Espaço do Diário do Minho

Toponímia russo-ucraniana

31 Mai 2022
Eduardo Tomás Alves

  1. Versões russas ou ucranianas dos mesmos topónimos). Uma das novidades menos cruéis que traz este conflito russo-ucraniano é a constatação de que a maior parte dos nomes de cidades, vilas e rios locais, deixou de se dizer e escrever à maneira russa (que era a fonte directa para a versão do nome, em português, inglês, etc.); para se dizer ou escrever em ucraniano. Ora, o ucraniano é uma língua muito parecida com o russo (junto com o bielo-russo, são as 3 que preenchem o grupo oriental das línguas eslavas). É uma diferença mútua do nível da que existe entre o português e o espanhol (castelhano).

  2. Certas constantes na diferença das duas versões). As mais notórias serão a de que, onde os russos lêem um “g”, os ucranianos lêem um “h” aspirado. P. ex., Gostomel e Hostomel (a vila, com o aeródromo, a W de Kiev); ou Lugansk e Luhansk (o distrito e cidade, que com os de Donetsk formam o chamado “Donbass”); ou Ujgorod e Ujhorod, perto dos Cárpatos. Note-se que, o “j” empregue nas versões (fonéticas) com que escrevo, é usualmente substituído por um equivalente “zh”. Ou que o “C” com que começa Cernigov (Cernihiv), na verdade leva um acento de circunflexo invertido, que muda o som desse “c” para “tch” (lê-se Tchernigov). A 2.ª grande variante das versões russa e ucraniana, será a de, onde os russos lêem e escrevem “ie” ou “o”, a versão ucraniana dá “i” ou “yi”. Assim, p. ex., em Zaporozhe-Zaporizhia; ou em Kiev ou Kyjiv (lê-se “Kiv”); ou Dnipro, por Dniepro (- petrovsk, os ucranianos não gostam de manter o elemento que recorda o poderoso czar Pedro o Grande…); ou Dnistr (o rio), por Dniestr; ou Krivoj Rog (a terra natal do egocêntrico Zelenski, que significará “chifre curvo”, alusão a meandro do rio Ingulets) por Kryvyi Rih; ou então Lvov (em alemão, Lemberg, a cidade dos avós de Marx), Rovno, Ternopol, por Lvyv, Rivno, Ternopil. A 3ª variação parece bem menos frequente: é a alteração da letra “n” da versão russa (e internacional), para a letra “m”, no início de alguns topónimos. Assim, p. ex., na nevrálgica Mikulayiv (em russo, etc, Nikolaev, na confluência dos rios Bug do Sul e Ingul, fundada em 1788 como base naval russa). Note-se que, tal como em polaco, há a versão de Mikolaj, em vez de Nikolai; e que, lá perto, ficam as ruínas de Olbia, do tempo da velha Grécia. A própria terminação em “pol”, de várias cidades russo-ucranianas (Sevastopol, Melitopol, Mariupol) tem origem no étimo grego “polis”, cidade.

  3. O significado do nome “Ucrânia”). Nas línguas russa e ucraniana, quer dizer “fronteira, raia, marca, extremadura”. Isto é, uma zona de fronteira móvel, com algum Estado estrangeiro. No caso russo-ucraniano, os inimigos eram sobretudo o grão-ducado medieval da Polónia-Lituânia, mais tarde incorporado no reino da Polónia, a W e SW; e o vasto e poderoso império da Turquia, que ia desde a região da futura Odessa (um pequeno porto turco, de nome Hodja-bei, que Catarina II em 1789 destruiu e em cuja região criou o porto de Odessa) até à Argélia, passando por boa parte dos Bálcãs Hungria, Sérbia, Bósnia, Albânia, Macedónia e Grécia incluídas; e sendo o 3º inimigo o“Khanato da Crimeia”, dominado pelos tártaros locais (islâmicos), descendentes cruzados dos antigos mongóis, mas já vassalos dos mesmos turcos. Portugal e Espanha têm ambos as suas “Extremaduras” (no caso espanhol, as provs. de Cáceres e Badajoz, que tal como o nosso distrito de Leiria, não são independentes. A Áustria idem, ainda hoje incorpora a prov. da Estíria (Steyermark, capital em Graz). E a própria Áustria foi, no passado medieval, a “Ostmark” do Império Romano-Germânico. Até à 1ª Guerra Mundial (1914-18), o que é hoje Ucrânia não tinha autonomia especial; estava como o resto do Império Russo, dividida em “governos” (distritos,hoje “obtasti”). A irmandade com a Rússia era tal que os distritos do norte incorporavam algumas áreas que hoje são russas ou bielo-russas: Tchernigov, Poltava, Kharkov e Táurida (este no Sul, que incluía a Crimeia). Os outros eram a Bessarábia, Podólia, Kherson, Kiev e Yekaterinoslav.

  4. A evolução toponímica de Mariúpol, Donetsk e Lugansk). A aldeia que deu origem a Mariúpol, era Pavlovsk; em 1779 Catarina II autorizou gregos-ortodoxos a estabelecerem-se lá ; e mudou de nome para Mariúpol ; foi depois chamada Zhdanov (homenagem a este alto conselheiro de Stalin, lá nascido, 1896-1948); e isto desde 19 48 até à “perestroika”. Já Lugansk era desde 1935 a famosa Voroshilovgrad (em homenagem ao habilidoso e poderoso político e marechal estalinista K.Y. Voroshilov, 1881-1969); e data de 1795 (1ª fábrica de fundição), nas margens do Lugan (daí, Lugansk). A evolução de Donetsk ainda é mais curiosa. Descobriu-se carvão (em 1720) naquelas vastas planícies do “Donetski Bassein”. Mas só houve exploração intensiva e transformação de outros minérios no início do séc. XIX. A metalurgia foi lá fundada por um galês (John Hughes) em 1872. Daí que o nome da cidade, antes da Revolução de 1917, fosse Yuzhino; logo passou a Stalino; e desde 1961, Donetsk, por via do rio local. (Donets). O porto de Berdiansk (no mar de Azov) também se chamou Osipenko, entre 1939 e 58. Azovstal quer dizer “aço” (é o mesmo elemento de Stalin, derivado do alemão “stahl”), “do mar de Azov”. E a atrás referida Odessa (Hadji Bei) foi, segundo o Dictionnaire (Larousse) de Noms de Lieux, tomada aos turcos pelo general czarista de origem espanhola, Joseph de Ribas…



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