Espaço do Diário do Minho

Haverá uma oposição mais forte no horizonte?

24 Mai 2022
Luís Martins

Concordo com os que defendem que as eleições internas no Partido Social Democrata deviam seguir-se logo às legislativas. A organização partidária precisa de um rumo e esse só será possível com um novo líder. A desordem não é boa estratégia, nem para o partido, nem para o país. Mesmo para quem não é militante, o que se passa neste partido do chamado arco de governo tem muita importância. Um democrata que se preze, antes de privilegiar que um determinado partido se perpectue no poder, mesmo que seja aquele em que milita ou o que melhor defende os seus anseios, desejará que a alternância seja assegurada. O clubismo cego é inimigo da democracia e um factor de favorecimento do autoritarismo. Além do mais, o sistema democrático acaba por ficar enfraquecido quando não existe uma oposição forte, onde não pontue um partido com capacidade para governar o país e ser alternativa.

Mas, voltando ao princípio… No próximo fim de semana será eleito o novo presidente do segundo maior partido do espectro político português, aquele do qual poderá sair o eventual novo primeiro-ministro de Portugal. Muita água correrá, entretanto, debaixo da ponte, que as legislativas não se ganham em nenhum jogo de sorte e azar, mas com uma oposição à altura e com propostas credíveis, seguindo uma estratégia de fundista e não de curto prazo. O povo precisa de ser convencido da mensagem política, da consistência do discurso e das razões para a mudança. Ninguém muda de um dia para o outro. Não se troca o certo pelo incerto, mesmo que o primeiro seja sofrível. A maioria não mudará se não encontrar um propósito sério.

Foi pena que que os dois candidatos a presidir aos destinos dos sociais democratas não tenham chegado a acordo para os debates eleitorais, certamente mais esclarecedores do que os discursos de campanha a solo, sobre o que cada um pensa para o país. Ficamos todos mais expectantes, mas, sobretudo, os militantes que vão eleger o líder. Sabemos que são dois políticos conhecidos, um como presidente do grupo parlamentar dos sociais democratas e outro como ministro, ambos ao tempo de Passos Coelho. Sabemos que um é mais truculento do que o outro e que fez mossa na gestão de Rui Rio, prejudicando a estabilidade interna quando era mais necessária. E também que o segundo é mais sereno e que desempenhou, até há pouco, importantes funções na Europa. A decisão, claro, é dos militantes, mas os que estamos de fora havemos de ter as nossas preferências. Afinal de contas, um ou outro poderá vir a presidir a um novo Executivo no futuro, daqui a quatro anos, quando se realizarem as próximas eleições legislativas, caso consigam convencer, primeiro, o partido, e depois, a maioria dos portugueses, de ser portador das melhores propostas para o país.

Os tempos não serão fáceis, até por que o actual Governo conta com apoio maioritário unicolor no Parlamento. Depois, por que nenhum dos candidatos tem assento no hemiciclo da Assembleia da República, ficando prejudicada a coordenação das posições a tomar nas votações e nos trabalhos quotidianos dos deputados. Para além disso, os parlamentares sociais democratas não são escolha nem de um nem de outro dos candidatos, o que poderá ser factor de conflitualidade ou de falta de adesão a alguma orientação que chegue de cima. Serão quatro anos de muito trabalho, de muito jogo de cintura, sendo necessária muita dedicação e inteligência para manter o grupo parlamentar coeso, assim como para manter as diferentes equipas de trabalho político em sintonia e bem assim uma grande capacidade política para contraditar a validade das medidas que forem sendo decididas pelo Governo e pela maioria socialista e apresentar propostas com superior valia sobre os vários assuntos em agenda.

A oposição do Partido Social Democrata já está atrasada, considerando que a legislatura já tem quatro meses. Atrasado também está o CDS-PP que, apesar de não ter meios para fazer oposição na Assembleia da República, a poderia fazer recorrendo a outros expedientes. O problema é que, depois da hecatombe eleitoral, não consegue desprender-se das guerras internas, sem fim à vista, que o estão a consumir mais e mais.



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