Espaço do Diário do Minho

É urgente uma «terapia da escuta»

24 Mai 2022
João António Pinheiro Teixeira

  1. Já teremos percebido que as palavras, que não param de sair dos lábios, dificilmente entram nos ouvidos?

Impõe-se, pois, perguntar: será que, na era da comunicação chegamos a comunicar?

  1. Para cada enfermidade, é vital encontrar a melhor terapia.

Tendo em conta – como observou Javier Aranguren – que o ruído é uma das maiores enfermidades do nosso tempo, a alternativa tem de incluir o silêncio.

  1. É sintomático verificar que, há já muitos séculos, o Buda terá recomendado aos seus discípulos que, «ao ruído, preferissem o silêncio».

Aliás, o próprio Jesus não deixou de nos aconselhar a entrar no silêncio do nosso quarto e até a fechar as portas para orar (cf. Mt 6, 6).

  1. Uma das formas mais saturantes de ruído – que a actualidade tem exponenciado – tem que ver com o (ab)uso das palavras.

Sem que talvez o advirtamos, estamos a fazer degenerar a comunicação em gritaria. Queremos que nos oiçam, mas quem se dispõe a ouvir?

  1. Até quando convidamos alguém para intervir, parece que aquilo que pretendemos é mobilizar quem nos escute, dado que não paramos de falar – nem de interromper – quando o outro fala.

E é assim que, como observa o filósofo Abraham Kaplan, o «diálogo» pode não passar de um «duólogo», ou seja de um monólogo a duas vozes.

  1. Hoje em dia, os discursos não se alternam; tendem a sobrepor-se. Acontece que, se todos falam em simultâneo, como é possível comunicar, pois desse modo ninguém consegue escutar?

Não deveríamos pugnar pela coexistência entre o irrenunciável «direito à palavra» e um salutar «dever do silêncio»? Acresce que nem os espaços sagrados (como as igrejas) nem os tempos de recolhimento (como as noites) estão imunizados diante do persistente assédio do ruído.

  1. Vivemos numa época em que muitos acorrem à «terapia da fala». Quem recorre, porém, à «terapia da escuta»?

É, sem dúvida, importante ensinar a falar. Não será, contudo, ainda mais urgente aprender a escutar? Se ninguém escuta, que sentido tem falar?

  1. Em tempos, leccionava-se Oratória nas escolas. Porque não introduzir uma cadeira de Escutatória no ensino?

Era o que defendia, por exemplo, Rubem Alves. E despertava a nossa (descomandada) atenção com um exemplo luminoso.

  1. «No fundo do mar – notava – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório, ouvimos a melodia que antes ninguém ouvia».

Para o pensador brasileiro, «Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí também a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a minha beleza se juntam».

  1. Sonho, pois, com iniciativas em que só nos olhemos e abracemos, partilhando sorrisos e lágrimas.

Idealizo encontros em que ninguém mova os lábios, em que só abramos a alma. Em que os ouvidos não contabilizem palavras. Mas em que – todos – sejamos capazes de escutar a «voz» do coração. Não dizendo nada, compreenderemos (quase) tudo!



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