Espaço do Diário do Minho

O homem que queimou as imagens dos santos

14 Jun 2022
Eduardo Tomás Alves

  1. A aldeia da minha avó). A mãe da minha mãe era natural de certa aldeia do vasto e populoso concelho da Feira, onde viveu a infância e juventude (até casar com um médico, já profª primária e ter ido viver para a vizinha Ovar). Essa aldeia, nas planícies agro-florestais que medeiam entre as então vilas da Feira e de Ovar, era terra de gente de raiz céltica e pouco instruída; o único doutor era um juiz, que só lá vinha passar férias. E havia também o meu bisavô Vicente, prof. primário (dos Coelhos e Castros, de Fiães), que lá casara e onde residiria toda a longa vida de 92 anos. Homem alto e de olhos azuis, de aspecto e arcabouço bismarckiano, era violinista, campeão do jogo do pau, polemista nos jornais, cavaleiro, caçador e, quando jovem, monárquico (foi ele que leu um dos discursos de boas-vindas, na Feira, ao rei D. Manuel II em 1909). Como porém era primo do futuro deputado republicano (e maçónico) dr. Elísio de Castro (1869-1956, o qual foi sogro da única filha casada do célebre Afonso Costa…), o meu bisavô tornou-se republicano; e só na extrema velhice concedeu algum óbvio mérito a Salazar. Essas inclinações democráticas (à excepção da minha avó e marido e dos que foram para Moçambique) transmitiram-se a boa parte da sua numerosa descendência; e foi concretizada em seu filho, o popular médico Arnaldo Coelho, o 1.º pres. da câmara feirense depois de 1974.

  2. Aldeia dos ciclistas e das alcunhas). Os Joaquim Andrade (pai e filho), Eduardo Correia e outras estrelas do ciclismo nacional eram naturais de lá. O voleibolista João Brenha, olímpico 3 vezes (e que, com Miguel Maia ficou em 4.º lugar, uma ou duas vezes) é meu primo, as nossas bisavós eram irmãs; e também é de lá. Havia raparigas da aldeia que, morenas ou claras, eram bem formosas; só não namorei com nenhuma, pela minha pouca idade e falsos preconceitos de classe, acreditem. Por outro lado, a aldeia até parecia ser do Alentejo, pois não havia família (incluindo a minha, “a do snr. Professor”), que não fosse sobretudo conhecida pelas alcunhas. A dos J. Andrade era a “dos Pataxos” ou “do Melendras” (e dessa gente havia duas jornaleiras encantadoras, no pomar do meu tio-avô Arnaldo). E de meia-idade havia a Zira (do “Bélgica”, pois era viúva dum emigrante “belga” precoce), a qual nos seus tempos era provavelmente a mais bela de todas e muito amiga da família. E havia a velha e pequena D. Rosinha “do Jaime”, homem que fora merceeiro; era mãe do saudoso sr. Fernando .

  3. Histórias do início do séc. XX, que a minha tia contava). Era um mundo antigo, que a minha saudosa tia-avó Hermínia (a mais bela de 4 bonitas irmãs) tão bem sabia retratar. Os cães que ladravam ainda o cavalo do meu bisavô não se avistava na estrada da Feira. Eram as partidas que os impiedosos miúdos da aldeia pregavam a umas algo avarentas velhas senhoras do Porto (as “Zèlinhas”), que passavam férias na aldeia, familiares já nem sei, de um tal Juquinha (ou seria do Venâncio?). Eram as partidas que o miúdo Arnaldo (meu padrinho) pregava a um bom vizinho lavrador (o velho “Cachorrão”), o qual, na sua eira, a dormitar, teimava que era o Sol que andava à volta da Terra (ele via com os próprios olhos…). Era a herança de uma rua inteira, de casas em Jaguarão (Rio Grande do Sul), que o meu bisavô, cauteloso, trocou por um açafate de ouro. Era a viagem que o vizinho Terra (e mulher) fizeram a Itália e comentava que afinal era tudo “casas e gente, como cá”. Era o exemplo do calceteiro Antero, homem pobre que enriqueceu imenso em Angola. Era um outro feirense que, aventureiro, desapareceu no mar, num voo de balão. Ou a de outro vizinho, que estivera alguns anos no estado do Amazonas, donde viera doente e sem enriquecer; e que (por ter traído a Maçonaria?) estava à espera de morrer; e morreu mesmo, já não me lembro como. E havia a “herança do tio Manuel” (irmão do meu bisavô), comerciante muito rico em Lourenço Marques; em que tivemos como advogado o dr. Almeida Santos, nos anos 50.

  4. O homem que queimou os retratos dos santos). Havia também a história daquele casal em que o marido era um teimoso ateu professo; mas que, para obter certa graça, foi convencido pela mulher a rezar aos santos da casa. Como por azar a graça não foi concedida, ele queimou todas as imagens de santos que havia em casa; e ficou localmente “famoso”…

  5. Desilusão com o S. António e com a Rainha Santa). Eu rezo mais a Deus que a Cristo e aos santos. E seria incapaz de ser iconoclasta ou iconocausta. Mas, qual Job, tenho aqui de deixar registado, neste nosso jornal católico, a minha desesperança e desilusão com os 2 santos atrás referidos. Logo eu, que pelo lado paterno descendo de uma longa linha de Antónios. E que, pelo lado materno tive um bisavô de Coimbra que era um fanático da sua “rainha-santazinha”; a qual morreu num 4 de Julho (dia em que eu nasci…); eu que, há anos, num dia de calor e de multidão, senti a vibração mística da passagem do seu andor; eu, que adoro as “jotas” que se cantam na terra dessa rainha aragonesa; que repousa lá no alto do “monte da Esperança”, em Santa Clara; e que, filho duma Isabel, tive um tio-avô paterno que foi gov. civil de Coimbra… “No comprendo”. Quanto ao eminente lisboeta e “padovano”, que os italianos quiseram alçar em santo mal morreu (com 36 anos), ele nasceu Fernando (de Bulhões, “cêntimos, tostões”?); seu pai seria prestamista? Possivelmente seria de tez morena, pois antes de ir para Itália, seu lírico sonho era evangelizar Marrocos; e só veio para trás porque o barco em que seguia naufragou. Reprovará ele o meu intenso e esclarecidíssimo eurocentrismo?



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