais egocêntrico consegue amar-se tanto como Deus o ama.

  1. Não espanta pois que tudo o que Deus quer da humanidade se condense precisamente no amor.

Daí o mandamento: «Amai-vos» (cf. Jo 13, 34; 15, 12).

  1. Só que – lamentavelmente – a humanidade interpolou um «r» entre o «a» e o «m».

E é deste modo que, em vez de «Amai-vos», parece ouvir «Armai-vos».

  1. É por isso que o «caso» de amor de Deus com a humanidade está longe de ser correspondido.

A humanidade tem um «caso», mas de ofensas, de corrida aos armamentos, e de mortes sem fim. É, portanto, tempo de «reaprender» a recolocar o amor no lugar do ódio.

  1. Os primeiros cristãos acolheram esta lição com enorme coerência.

Muitos soldados, quando eram baptizados, depunham imediatamente as armas.

  1. Em 295, São Maximiliano foi decapitado por se negar a integrar o exército: «Não posso praticar o mal; não serei um soldado deste mundo».

E, um século antes, São Justino – também ele martirizado – expunha o espírito que animava os cristãos: «Nós, saturados das guerras, transformamos as nossas espadas em arados e as nossas lanças em alfaias agrícolas, cultivando a piedade, a justiça e o amor».

  1. Assim sendo, porquê teimar em fazer do mundo – palavras de Dante – uma «eira que nos torna tão ferozes»?

Paremos. As nossas pressas – no falar, no pensar e no agir – também incorporam o fermento da violência. Toda esta agitação descontrolada bloqueia o desabrochamento da paz dentro de nós. E sem paz dentro de nós, quando haverá paz à volta de nós?



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