Espaço do Diário do Minho

O jejum noticioso

18 Jun 2022
Manuel Antunes da Cunha

Em Portugal, 61% da população diz ter confiança nas notícias, o que nos coloca em segundo lugar duma amostra constituída por 46 países. A título comparativo, em territórios como o Reino Unido (36%), Espanha (32%), França (29%), Taiwan (27%) e Estados Unidos (26%), apenas um terço dos residentes faz fé na informação que consome. Em termos gerais, nos últimos cinco anos, o interesse pelas notícias caiu de 63% para 51%. Uma leitura simplista correlacionaria, sem mais, os resultados nacionais com a qualidade dos nossos órgãos de informação, ocultando parâmetros como a literacia mediática ou o contexto sociopolítico e económico. A realidade é sempre complexa. Um olhar sobre as práticas emergentes noutras latitudes desvela orientações que, a curto e médio prazo, podem vir a confirmar-se por cá.

Em parceria com a Universidade de Oxford, o Reuters Institute for the Study of Journalism publica anualmente o Digital News Report, um relatório que sintetiza as grandes tendências da comunicação social nos diversos continentes. A edição 2022, para a qual colaboraram 246 profissionais do setor, destaca o fenómeno crescente do “jejum noticioso” (news avoidance). De facto, 38% dos cidadãos passou a evitar, “às vezes ou muitas vezes”, o consumo informativo. Por ordem decrescente, os motivos invocados prendem-se com a saturação de matérias sobre política e/ou a Covid, os efeitos negativos das notícias sobre o estado de espírito, o cansaço suscitado pelo fluxo informativo, a desconfiança relativamente ao conteúdo (falso ou tendencioso), o evitamento de conflitos e o simples desinteresse. Nos últimos cinco anos, essa evasão seletiva duplicou em países como o Brasil (54%) ou o Reino Unido (46%).

Desde 2013, o consumo semanal dos media impressos caiu de 63% para 26% e o da informação televisiva de 82% para 65%. Embora a leitura das notícias nos media digitais e nas redes sociais tenha crescido um pouco, ultrapassando os canais em sinal aberto, os inquéritos sucessivos registam um aumento do número de cidadãos totalmente desconectados, representando já 5% da população (2% em Portugal), em 2022. Paradoxalmente, uma franja dos meios de comunicação insiste em replicar a agenda noticiosa dos principais concorrentes. Por sua vez, uma parte significativa das grelhas dos canais de informação contínua regurgita os mesmos temas até à exaustão, dando voz a um número limitado de protagonistas – quase sempre os mesmos –, e mais espaço ao sensacionalismo do que a uma genuína investigação. É verdade que os números relativos a Portugal não são tão alarmantes como noutros territórios, mas tal não significa que não partilhemos, embora com algum atraso, a mesma tendência.

Um dos aspetos positivos registados nos últimos anos tem a ver com o crescimento gradual do número de assinantes digitais (17%). Uma informação de qualidade custa dinheiro. A publicidade e as subvenções públicas não chegam e nem sempre são garantia de independência editorial. Em Portugal, apenas 12% dos inquiridos paga por conteúdos informativos online (assinatura ou notícias a granel) de cariz nacional, sendo ainda menos os que o fazem quando se trata da imprensa regional (3%) ou de títulos estrangeiros (4%). Persuadir os mais jovens é um desafio crítico, uma vez que a média de idade do assinante digital ronda os 50 anos. Todavia, no atual contexto de crise económica, tais assinaturas correm o risco de serem as primeiras sacrificadas, dado que são consideradas como bens não essenciais por muitos consumidores.

A confidencialidade dos dados constitui outra questão crucial. A nível internacional, apenas um terço dos usuários (32%) acredita que os sites noticiosos utilizam os dados pessoais de forma responsável, sendo que nos Estados Unidos (18%) e na França (19%) a confiança é bem menor. O recurso aos podcasts, vídeos (em formato direto, curto ou documentário) e newsletters constituem algumas das principais apostas dos grandes grupos de informação para potenciar maiores índices de fidelização. Não falta matéria para refletir e mudar o rumo dos acontecimentos…



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