Espaço do Diário do Minho

O santo da alegria

23 Mai 2022
P. João Alberto Correia

Celebra-se, no próximo dia 26, a memória litúrgica de Filipe de Néri, um dos grandes santos da História da Igreja, conhecido habitualmente como “o terceiro Apóstolo de Roma” (depois de Pedro e Paulo), “o santo da alegria” ou “o fundador do Oratório”.

Nasceu em Florença (Itália), a 26 de julho de 1515. Filho de Francesco e Lucrezia Néri, muito cedo ficou órfão de mãe. Foi com os dominicanos do famoso Mosteiro de S. Marcos que recebeu muitos dos ensinamentos religiosos. Na adolescência, estudou humanidades, cultivou a poesia e a música e apreciou as belezas do campo. O seu proceder mereceu-lhe o título carinhoso de “Pippo buono” (Filipe bom).

Aos 18 anos, foi enviado para casa de um tio que vivia perto da abadia de Montecassino mas, três anos depois, transferiu-se para Roma, onde estudou na Universidade La Sapienza. Era muito alegre e, por isso, ficou conhecido como “o santo da slegria”. Repetia muitas vezes a frase: “Longe de mim o pecado e a tristeza”. Além disso, entregou-se à pregação ambulante, pelo que foi chamado “Apóstolo de Roma”. Fazia-o com tal bonomia, vivacidade e espontaneidade que alguém o designou “o mais italiano de todos os santos”.

Ordenado sacerdote em 1551, tinha por hábito frequentar os bairros mais pobres, os hospitais mais abandonados e as prisões mais terríveis. Reunia à sua volta os rapazes abandonados e punha-os a cantar. Assim começou a desenhar-se aquilo que, mais tarde, viria a chamar-se “oratório do amor divino”, ou simplesmente “Oratório”, um espaço onde se desenvolviam muitas atividades: a princípio, o esquema consistia numa série de reuniões noturnas num salão (O Oratório), no qual havia orações, hinos e leituras das Escrituras, dos Padres da Igreja e do Martiriológio. Seguia-se uma palestra ou discussão de alguma questão religiosa proposta para consideração. As seleções musicais (cenários de cenas da história sagrada) foram chamadas de oratórias. Giovanni da Palestrina foi um dos seguidores de Filipe e compôs música para esses serviços.

A fim de prolongar e promover este apostolado, em 1565, em Roma, fundou os Oratorianos, sociedade de Padres seculares dedicados à educação e ao acompanhamento da juventude. Tanto quanto pude saber, em Portugal apenas estão presentes em Lisboa.

O programa desenvolveu-se e os membros da sociedade empreenderam vários tipos de trabalho missionário em Roma, principalmente a pregação de sermões em diferentes igrejas todas as noites, uma ideia nova na época. Passou também grande parte do seu tempo ouvindo confissões, contribuindo, deste modo, muitas conversões.

Os Oratorianos marcaram presença na nossa cidade de Braga, na Igreja dos Congregados e edifício anexo (hoje, Escola de Música da Universidade do Minho), entre os finais do século XVII e a extinção das ordens religiosas masculinas, no nosso país, em 1834.

Para prover às necessidades dos rapazes que acolhia no Oratório, Filipe pedia pelas portas. Um dia, um senhor, enfastiado com os seus pedidos, deu-lhe uma bofetada. Filipe respondeu: “isto é para mim e agradeço-lho. Agora, dê-me alguma coisa para os meus rapazes”.

A sua profunda sabedoria manifesta-se em ditos como os que, a seguir, se apresentam: “não procureis nunca fugir àquela Cruz que Deus vos manda, porque seguramente encontrareis outra maior”; “quem não entra no inferno, estando vivo, corre o risco de lá cair depois de morto”. Sábia era também a forma como terminava as celebrações e despedia os fiéis: “coragem! a vossa hora de oração está acabada, mas não está acabado o tempo de praticar o bem”.

Amado, admirado e venerado por vários Papas, nunca aceitou o cardinalato e, aos 80 anos, caindo gravemente doente, morreu. Foi no dia 26 de maio de 1595, a seguir à festa do Corpus Christi, dia que ele passara a ouvir em confissão e a receber visitantes. Desaparecia um grande homem, uma das grandes figuras da Contra-Reforma, mas ficava para a posteridade uma obra gigantesca e um notável exemplo de vida.

Foi beatificado pelo Paulo V, em 1615, e canonizado por Gregório XV, em 1622. O seu corpo é venerado na Chiesa Nuova, em Roma.

Numa época em que a Igreja se interroga como evangelizar e educar para a fé os jovens, talvez não seja preciso inventar muito. O modelo do Oratório continua válido. Pena é que seja, entre nós, quase desconhecido e, por isso, se lhe dê muito pouco valor.



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