Espaço do Diário do Minho

Prevenir ou remediar?

24 Mai 2022
M. Moura Pacheco

«Mais vale prevenir do que remediar» – diz o povo na sua ancestral sabedoria e, ao senso comum, parece que diz bem. Mas, ao nosso Governo, que prefere remediar a prevenir, deve parecer que diz mal.

O aforismo popular aplica-se a todas as situações da vida, nomeadamente às doenças e, por maioria de razão, às epidemias e ainda por «maioria maior», às pandemias. Mas, em Portugal, o aforismo não tem aplicação.

Não é novidade para ninguém que a pandemia que há dois anos nos martiriza, voltou a crescer, entre nós, nas últimas semanas. Assustadoramente nos últimos dias. Mas o nosso Governo e o seu Ministério da Saúde não se assustam facilmente.

As novas infecções dispararam a partir do momento em que foram completamente abolidas as medidas restritivas – algumas bem simples como o uso de máscara. E, rapidamente, chegamos aqui: em sete dias 157.502 infectados; 191 óbitos; um R(t) 1,23; 1529 novos casos por 100.000 habitantes. E em 14 dias 32,5 óbitos por milhão de habitantes.

Com estes números, é absolutamente inadmissível que não seja obrigatório o uso de máscara em determinado tipo de estabelecimentos como – e sobretudo – em restaurantes onde os empregados respiram, sem máscara, para cima dos alimentos e dos clientes que servem. Mas também nos centros comerciais, supermercados e lojas. PELO MENOS aqui, a máscara deveria ser uma elementar e obrigatória medida de prevenção.

Aliás, já ouvi, nas televisões, um responsável por hotelaria e restauração (como agora se diz) pedir o regresso da obrigatoriedade das máscaras porque a classe sente que a clientela lhe está, de novo, a fugir, com medo da infecção. E os técnicos do Instituto Ricardo Jorge opinam que é urgente o regresso de restrições preventivas (como a máscara).

Mas isso é o que dizem os técnicos e os agentes no terreno. Os políticos dizem o contrário. Dizem que, para já, não se justifica ir tão longe, que bastará apenas acelerar a aplicação da quarta dose aos maiores de 80 anos. Mas, para já, nem essa aceleração se está a notar.

Resumindo: o Poder político é que sabe. Os técnicos, o senso comum e a sabedoria popular nada sabem – o correcto é preferir o remédio à prevenção. Prevenção, para já, SÓ a vacina e, mesmo assim, SÓ para maiores de oitenta anos. Os outros podem continuar a infectar-se mutuamente. Quando chegar a altura de se remediar, se remediará. (Quando? Como?)

Nisto, Presidente da República e Governo estão pacífica e politicamente alinhados: mais vale remediar do que prevenir.

Nota: por decisão do autor, o presente texto não obedece ao impropriamente chamado acordo ortográfico.



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